O CyberLacan é um projeto de estudo da obra de Jacques Lacan. A aposta é que a tecnologia pode tornar visível o que, no papel, fica parado.
Três frentes
Corpus
Os seminários lidos lição por lição, com as datas reais das sessões. A data é a “chave de leitura”: é ela que diz quando um conceito aparece e o que ele significava naquele momento do ensino.
Instrumentos
Figuras manipuláveis, construídas com a ajuda da tecnologia. Não substituem a leitura: dão a ela algo em que se apoiar.
Pesquisa
Ferramentas para localizar: onde cada conceito aparece, como um termo muda de sentido de uma década a outra, o que separa um seminário de outro.
O que o projeto não é
Não é uma introdução que dispense os textos, nem um intérprete autorizado. Cada afirmação remete a uma lição datada, e o caminho de volta às transcrições fica sempre aberto: é por ele que tudo aqui pode ser conferido, discutido e corrigido.
A tecnologia entra como meio facilitador. Contar ocorrências, cruzar datas, expor algumas das formalizações de Lacan de maneira a propor a compreensão por outra via. Aqui, a tecnologia devolve o material para ler melhor, nunca a leitura pronta.
Em andamento
Os seminários entram aos poucos, revistos um a um contra as transcrições (Staferla), e novos instrumentos estão em construção. Se você quiser participar, veja como colaborar.
colabore
Um trabalho que se faz com outros
O CyberLacan está em construção, e ganha com quem lê Lacan de perto. Se você estuda, pesquisa, ensina ou pratica a partir da teoria lacaniana, sua leitura pode tornar este trabalho mais preciso.
Formas de colaborar
Revisar uma ficha de seminário: conferir datas, achados e os resumos das lições contra as transcrições.
Apontar um erro de data, de atribuição ou de leitura. Toda correção é bem-vinda, e mais ainda quando vem com a fonte.
Propor um instrumento: uma figura, um esquema ou um conceito que ganharia em poder ser manipulado.
Indicar referências, traduções e edições que deveriam estar no site.
Levar o projeto a grupos de estudo, cartéis e seminários, e contar o que funcionou e o que não funcionou.
“O inconsciente é estruturado como uma linguagem”, tomado ao pé da letra. O sentido que só chega depois, as palavras que se ligam pelo som, o corte que faz de uma frase uma outra.
É o Lacan dos anos 1950: Saussure e Jakobson relidos com Freud — a metáfora, a metonímia, o ponto de basta, a escansão da sessão.
INSTRUMENTO 01 · VERBO: BASTEAR
O ponto de basta
Você não sabe o sentido das primeiras palavras de uma frase até que a frase termine. E quando termina, o sentido não avança: ele volta.
Point de capiton é literalmente o ponto do estofador: o botão que atravessa o estofamento e prende o tecido à estrutura, impedindo que ele deslize. Lacan escolhe essa imagem porque ela tem três propriedades exatas: o ponto é pontual (não é uma costura contínua), ele prende duas camadas heterogêneas (o significante e o significado, que não se correspondem termo a termo), e sem ele o tecido continua deslizando.
A demonstração abaixo tem quatro tempos. Vale segui-los na ordem.
1A cadeia corre
As palavras se sucedem. Cada uma abre possibilidades e nenhuma fecha nada. É a metonímia: deslizamento puro.
2Os sentidos flutuam
Sob a barra, vários significados candidatos coexistem para cada palavra já dita. Nenhum está fixado. Repare que eles se movem.
3A frase termina
O último termo faz a cadeia parar. Este é o ponto de basta — e ele é uma posição, não uma palavra especial.
4O vetor retroage
Uma onda corre da direita para a esquerda, contra o sentido da leitura, e fixa cada palavra anterior. Só agora elas significam.
Como usar
1Avance a frase palavra por palavra e observe o campo de baixo: vários sentidos flutuam ao mesmo tempo.
2Quando a cadeia parar, escolha um dos três finais. Um vetor vai correr para trás.
3Depois abra “comparar os três finais”: a coluna da esquerda nunca mudou.
01A frase que só se lê ao contrárioverbo: bastear
O que a tabela de comparação mostra
Ao abrir a comparação, o usuário vê a mesma coluna de palavras recebendo três colunas de sentido inteiramente diferentes. As palavras não mudaram. Nenhuma letra foi alterada à esquerda. O que mudou foi apenas o ponto onde a cadeia parou — e isso reescreveu tudo o que veio antes.
É a razão pela qual a interpretação analítica não acrescenta informação. Ela intervém na pontuação. Um analista que interrompe a sessão num ponto determinado não está sendo rude nem econômico: está operando sobre o único lugar onde o sentido se decide.
ONDE SE ERRA
O ponto de basta não é “a palavra-chave do texto” nem “a ideia central”. É uma função. Um discurso pode ter muitos pontos de basta, poucos, ou — na psicose — nenhum funcionando. Marque a caixa foracluir o ponto de basta: a frase termina e nada colapsa. Os sentidos continuam deslizando indefinidamente. É a introdução visual mais eficiente que existe para a foraclusão, e custa uma flag.
Os termos abrem o índice remissivo: onde cada um aparece, sessão por sessão.
INSTRUMENTO 02 · VERBO: ESCUTAR
A rede de palavras
O inconsciente não se organiza por sentido. Ele se organiza por significantes. Este campo é feito das palavras de uma sessão — e mostra o que muda quando se escuta o som, e não a história.
Saussure chamava o significante de imagem acústica. Lacan leva isso a sério: se o significante é acústico, as ligações que contam no inconsciente são ligações de som. É por isso que um lapso funciona, que um chiste funciona, que um sintoma pode se mover quando se escuta que “a gente” é também “agente”.
O CASO
Homem, quarenta e três anos, contador. Cresceu em Sorocaba; o pai, Osvaldo, consertava relógios numa banca perto da estação e morreu há sete anos, na oficina, perto das sete da noite. A mãe, Dalva, continua lá; a irmã, Neusa, quase não fala com ele. Mora em São Paulo, é casado com Célia e tem uma filha, Alice, que vai fazer nove anos. Procurou análise por um aperto no peito que vem sempre por volta das sete — e por chegar atrasado em tudo.
O que se lê abaixo é uma sessão inteira, de uma quinta-feira. O caso é composto: não é de ninguém. Foi composto para ser plausível, que é o que aqui importa.
Cada ponto do campo é uma palavra que ele disse. As quatro estrelas maiores são os significantes que voltam — relógio, aperto, Sorocaba e atraso —, os S₁ desta fala: não foram escolhidos por serem importantes, mas porque cada um arrasta um pedaço inteiro da fala atrás de si.
E no centro está a palavra que faz, nesta fala, o trabalho do Nome-do-Pai. Não é Osvaldo. O Nome-do-Pai não é o nome de pai nenhum: é o significante que diz a que se refere o desejo da mãe, e que por isso dá ao resto um sentido estável. Aqui, ele está numa frase da mãe, repetida a vida inteira — “teu pai é que sabe a hora”. É hora que amarra o relógio do pai, o prato posto às sete e quinze, o aperto das sete e o atraso: a lei, nesta casa, tinha hora.
Como usar
1Toque numa palavra: abre o que ele disse com ela e o que ela encontra pelo som. Arraste para andar; pince ou use a roda para aproximar.
2Passe para relato e suba a ancoragem do S₁: veja a fala se estreitar em torno dos quatro significantes — e leia, embaixo, como ele passa a falar.
3Abra os atos falhos. Depois, foraclua o Nome-do-Pai e veja a mesma fala funcionar como numa psicose.
02Campo significante — ligações por somverbo: escutar
Toque em qualquer palavra do campo. Cada uma abre o que ele disse com ela — e o que ela encontra pelo som.
Por que o som e não o sentido
Um exemplo vale o argumento inteiro. Um analisante diz: “eu não sei o que fazer da minha vida”. Pela via do sentido, é uma queixa sobre escolha profissional, e a resposta seria um conselho. Pela via do som, “não sei” e “não sê” são a mesma cadeia acústica — e a frase passa a dizer não seja, uma interdição de existir que talvez ele nunca tenha escutado que dizia.
O analista não escolheu esse sentido: ele apenas não escolheu nenhum. Deixou a cadeia acústica aberta. É por isso que a escuta analítica se chama “atenção flutuante”: flutuar é justamente não fixar o sentido cedo demais.
Nesta sessão, o som faz encontros que a história não faz:
o que soa junto
o que isso escreve na fala dele
hora · ora · agora · embora · senhora
A palavra que amarra a fala inteira volta dentro de outras. A vendedora do sonho diz “ora, moço, agora é tarde”; a irmã o acusa de ter ido embora; e ele chama a analista de senhora — sem conseguir dizer você.
conserto · concerto
A mesma palavra no ouvido. O ofício do pai e a única vez em que o viu sair para ouvir alguma coisa: um concerto na praça, de pé, atrás de todo mundo. Ele mesmo repara: “é a mesma palavra”. Não é um ato falho — não houve troca na fala, porque as duas soam igual —, é um equívoco: o som é um só, e o sentido se divide.
sinto · cinto
“Cinto muito”, escrito à irmã no enterro. Na fala, ninguém ouviria a diferença; só a letra a escreve — e escreve o cinto que o pai tirava devagar e punha na mesa, sem nunca bater. Também aqui não é um ato falho de fala: é o equívoco que a escrita deixa ver.
Brás · atrás
Ele desce uma estação antes do Brás e vem a pé. “Brás, atrás. Eu fico atrás” — e o pai ficou atrás de todo mundo no concerto.
aperto · aberto · perto · acerto · conserto
O sintoma rima com a porta que estava aberta no dia da morte, com a banca perto da estação e com a frase do pai: “isso não tem conserto, tem acerto”.
acordo · acordo
Ele acorda às sete sem despertador, e cumpre o acordo de ficar calado na frente da filha. Uma palavra, dois lugares.
Dalva · alva
O nome da mãe é a hora em que ela levanta, antes de clarear — “aquela hora alva”.
Sorocaba · acaba
“Sorocaba é assim: tudo acaba cedo.” E no fim da sessão: “a hora acabou, né?”
O que a ancoragem faz
Um S₁ é um significante que representa o sujeito: ele se reconhece ali, e é ali que volta. Quando esse puxão é fraco, a fala anda — uma palavra leva a outra pelo som, e o próprio falante se surpreende com o que disse. Quando é forte, a fala gira: tudo o que ele diz volta ao aperto, às sete, ao relógio, ao atraso. É a alienação do sujeito aos significantes que o representam, e é o retrato do sofrimento neurótico: repetir, sem saber o quê.
O que a foraclusão faz
Foracluir não é apagar uma palavra: hora continua soando dentro de agora, embora, senhora — no modo som, nada muda. O que se perde é a amarração. Sem o significante que dava ao desejo da mãe um nome, os S₁ deixam de se organizar em torno de um ponto, e a significação se solta. O esquema mostra, de forma didática, o que Lacan descreve no Seminário 3:
A significação pessoal. Palavras comuns passam a se dirigir a ele, com uma certeza que não pede prova: o relógio do painel “mudou pra mim”.
O retorno no real. O que não foi simbolizado volta de fora, como voz: as frases do pai e da mãe — “quem chega depois encontra fechado”, “olha a hora” — já não são lembradas, são ouvidas.
As frases interrompidas, que a voz completa, e o neologismo: uma palavra nova, de sentido inabalável, que só ele entende — aqui, desponteirar.
Um Outro que goza dele: “eles”, que adiantam os relógios e sabem onde ele está.
E o passo seguinte, que Freud já via em Schreber: o delírio não é a doença, é tentativa de cura. Lacan o chama metáfora delirante: uma significação nova, construída pelo próprio sujeito, que volta a dar um ponto de amarração à fala. O botão aparece depois da foraclusão.
ADVERTÊNCIAEste é um esquema didático. Ninguém “passa” de uma estrutura a outra por um clique: a foraclusão é uma condição lógica de origem, não um acontecimento. O que o botão mostra é a diferença entre dois funcionamentos da mesma fala.
Os termos abrem o índice remissivo: onde cada um aparece, sessão por sessão.
INSTRUMENTO 03 · VERBO: CORTAR
O corte
Em Lacan, o corte é o ato. Não é uma operação auxiliar sobre a figura: a interpretação é um corte, a sessão é um corte, a travessia da fantasia é um corte.
Aqui, o que um corte faz ao discurso de quem fala. O que importa num corte não é onde ele passa, mas o que resta depois dele — e se algo, ali, se abriu.
A sessão como corte
A escansão — o corte da sessão — não é um recurso de agenda nem uma rispidez. Ela é a única operação que age sobre o ponto onde o sentido se decide: a pontuação. Uma frase interrompida em lugares diferentes não é a mesma frase abreviada; é outra frase.
Arraste a tesoura. Corte em qualquer ponto e veja o que fica isolado — e o que isso abre.
Como usar
1Escolha uma fala e toque entre duas palavras para escandir ali.
2A maior parte dos cortes não abre nada — e ver isso acontecer também é a lição.
3Recole a fala e experimente outro ponto: compare o que cada corte isola.
03A fita de falaverbo: escandir
toque num dos pontos entre as palavras para cortar ali
Escolha uma fala e toque num dos intervalos. Nem todo corte produz alguma coisa — e é justamente isso que se aprende.
DUAS PRECISÕES QUE O MÓDULO PRECISA CARREGAR(a) O corte não “revela um sentido oculto”. Ele suspende o fechamento do sentido. O que aparece não é uma verdade escondida atrás da frase: é uma outra cadeia possível, que estava ali sem que ninguém a tivesse escolhido. (b) Cortar em qualquer lugar não funciona. A maior parte dos cortes fecha o sentido em vez de abri-lo — e a interface deve deixar isso acontecer, porque um instrumento que sempre produz efeito ensina o contrário do que se quer.
Onde isto está no corpus
Os termos abrem o índice remissivo: onde cada um aparece, sessão por sessão.
II · dois instrumentos
As estruturas e os laços
Da letra à estrutura. O que acontece com um único significante — o Nome-do-Pai — decide três destinos; e um mesmo jogo de quatro lugares produz quatro maneiras de fazer laço social.
Do Seminário 3 (1955–56), em que a foraclusão ganha estatuto de conceito, ao Seminário 17 (1969–70), em que os quatro discursos são escritos.
INSTRUMENTO 04 · VERBO: DECIDIR
Três respostas à castração
Três destinos possíveis para uma mesma operação — e a estrutura é o nome do destino que coube a cada um.
A operação é a metáfora paterna. Antes de qualquer pai de carne e osso, a criança se depara com um enigma: o que a mãe deseja, quando não está voltada para ela? Um significante vem responder a esse enigma e dar-lhe uma direção — Lacan o chama Nome-do-Pai. Quando ele opera, o desejo da mãe ganha um nome, e o mundo ganha um sentido comum, partilhável.
Freud já havia isolado três mecanismos, com três palavras alemãs diferentes. Lacan mostra que eles não são graus de uma mesma coisa: são três operações lógicas distintas, e a pergunta que as separa é uma só — o que foi feito com esse significante, e com a castração que ele inscreve?
Como usar
1Escolha um dos três destinos do significante.
2As consequências entram uma a uma: elas não se escolhem, deduzem-se da operação.
3Compare as três lado a lado, e depois jogue a partida de escuta.
04Escolha um destinoverbo: decidir
Escolha o que acontece com o significante. As consequências não são escolhidas: elas se deduzem.
A regra prática que sai daí
Três diferenças bastam para orientar a escuta, e nenhuma delas depende de sintoma, comportamento ou queixa. Todas dependem da posição do sujeito na fala:
Uma partida de escuta
Oito falas. A pergunta não é “o que essa pessoa tem”, e sim que posição essa frase ocupa. A resposta quase nunca está no conteúdo — está na modalidade: dúvida, certeza, ou um saber afirmado sobre o gozo.
PROVAOnde está a diferença?verbo: escutar
Leia a fala e escolha. O retorno explica o critério, não a resposta.
ADVERTÊNCIA NECESSÁRIA
Isto é material de estudo, não um instrumento de diagnóstico. Estrutura não se lê numa frase isolada: em psicanálise, o diagnóstico se estabelece na transferência, ao longo do tempo, e não por lista de sinais.
(a)Perversão, como estrutura clínica, não é sinônimo de prática sexual, de crime nem de fantasia. Confundir os dois é um erro grosseiro, e com consequências. (b)Psicose não é ausência de razão nem perigo. Muitas psicoses nunca se desencadeiam, e o delírio, quando vem, é um trabalho de reconstrução. (c) A foraclusão é lógica, não cronológica: não quer dizer que “faltou o pai em casa”. O que conta, diz Lacan em 1958, não é tanto como a mãe se arranja com a pessoa do pai, mas o caso que ela faz da palavra dele — o lugar que reserva ao Nome-do-Pai na promoção da lei.
Os termos abrem o índice remissivo: onde cada um aparece, sessão por sessão.
INSTRUMENTO 05 · VERBO: GIRAR
Os quatro discursos
Um discurso, aqui, não é um jeito de falar: é um laço social — uma maneira de dois lugares se relacionarem. Há quatro, e eles se obtêm uns dos outros por rotação.
A estrutura tem quatro lugares fixos e quatro termos que giram. Os lugares não mudam nunca; os termos ocupam cada um deles, um quarto de volta por vez. Isso significa que ninguém “escolhe” um discurso: ocupa-se um lugar, e o lugar produz seus efeitos.
AGENTEquem fala
Ocupa a posição de semblante. Comanda o laço — e não sabe da verdade que o sustenta.
OUTROa quem se fala
É posto a trabalhar. O que se pede dele é sempre da ordem do impossível.
VERDADEsob a barra
Sustenta o agente e permanece oculta para ele. Só se pode meio-dizer.
PRODUÇÃOo resto
O que sai do trabalho — e que não retorna à verdade. Essa impossibilidade de retorno é a impotência do discurso.
Como usar
1Gire um quarto de volta, ou toque direto no nome de um discurso.
2Levante a barra da verdade — e repare que o agente não sabe do que está embaixo.
3Tente arrastar a ficha da produção para a verdade. Ela bate e volta.
05Discurso do mestreverbo: girar
A mesma cena, quatro vezes
O exercício mais eficiente que existe para este módulo: uma única situação, reencenada nos quatro laços. O conteúdo é quase o mesmo; o que muda é quem ocupa o lugar de agente — e isso muda tudo.
CENAverbo: reencenar
ONDE SE ERRA(a) Discursos não são tipos de pessoa nem estilos de comunicação: são posições que se ocupa e se troca — muitas vezes dentro da mesma conversa. (b) O discurso da histérica não é “o discurso das histéricas”: é o que faz o saber avançar, e Lacan chega a associá-lo ao movimento da ciência. (c) O discurso do analista não é “o melhor”. É o que opera com o objeto a no lugar de agente — e seu impossível é psicanalisar.
Os termos abrem o índice remissivo: onde cada um aparece, sessão por sessão.
III · três instrumentos
As superfícies e o nó
Quando a palavra não basta para escrever a estrutura, Lacan passa a desenhá-la: uma fita com um lado só, uma garrafa sem dentro, três anéis que só se sustentam juntos.
Estão na ordem em que entram no ensino. A banda de Möbius aparece no Seminário 9 (1962) e atravessa os anos seguintes; a garrafa de Klein, que é feita de duas bandas, vem logo depois; o nó borromeano entra em 1972 e ocupa o fim da obra.
INSTRUMENTO 06 · VERBO: ORIENTAR
Um lado só
Uma fita que dá meia-volta antes de ser colada tem um lado só e uma borda só. Não é um efeito de perspectiva: é uma propriedade que um ser sem espessura, preso à superfície, pode verificar sozinho — e que Lacan usa para escrever o sujeito dividido.
Lacan a fabrica diante do auditório, em março de 1965: “pegar uma fita e fazer com que ela dê, antes de colá-la a si mesma, não uma volta completa, mas meia-volta: 180°”. Para dizer o que ela tem de especial, ele empresta de Poincaré um ser infinitamente plano, que vive na superfície e não vê nada de fora. Visto de fora, nada distingue a fita de um cinto. Mas esse ser pode descobrir, por uma propriedade intrínseca, onde está: se ele marca, num certo sentido, as letras do seu horizonte — a, b, c, d, e — e caminha sem encontrar borda nenhuma, ao voltar pela primeira vez ao mesmo ponto encontra a orientação oposta. “A palavra se lerá de modo palindrômico, no sentido exatamente inverso.”
Lacan sublinha que essa inversão é “de uma forma totalmente diferente, e muito mais radical, que a da relação especular” — e que, no seu ensino, ela vem progressivamente tomar o lugar dela. O espelho inverte uma imagem diante de outra. A banda inverte o próprio sujeito, sem que ele tenha saído do lugar.
Como usar
1Arraste para girar, use a roda ou dois dedos para aproximar. Ponha o ser plano para andar e acompanhe, no canto, o que ele lê.
2Use pintar um lado: na banda, a tinta chega ao avesso sem passar pela borda. Depois troque para a cinta comum e repita.
3Siga a borda: na banda ela só fecha depois de duas voltas. Na cinta, há duas bordas, e uma nunca é alcançada.
06A banda de Möbiusverbo: orientar
o que o ser plano lêa b c d edo lado em que partiu
a bordaas geratrizesa normal, levada pelo caminho
Este navegador não abriu o desenho em 3D (WebGL). O texto ao lado continua valendo; experimente num navegador atualizado.
Ponha o ser plano para andar. Ele leva consigo a palavra a b c d e, escrita no sentido em que partiu.
O que o palco calcula
As agulhas que ficam para trás do ser plano são a normal da superfície — a direção que, a cada ponto, aponta para “um dos lados”. Ela é levada passo a passo, sem saltos. Na cinta, depois de uma volta, a agulha chega como partiu. Na banda, chega invertida: o mesmo ponto, o outro lado, e nenhuma borda atravessada. É isso, e só isso, que se chama não orientável. Por isso a borda dá duas voltas antes de fechar, e por isso a tinta, que nunca transborda, acaba cobrindo tudo.
Saber e verdade, numa face só
Em “A ciência e a verdade” (1965), Lacan resume o ano anterior: formulou a “divisão experimentada do sujeito como divisão entre o saber e a verdade, acompanhando-a de um modelo topológico, a banda de Moebius, que leva a entender que não é de uma distinção originária que deve provir a divisão em que esses dois termos se vêm juntar”.
O palco mostra a frase. Em cada ponto há dois lados, e pode-se chamar um de saber e o outro de verdade. Mas não há uma região do saber e outra da verdade, separadas desde sempre por um muro: passa-se de um ao outro sem atravessar nada, apenas continuando. A divisão é real e é local; não é uma partição do espaço. É o que Lacan chama, no mesmo texto, a exclusão interna do sujeito a seu objeto — e cujo “signo gerador”, diz ele, é o oito interior.
Em “O aturdito” (1972), a mesma estrutura serve à ambivalência: o amor-ódio é “a face única da banda de Moebius”. Não são dois sentimentos em dois lugares; é uma face só, que de um lado se lê amor e, continuando, ódio.
ONDE SE ERRA(a) A banda não diz que “os opostos são iguais”. Em cada ponto há, sim, dois lados distintos; o que não existe é uma separação global entre eles. (b) A propriedade não depende de olhar a fita de fora, em três dimensões: o ser plano a descobre por dentro. É isso que interessa a Lacan — uma estrutura que se verifica sem metalinguagem. (c) Diferente da garrafa de Klein — o próximo instrumento, feita de duas bandas —, a banda tem borda — uma só. E a borda não é um detalhe: cortada pelo meio, a banda não se divide em duas, vira uma fita só, com frente e verso. Lacan dirá que ela “não é outra coisa senão esse corte”. (d) Lacan avisa que a fita de papel “é só a imagem”: o que conta é a estrutura. As larguras, as cores e a forma no espaço são livres; a meia-volta não.
Onde isto está no corpus
S1210 mar. 1965 — o ser plano e a palavra invertida · S913 jun. 1962 — uma superfície “gauche”, não superponível à sua imagem · Escritos“A ciência e a verdade” (1965) · Outros escritos “O aturdito” (1972)
Os termos abrem o índice remissivo: onde cada um aparece, sessão por sessão.
INSTRUMENTO 07 · VERBO: PERCORRER
A garrafa de Klein
Um objeto de vidro que qualquer sopradora sabe fazer, e que não existe. O gargalo atravessa a parede do bojo — e esse atravessamento não é um defeito da peça: é o preço de ela caber em três dimensões.
Como usar
1Comece pelo controle “colar”: antes da garrafa há um quadrado e quatro setas.
2Arraste para girar, use a roda ou dois dedos para aproximar. Toque nos números para as anotações.
3Ligue o campo de normais e acompanhe o laço até o fim: a seta volta invertida.
Mova o controle “colar”: o quadrado se enrola em cilindro, e o cilindro tenta fechar-se — e não pode.
Os seis fatos, na ordem em que devem ser entendidos
Ela não tem borda. Diferente da banda de Möbius, é uma superfície fechada: não há contorno pelo qual se possa cair fora dela.
Ela não tem interior. Uma esfera divide o espaço em dentro e fora. A garrafa de Klein é fechada e não separa o espaço. Não existe “o volume da garrafa”. O que você despejar dentro está fora.
A autointerseção é uma mentira necessária de ℝ³. Em quatro dimensões ela é perfeitamente lisa e não se toca. O gargalo que entra pela parede é artefato da nossa dimensão — e é isso que o slider w demonstra.
Ela não é orientável. Percorra-a e volte com a referência invertida. Ligue o campo de normais e veja as setas girarem ao longo do caminho.
Ela são duas bandas de Möbius coladas pela borda. Corte-a corretamente e obtém duas Möbius, uma destra e uma sinistra. E a colagem inversa não pode ser feita em ℝ³ — de novo o fato 3.
Ela é um quadrado com uma regra de colagem. Um par de lados colado direto; o outro par colado com inversão. Toda a estranheza está nessa única inversão: P(u+2π, v) = P(u, π−v).
O que Lacan faz com isto
Aqui é preciso ser preciso, porque este é um dos pontos em que a divulgação mais deforma. Lacan não usa a garrafa de Klein para dizer que “tudo é relativo” nem que “o dentro é o fora” num sentido vago. Ele a usa para escrever uma estrutura de vizinhança específica, e o que ela escreve tem três nomes.
1 · A extimidade
O termo é de Lacan, forjado no Seminário 7 e retomado depois: extimité. Ele nomeia o que é ao mesmo tempo o mais íntimo e radicalmente exterior. Das Ding, o objeto a, o gozo — nenhum desses se aloja num interior psíquico, e nenhum está simplesmente fora.
Ora, essa é exatamente a propriedade da garrafa. Não que ela confunda dentro e fora: ela demonstra que a distinção global não se sustenta, ainda que localmente ela seja perfeitamente clara. Em qualquer ponto da superfície você sabe de que lado está. É só quando você percorre que descobre que os dois lados eram um. É essa combinação — clareza local, impossibilidade global — que faz dela uma escrita da extimidade e não uma metáfora de fusão.
2 · O Outro que não tem exterior
O grande Outro é o lugar de onde se fala. E ele tem uma propriedade incômoda: não há posição fora dele de onde se pudesse examiná-lo. Não se pode sair da linguagem para verificar a linguagem; não há metalinguagem. O sujeito está no Outro, e o Outro está no sujeito, e não há um terceiro lugar.
Uma esfera não escreve isso — ela sempre deixa um lado de fora. A garrafa escreve. É por isso que Lacan a convoca sobretudo nos Seminários 12 a 14, no momento em que trabalha a relação do sujeito com o campo do Outro, a alienação e a separação.
3 · O circuito da demanda
Você fala ao Outro e recebe do Outro sua própria mensagem em forma invertida. Essa frase, do grafo do desejo, é topológica antes de ser psicológica: a demanda que sai é a demanda que retorna, sem que haja dois trajetos. Na garrafa, o gargalo que parece sair do bojo é o mesmo que reentra nele. Não há emissor e receptor: há um percurso único que se fecha atravessando-se.
LEITURA — E O LIMITE DELA
Lacan não demonstra nada com a garrafa: ele escreve com ela. A diferença é decisiva e precisa estar no módulo. Seu uso é heurístico, varia de momento a momento na obra, e há comentadores que consideram o recurso topológico dessa fase menos rigoroso que o dos nós, a partir de 1972.
Marque também que o slider w desta página usa uma construção didática — uma quarta coordenada que separa as duas folhas na região de autointerseção — e não a imersão canônica de livro-texto. Honestidade acima de pirotecnia: um site que assinala as próprias simplificações ganha a autoridade que perde em espetáculo.
ONDE SE ERRA(a) Não é “um objeto que contém a si mesmo”, nem o infinito, nem o eterno retorno. (b) O enunciado correto não é “dentro é fora”, e sim: a superfície não separa o espaço. (c) A garrafa não “existe só em quatro dimensões” no sentido de ser fantasmagórica — ela é um objeto matemático perfeitamente definido; o que não cabe em ℝ³ é o seu mergulho sem autointerseção. (d) Não a use como logotipo: virou clichê de divulgação. O oito interior e o nó de quatro são mais interessantes e menos batidos.
Onde isto está no corpus
S12dez. 1964 – jan. 1965 — a garrafa · S13a topologia do objeto · S9toro e cross-cap
Os termos abrem o índice remissivo: onde cada um aparece, sessão por sessão.
INSTRUMENTO 08 · VERBO: ATAR
R · S · I — por que um nó, e por que borromeano
Real, Simbólico e Imaginário não são “três dimensões da experiência”. São três consistências — e a tese está inteira na maneira como elas se prendem umas às outras.
Lacan apresenta o nó em fevereiro de 1972, no Seminário 19, a partir do brasão de uma família italiana, os Borromeu: três anéis entrelaçados de tal modo que nenhum par está preso, e no entanto os três não se separam. Basta cortar qualquer um para que os outros dois se soltem.
É isso que ele procurava. Se os registros estivessem ligados em corrente, dois deles se sustentariam sem o terceiro. No nó borromeano, não: não há dois que façam par sozinhos. Só há consistência a três.
Como usar
1Toque em qualquer uma das sete regiões do nó — os três anéis, as três zonas em que dois se cruzam, e o centro.
2Cada zona é definida também pelo anel do qual está fora: é daí que vem a sua propriedade.
3Corte um anel e veja os outros dois caírem soltos. Depois, mostre onde Lacan situa inibição, sintoma e angústia.
08O nó borromeanoverbo: atar
As sete regiões do nó têm nome, e nenhum deles é decorativo. Toque numa delas.
Por que cada campo está onde está
A posição de cada campo não é arbitrária: ela se deduz por exclusão. Cada zona reúne dois registros e fica fora do terceiro — e é o registro ausente que explica a sua propriedade. É a disposição que Lacan apresenta em “A Terceira” (Roma, 1974) e no Seminário 22 (17 dez. 1974).
sentidoSimbólico + Imaginário · fora do Real
O sentido nasce quando uma palavra encontra uma imagem: é o campo do “entendi”. E ele não toca o real — por isso compreender não basta para mudar nada. A interpretação analítica não visa dar mais sentido; visa o equívoco, que mexe no significante.
gozo fálico · JΦReal + Simbólico · fora do Imaginário
O gozo que passa pela linguagem: permitido e limitado por ela. Fora do imaginário, ele não faz imagem de par, de complemento: é o gozo de cada um, que Lacan chama “fora do corpo” e, em Encore, gozo “do idiota” — não por tolice, mas porque não é relacional.
gozo do Outro · JȺReal + Imaginário · fora do Simbólico
O gozo que seria do corpo do Outro. Fora do simbólico, não passa pela palavra: não se diz. Lacan o escreve com o A barrado porque o Outro, como parceiro completo, não existe — este é um lugar que o nó desenha justamente como fora do dizer.
objeto aReal + Simbólico + Imaginário
No centro, onde os três se apertam. O anão é um quarto registro: é o que se produz nesse aperto — causa do desejo, mais-de-gozar, sempre perdido. Ele só existe porque os três estão atados.
ONDE SE ERRA(a) O nó não é uma metáfora de interdependência ou de “equilíbrio”. É a escrita de uma consistência que não se reduz a relações entre dois. (b) Os três anéis são iguais: nenhum é mais fundamental, nenhum é o “verdadeiro”. (c) Um desenho de três círculos em que dois deles se enlaçam está errado: em corrente, cortar um não solta os outros. No nó borromeano, cada par está apenas sobreposto — um passa por cima do outro nos dois cruzamentos. (d) As cores são convenção deste site, não propriedade dos registros. (e) O nó não é do último ano de Lacan: entra em 9 de fevereiro de 1972 (Seminário 19) e é retomado em Encore (15 maio 1973), antes de ocupar os seminários seguintes.
O quarto elo
Até aqui, três anéis — e o nó se sustenta a três. Em 1975, Lacan dá um passo além. Ele lê Freud como se, nele, Real, Simbólico e Imaginário estivessem soltos: apenas sobrepostos, “à deriva”. Para atá-los, Freud precisou de um quarto anel. Esse quarto é o que Freud chamou de “realidade psíquica” — o complexo de Édipo — e o que Lacan chama Nome-do-Pai (S22, 14 jan. 1975; 11 fev. 1975).
No esquema abaixo, os três registros estão só empilhados, sem nó entre eles; é o quarto que faz dos quatro um nó. Percorra as três situações na ordem.
NÓ1 · O Nome-do-Pai amarraverbo: amarrar
Toque num anel para cortá-lo.
Repare: nenhum par de anéis está preso. Real, Simbólico e Imaginário estão apenas sobrepostos — é o quarto que faz dos quatro um nó.
O passo 3 é o que muda tudo. Se o Nome-do-Pai é um quarto anel, ele não é o único possível: outra invenção pode fazer o mesmo trabalho. Lacan chama esse quarto de sinthoma — grafia antiga de “sintoma” — e o constrói sobre Joyce, em quem reconhece uma “Verwerfung de fato”, uma demissão do pai (S23, 10 fev. 1976). O que segura o nó de Joyce é a sua escrita, o seu querer “fazer-se um nome”: um ego que corrige o ponto em que o nó falhava (17 fev. e 11 maio 1976).
Daí a frase em que tudo isso se condensa: do Nome-do-Pai, pode-se prescindir, com a condição de servir-se dele (S23, 13 abr. 1976). Não é mais o pai como garantia, mas o pai como uma solução entre outras — e cada sujeito, à sua maneira, precisa de alguma.
Onde isto está no corpus
S199 fev. 1972 — o nó entra · S2015 maio 1973 — retomado · S22dez. 1974 — os campos e inibição, sintoma, angústia · S22jan.–fev. 1975 — o quarto anel · S231975–76 — o sinthoma
Os termos abrem o índice remissivo: onde cada um aparece, sessão por sessão.
Os seminários
O corpus
Os seminários, lição por lição — com as datas reais, as sessões que faltam
e os expositores que não eram Lacan.
Cada ficha apresenta o argumento do ano, o que se encontra ali e, lição por lição, os assuntos de cada sessão: para quem já leu, reconhecer onde está cada coisa; para quem ainda não leu, saber por onde entrar. Os seminários entram aqui aos poucos — os demais estão em estudo.
MÉTODO E ADVERTÊNCIAS
O corpus, suas lacunas e como citá-lo
Três coisas precisam estar claras antes de qualquer leitura: o que são estas transcrições, onde elas têm buracos, e por que a data importa mais que o capítulo.
1. O que é este corpus e o que ele não é
A base de trabalho são as transcrições de trabalho dos seminários, montadas a partir de estenotipias e de gravações. São documentos preciosos, e são a coisa mais próxima do que foi efetivamente dito na sala. Mas três coisas mudam a maneira de citá-las:
Primeiro: transcrição não é edição. Para vários destes seminários existe uma versão estabelecida por Jacques-Alain Miller e publicada pelo Seuil, que reorganiza o material, corta repetições, resolve frases inacabadas e — decisivamente — divide o texto em capítulos com títulos que não são de Lacan. Quem cita “o capítulo ‘A esquize do olho e do olhar’” cita uma decisão editorial de 1973, não uma lição de 1964. As transcrições de trabalho preservam a divisão real: uma sessão semanal, uma data. Por isso a data é aqui a unidade: é a única que corresponde a um fato.
Segundo: há lacunas, e elas estão marcadas. No Seminário 1 lê-se, na abertura de 18 de novembro de 1953: “Pas de sténotypie disponible pour les séances de Novembre et Décembre 1953” — a primeira lição que temos é uma reconstituição, e há um buraco de quase dois meses até 13 de janeiro de 1954. No Seminário 2, as sessões de 24 de novembro de 1954, 23 de março e 26 de abril de 1955 trazem a marca STÉNOTYPIE MANQUANTE. As fichas registram essas lacunas.
Terceiro: nem toda lição é de Lacan. Nos primeiros anos, o seminário funcionava como um seminário de verdade, com exposições de alunos seguidas de discussão. Nas lições de 1954 expõem Mannoni, Anzieu, Hyppolite, Marie-Cécile Gélinier, Rosine Lefort, Leclaire, Perrier, Granoff, Beirnaert; no Seminário 2, quatro sessões seguidas são de Valabrega (2, 9 e 16 de fevereiro e 2 de março de 1955); no Seminário 7, expõem Lefèvre-Pontalis, Kaufmann e Hubert; no Seminário 20, Récanati ocupa a sessão de 12 de dezembro de 1972. Atribuir a Lacan o que foi dito por Anzieu é um erro comum, e evitável.
2. A regra de ouro da datação
Um conceito lacaniano quase nunca significa em 1972 o que significava em 1955. O erro mais frequente das leituras introdutórias é tratar o vocabulário como fixo. Quatro exemplos que é preciso manter separados:
termo
1953–1957
1960–1964
1968–1975
a
o outro imaginário, o semelhante (esquema L)
objeto causa do desejo, resto da separação
mais-de-gozar, produto do discurso
o Outro
lugar da fala verdadeira, garantia
barrado, inconsistente: S(Ⱥ)
não existe como parceiro; “não há Outro do Outro”
gozo
quase ausente do vocabulário
o que está além do princípio do prazer, ligado a das Ding
conceito central, plural: fálico, do Outro, mais-de-gozar
o pai
função simbólica que ordena
pai da horda, exceção lógica
um nome entre outros; um sintoma; substituível pelo sinthoma
Por isso as referências deste site trazem sempre a data em que o conceito aparece na forma discutida.
3. As datas que reorganizam a leitura
Lidos em conjunto, os seminários permitem datar com precisão de semana os momentos em que o ensino muda de terreno. Cada uma destas datas corrige uma ideia corrente:
formalização
onde ela realmente está
o que isso corrige
Mais-de-gozar
Nasce em 13 de novembro de 1968, na abertura do Seminário 16.
Não vem de O avesso da psicanálise: vem do ano anterior, e é o que torna os discursos possíveis.
“Não há relação sexual”
Primeira formulação: 12 de março de 1969 (S16). Volta em …ou pior, em Encore e nos seminários seguintes.
Antecede Encore em quatro anos.
Nó borromeano
Entra em 9 de fevereiro de 1972 (S19), com o brasão dos Borromeu. É retomado em Encore (8 e 15 de maio de 1973) e passa a ocupar os seminários seguintes.
A virada dos nós tem data. Ela não atravessa a obra: ocupa os últimos anos.
Garrafa de Klein
Seminário 12, de dezembro de 1964 a fevereiro de 1965.
Não é um objeto do último Lacan: é de 1964–65.
Cross-cap
Seminário 9 (março a junho de 1962) e Seminário 13 (1966).
Idem: pertence ao meio da obra.
Consistência / ex-sistência / furo
Seminário 22, R.S.I. (1974–75).
O trio é a construção específica desse ano, e não um vocabulário geral.
Parlêtre
Nos seminários, a partir de 17 de dezembro de 1974 (S22).
O termo é tardio.
Nominação
As três nominações estão quase todas na última lição do Seminário 22, 13 de maio de 1975.
Não estão espalhadas: estão numa aula só.
Sinthoma
A grafia aparece na abertura do Seminário 23, 18 de novembro de 1975.
O conceito é do S23. O quarto elo, porém, já existe no S22 sob o nome de sintoma.
Joyce
Citado de passagem desde 1955; ganha lugar em 12 de maio de 1971 (S18) e se torna o objeto do Seminário 23 (1975–76).
A entrada é gradual.
Une-bévue
Seminário 24 (1976–77).
É um conceito de um ano só.
Trança
Seminário 21, e uma lição inteira do Seminário 24: 18 de janeiro de 1977.
É a escrita do nó no tempo.
Soury e Thomé
A partir de março de 1975 (S22), e sobretudo no Seminário 25.
O último seminário é, em boa parte, trabalho matemático a três.
4. Como ler o que se segue
Cada ficha traz: o argumento do ano; o que se encontra ali, com as datas em que cada assunto está; e as lições, uma a uma — o movimento de cada sessão, os assuntos tratados e os autores citados.
As notas por lição indicam o que domina a sessão, não o seu conteúdo integral: uma lição de Lacan raramente trata de uma coisa só, e muitas vezes abre um assunto que só se fecha semanas depois. Quando a sessão é de um expositor convidado, isso está marcado.
OS SEMINÁRIOS
Seminário por seminário, lição por lição
Uma ficha por seminário. Dentro de cada uma: o argumento do ano, o que se encontra ali, e as lições uma a uma.
S1Les écrits techniques de FreudOs escritos técnicos de Freud1953–1954 · 23 lições
Ficha. Primeira lição em 18 de novembro de 1953, no Hospital Sainte-Anne, cerca de dois meses depois do Discurso de Roma. Uma lacuna importante: não há estenotipia para novembro e dezembro de 1953 — as transcrições saltam de 18 de novembro para 13 de janeiro de 1954. Seminário fortemente coral: expõem Mannoni (20 jan.), Anzieu (20 e 27 jan.), Jean Hyppolite (10 fev.), Marie-Cécile Gélinier (17 fev.), Rosine Lefort (10 mar.), Leclaire (17, 24 e 31 mar.), Perrier (7 abr.), Granoff (26 maio e 16 jun.), Beirnaert (23 jun.).
A pergunta. Por que a técnica psicanalítica degenerou? Para Lacan, os analistas depois de Freud abandonaram a escuta da fala em favor de uma psicologia das relações entre pessoas, e só um retorno aos textos pode devolver à prática o seu fundamento. O seminário é, literalmente, um curso de leitura.
O argumento
O primeiro seminário público de Lacan é, antes de tudo, um curso de (re)leitura. Ele começa em novembro de 1953, cerca de dois meses depois do Discurso de Roma, e toma por objeto os artigos que Freud escreveu sobre a maneira de conduzir uma análise — os chamados escritos técnicos. A aposta do ano é que a técnica dos analistas da época se perdeu porque trocou a escuta da fala por uma psicologia do eu, e que só a volta aos textos de Freud pode devolver à prática o seu fundamento.
O ano tem três tempos. No primeiro, depois de um trimestre do qual não restou estenotipia, o seminário muda de regime em 13 de janeiro de 1954: "fini de rire!" — acabou a brincadeira —, diz Lacan, e os participantes passam a expor. O tema é a resistência, que deixa de ser vista como uma má vontade do paciente e passa a ser lida no próprio discurso. Em 10 de fevereiro, Jean Hyppolite comenta o pequeno texto de Freud sobre a negação, Die Verneinung — uma sessão que terá consequências para todo o ensino posterior.
O segundo tempo é o do imaginário. Passa pelo caso de Dick, um menino tratado por Melanie Klein; pela construção do esquema óptico do buquê invertido; pelo caso Robert, apresentado por Rosine Lefort; e por uma leitura minuciosa do texto de Freud sobre o narcisismo, conduzida por Serge Leclaire. É aqui que se separam o eu ideal, imagem com que o sujeito se identifica, e o ideal do eu, que vem da palavra e da lei.
O terceiro tempo discute a teoria de Michael Balint, para quem a análise seria uma relação a dois a ser corrigida, e termina com o diálogo De Magistro, de Santo Agostinho, apresentado pelo padre Louis Beirnaert: o que se pode ensinar por meio de palavras? Na última sessão, Lacan dá ao analista a posição de uma douta ignorância.
O que se encontra aqui
A resistência no discurso
Não como oposição do paciente, mas como a inflexão que a fala sofre ao se aproximar do que não pode ser dito. De 20 de janeiro a 3 de fevereiro de 1954.
A Verneinung
O comentário de Jean Hyppolite em 10 de fevereiro de 1954 — publicado depois como apêndice dos Escritos. A negação que, ao negar, revela.
Fala vazia e fala plena
A distinção que atravessa o ano; ver 17 de março e 16 de junho de 1954.
O esquema óptico
O buquê invertido, montado diante do auditório em 24 de fevereiro de 1954 e retomado em 31 de março, 7 de abril, 5 e 12 de maio.
Eu ideal e ideal do eu
Idealich e Ichideal separados em 31 de março de 1954: um é imagem, o outro é marca simbólica.
O caso Dick
Melanie Klein lida em detalhe, em grande parte em inglês, em 17 de fevereiro de 1954.
O caso Robert, "o lobo!"
Apresentado por Rosine Lefort em 10 de março de 1954.
O Fort-Da
O jogo do carretel do neto de Freud, retomado em 5 de maio de 1954: a palavra presentifica a ausência.
Dora
Revisitada em 12 de maio de 1954: o que teria acontecido se Freud tivesse nomeado o desejo dela?
As três paixões e a douta ignorância
Amor, ódio e ignorância, e a posição do analista, na última sessão, 7 de julho de 1954.
Onde falta o texto
Novembro e dezembro de 1953 não têm estenotipia: a primeira sessão do corpus é uma reconstituição a partir de notas.
Lição por lição 23 sessões
118 nov. 1953
Por que estudar os textos
Abertura do ensino. Não há estenotipia: o que temos é um resumo feito a partir de notas, curto e telegráfico. Lacan diz como pretende ensinar.
Um ensino que não entrega respostas prontas: como o mestre zen, ele só responde quando o aluno está prestes a encontrar a resposta
Contra o costume de reduzir Freud a palavras gastas, como "inconsciente" e "supereu"
Com a interpretação dos sonhos, Freud reintroduz o sentido numa ciência que só queria saber de forças físicas
A imagem do bom cozinheiro, tirada do Fedro de Platão: cortar o animal pelas articulações, e não pelo osso
Lavoisier, que trouxe ao mesmo tempo um conceito errado (o flogisto) e um certo (o oxigênio)
A contratransferência como reconhecimento de que, numa análise, se é dois — por estrutura
Platão (Fedro), Lavoisier, Brücke, Helmholtz, Jung, Jones
213 jan. 1954
"Fini de rire!": o seminário muda de regime
Lacan reabre o ano anunciando que deixará de falar sozinho: cada participante assumirá uma parte do trabalho. E apresenta o conjunto de textos que vão ler.
O que são os "escritos técnicos" de Freud, e por que esse rótulo não lhes dá unidade
Um texto tardio que fala de técnica melhor que muitos outros: Análise terminável e interminável (1937)
A análise como reconstituição da história do sujeito — mais reescrever essa história do que lembrar um passado factual
Construções em análise (1937) como apoio dessa leitura
Já aqui: o analista faz intervir o próprio eu na análise, sem perceber
Freud, Anna Freud
320 jan. 1954
A resistência, primeiras abordagens
Primeira sessão a várias vozes. Octave Mannoni apresenta a noção de resistência nos textos de Freud; Didier Anzieu começa pelos Estudos sobre a histeria.
A resistência começa confundida com o recalque, e só aos poucos ganha lugar próprio
Como Freud chegou a ela: Charcot, Breuer, a hipnose — e a descoberta de que se obtinham os mesmos resultados sem hipnose
A técnica da "pressão": insistir, dar garantias, pôr a mão na testa do paciente
O material psíquico organizado em camadas em torno de um núcleo patogênico, como pastas num arquivo
A pergunta que fica: a resistência é do paciente, como pessoa, ou é outra coisa?
Anzieu termina sua exposição e a discussão se abre: com que imagens — físicas, mecânicas — Freud pensa a resistência? E o que isso diz da própria análise?
As três maneiras de arranjar o material em torno do núcleo: em linha, em círculos concêntricos e em ziguezague
As forças de atração e repulsão, o demônio de Maxwell, a figura de Ampère
A cocaína: Freud viu nela um analgésico e deixou passar o seu uso como anestésico
Freud que, na juventude, se identificava a Masséna e a Aníbal — e a acusação de autoritarismo, que Lacan e Hyppolite discutem
A conclusão de Lacan: a resistência é a inflexão que o discurso sofre à medida que se aproxima do núcleo
Didier Anzieu, Jean Hyppolite, Octave Mannoni, Hartmann, Charcot
53 fev. 1954
Onde nasce a transferência
Lacan lê, frase a frase e em alemão, A dinâmica da transferência (1912): a transferência aparece no ponto exato em que a fala emperra.
Quando o discurso se aproxima do essencial, o paciente se interrompe e se volta para a presença do analista
A comparação de Freud com uma batalha em torno de uma pequena igreja: o valor do lugar disputado pode ser só tático
O que o sujeito não chegou a formular "é como se não existisse" — e, no entanto, está em algum lugar
Uma passagem da Interpretação dos sonhos lida no mesmo sentido
Freud (A dinâmica da transferência, A interpretação dos sonhos)
610 fev. 1954
Hyppolite comenta A negação
O filósofo Jean Hyppolite lê o curto texto de Freud sobre a negação — quando o paciente diz "não é a minha mãe", e, dizendo, revela. Lacan o publicará como apêndice dos Escritos.
Lacan abre: o sentido das palavras não vem do eu; a criança não aprende a língua palavra por palavra
Denegação, e não simples negação: a negação como maneira de deixar vir à tona o recalcado sem aceitá-lo
A Aufhebung alemã — suprimir e, ao mesmo tempo, conservar
A afirmação primordial (Bejahung) e a expulsão: a origem do juízo nas pulsões
O epigrama de São Cristóvão, que carregava Cristo, que carregava o mundo
O exemplo de Ernst Kris: o paciente que se acreditava plagiário
Jean Hyppolite, Freud (Die Verneinung, 1925), Bernheim, Merleau-Ponty, Ernst Kris
717 fev. 1954
O caso Dick
Marie-Cécile Gélinier apresenta um artigo de Melanie Klein: Dick, um menino de quatro anos que quase não fala, não brinca e parece não sentir angústia. Boa parte da sessão é lida em inglês.
Antes, um caso de Anna Freud: a paciente que se defendia dos afetos pela ironia
Dick: indiferente às pessoas e aos objetos, interessado apenas em trens, portas e maçanetas
O modo como Melanie Klein lhe fala, nomeando de saída o que ela supõe que ele fantasia: "o trem é o Dick, a estação é a mamãe"
E o efeito disso: o menino começa a se interessar pelas coisas e pelas palavras
As dúvidas de Gélinier sobre a coerência do texto, que Lacan retomará na sessão seguinte
Marie-Cécile Gélinier, Melanie Klein (A importância da formação do símbolo, 1930), Anna Freud
824 fev. 1954
O imaginário: o buquê invertido
Lacan responde às dúvidas da semana anterior desenhando, diante do auditório, uma experiência de física: o buquê de flores que aparece dentro de um vaso por efeito de um espelho côncavo.
Interpretar e "achar que se compreende" são coisas opostas
A imagem do aparelho psíquico como aparelho óptico, já em Freud
Imagens reais e imagens virtuais: o que o espelho côncavo faz com um buquê escondido
A criança que antecipa no espelho a unidade de um corpo que ela ainda não domina
Releitura de Dick: o símbolo estava lá, mas a palavra não chegava a fazer apelo
Henri Bouasse, Melanie Klein, Freud (A interpretação dos sonhos)
910 mar. 1954
O caso Robert: "o lobo!"
Rosine Lefort apresenta o tratamento de Robert, um menino gravemente negligenciado nos primeiros meses de vida, que gritava "o lobo!". Lacan e os presentes discutem o caso.
Uma história de fome, internações e trocas de instituição
O grito "o lobo!" e a criança que bate na própria imagem refletida no vidro
O pote, o leite, a água: as cenas em que ele joga com o que entra e o que sai do corpo
As transformações ao longo do tratamento — e a gravidez da analista, que o menino atravessa
A discussão: é psicose? Lacan sugere que o caso mostra a palavra reduzida ao seu ponto mínimo
Rosine Lefort, Dr. Lang, Schreber (citação de Freud)
1017 mar. 1954
Por que ler o texto sobre o narcisismo
Sessão de estenotipia incompleta. Lacan explica por que, depois da resistência e da transferência, é preciso passar pelo narcisismo — e Serge Leclaire começa a apresentar o texto de Freud.
Visar a fala plena por um caminho que parece o contrário: a regra de dizer tudo, sem escolher
As teorias da transferência como projeção imaginária, e o impasse a que levam
A discordância dos analistas sobre o que, afinal, cura — com Fenichel como guia
O retraimento da libido na psicose, e a diferença entre Freud e Jung
Serge Leclaire, Fenichel, Strachey, Jung, Janet
1124 mar. 1954
Introdução ao narcisismo, linha a linha
A sessão mais longa do ano. Leclaire lê o texto de Freud, em boa parte no original alemão; Lacan e Mannoni intervêm.
O problema de partida: como explicar a psicose com a teoria da libido? A resposta de Jung e a de Freud
A libido do eu e a libido dos objetos, e o que acontece quando ela se retira do mundo
O indivíduo e a espécie: a referência a Weismann
A hipocondria, a vida amorosa, a escolha de objeto
"Sua Majestade, o bebê": o que os pais projetam na criança
Serge Leclaire, Octave Mannoni, Jung, Weismann, Abraham
1231 mar. 1954
Eu ideal e ideal do eu
Mannoni abre com Valéry; Leclaire termina a leitura de Freud; e Lacan volta ao espelho para estabelecer a distinção que dá nome à sessão.
Os Fragmentos do Narciso, de Paul Valéry, lidos por Mannoni como pequena teoria do narcisismo
A dor de dente de Wilhelm Busch e os versos de Heine: quando a libido se volta para o eu
O peixe que dança em ziguezague diante da imagem da fêmea: a imagem que desencadeia o comportamento
Eu ideal (Idealich), a imagem; ideal do eu (Ichideal), a posição simbólica de onde o sujeito se vê
O amor à primeira vista: Werther, ao ver Lotte cuidando de uma criança
Octave Mannoni, Serge Leclaire, Jean Hyppolite, Paul Valéry, Wilhelm Busch, Heine, Goethe
137 abr. 1954
O analista no lugar da imagem virtual
François Perrier expõe sobre a regressão no sonho; Jean Hyppolite põe à prova o esquema óptico. Uma boa parte da sessão é leitura do alemão de Freud.
As colunas do Panteão, que não se contam na imagem mental (Alain)
A objeção de Hyppolite sobre o olho que olha no espelho, que Lacan aceita e desenvolve
O ser humano nasce prematuro, e por isso depende da imagem do outro
"Meu pai", "meu filho": o que as palavras fazem existir entre duas pessoas
O sonho, a alucinação e a prova de realidade, no Complemento metapsicológico à doutrina dos sonhos
François Perrier, Jean Hyppolite, Alain, Freud
145 maio 1954
O espelho e o carretel
Início do terceiro trimestre. Lacan conta que pretendia começar Schreber e o adia; volta ao estádio do espelho e ao jogo do carretel do neto de Freud, o Fort-Da.
Por que Schreber fica para depois: o livro é raro, e Lacan mandou microfilmá-lo
O eu se forma numa imagem: o "transitivismo" da criança que diz "ele me bateu" quando foi ela quem bateu
Baltasar Gracián, que Lacan põe acima de Nietzsche e de La Rochefoucauld
O Fort-Da: ao jogar o carretel e trazê-lo de volta, a criança passa a dominar a ausência pela palavra
Com o símbolo, a ausência se torna presente, e a presença carrega a ausência
Schreber (adiado), Gesell, Gracián, Freud (Além do princípio do prazer)
1512 maio 1954
O desejo do outro, os elefantes e Dora
Uma pergunta de Robert Pujol abre a sessão: "o desejo do outro" é o desejo que está no outro, ou o meu desejo por ele? Lacan responde e volta ao caso Dora.
A palavra "elefante" faz entrar os elefantes no mundo humano antes de qualquer caçador
A rivalidade imaginária: Darwin, a luta pela vida — e o comentário de Hyppolite e Mannoni
O enamoramento (Verliebtheit) como efeito da imagem
Dora: se Freud lhe tivesse dito que amava a Sra. K, ela teria se apaixonado de fato — e isso seria só o primeiro passo
Robert Pujol, Jean Hyppolite, Octave Mannoni, Darwin, Dora
1619 maio 1954
A marca do trauma e o lugar da lei
Lacan comenta a "interpretação mutativa" de Strachey e volta ao Homem dos Lobos para pensar como um acontecimento só ganha sentido depois.
A interpretação "mutativa" de James Strachey, apresentada e criticada
O Homem dos Lobos: a cena vista aos um ano e meio, que só faz efeito anos mais tarde, retroativamente
A Prägung: a marca, como a cunhagem de uma moeda
Existe recalque bem-sucedido? A pergunta de Mannoni e a resposta de Hyppolite, com Heidegger
"Onde estava o isso, o eu deve advir": como entender a frase
O supereu e a lei: um paciente que desconhecia a lei corânica da cultura de sua família
James Strachey, o Homem dos Lobos, Konrad Lorenz, Octave Mannoni, Jean Hyppolite, Heidegger, Anna Freud
1726 maio 1954
Granoff apresenta Balint
Wladimir Granoff expõe o livro de Michael Balint, Primary Love and Psycho-Analytic Technique. O princípio de leitura é: entender a técnica de um analista pela teoria que ele formula.
A ideia de uma psicologia "a dois corpos" (two bodies' psychology), e o que Lacan objeta a ela
O "amor primário" do bebê pela mãe, e o "amor genital" como suposto ponto de chegada da análise
Alice Balint e o autoerotismo
O "recalque bem-sucedido" e a pergunta: é lícito querer mudar o caráter de alguém?
O artigo de Balint sobre a "transferência das emoções" (1933)
Wladimir Granoff, Michael Balint, Alice Balint
182 jun. 1954
A relação de objeto e o olhar
Continuação de Balint. Lacan mostra o impasse de pensar a relação humana como dois objetos que se satisfazem um ao outro — e recorre à descrição do olhar e da vergonha.
Se o objeto satisfaz plenamente a necessidade, o desejo nem chega a aparecer
O amor como satisfação recíproca de duas pessoas que se completam — o "extremo heroico" de Alice Balint
O olhar do outro e a vergonha, na descrição de Sartre
A perversão como exploração de uma possibilidade humana, e a palavra dada como pacto
De novo os elefantes: o símbolo deixa entrar o que a porta não deixaria
Michael e Alice Balint, Sartre, Melanie Klein
199 jun. 1954
O impasse da relação a dois
Lacan leva adiante a crítica: fazer da relação imaginária o centro da análise conduz a um beco sem saída, e a perversão mostra por quê.
A perversão: ver e ser visto, fazer do outro uma coisa ou fazer-se coisa
A dialética do senhor e do escravo, contra a ideia de uma psicologia a dois
A teoria dos jogos: o que estrutura a situação é o que não está lá
Palavras que valem por uma frase inteira, e a origem da linguagem
A palavra pode mentir — e é por poder introduzir o que não é que ela introduz o que é
Angelus Silesius e o Peregrino querubínico
Michael Balint, Hegel, Sartre, Proust, Angelus Silesius
2016 jun. 1954
Granoff sobre as emoções; os companheiros de Ulisses
Granoff traz dois artigos americanos sobre as emoções e o sonho. Lacan os retoma para separar o grunhido da palavra.
Isham e Bennitt: as emoções entendidas como respostas a estímulos
O símbolo segundo Jones, e um verso de Valéry
Os companheiros de Ulisses transformados em porcos: o que nos chega deles não é o grunhido, é a queixa
A transferência segundo Nunberg — e um caso em que a análise repetia uma cena de confidências da infância
A fala vazia, que o Discurso de Roma havia nomeado
Beirnaert apresenta o De Magistro de Santo Agostinho
O padre Louis Beirnaert lê o diálogo de Agostinho com seu filho Adeodato: pode-se ensinar alguma coisa por meio de sinais? A pergunta é também a do analista.
Sinal, palavra, nome: por que não são a mesma coisa
"Não creio que queiramos ensinar alguma coisa quando ninguém está ali para aprender"
Mannoni lembra um jogo de mímica: e os gestos? Também são linguagem
A conclusão de Agostinho: as palavras não transmitem o saber — quem ensina é o "mestre interior"
Louis Beirnaert, Santo Agostinho (De Magistro), Adeodato, Octave Mannoni
2230 jun. 1954
Verdade, erro e o sonho
Continuação de Agostinho, agora pelo lado do engano. Depois, a passagem para a Interpretação dos sonhos.
O erro só se define em relação à verdade — e é na contradição do discurso que eles se separam
No lapso e no ato falho, a verdade alcança o erro "por trás"
O desejo recalcado como o que espera para se revelar
A condensação, demonstrada no sonho da monografia botânica de Freud
Santo Agostinho, Freud (A interpretação dos sonhos)
237 jul. 1954
As três paixões e a douta ignorância
Última sessão, conduzida por perguntas dos presentes. Lacan fala do amor, do ódio e da ignorância, e da posição que convém ao analista.
A pergunta de Mme Aubry sobre o amor, o ódio e as junções entre imaginário, simbólico e real
As três paixões do ser: o amor, o ódio e a ignorância
Enamoramento (Verliebtheit) não é amor: sem a dimensão da palavra, há fascinação, mas não amor
O analista deve ocupar a posição de uma douta ignorância — "não sábia, mas formal", e por isso, para o sujeito, formadora
O "ilusório": é bem real que o paciente esteja ali, falando das suas brigas com o dono da mercearia
Dora e o Homem dos Ratos, uma última vez
Mme Aubry, Octave Mannoni, Serge Leclaire, Dora (e, em nota do transcritor, Nicolau de Cusa, autor da docta ignorantia)
Armadilhas. (a) "Fala plena" não significa fala sincera ou autêntica no sentido moral — significa fala que empenha o sujeito e reordena sua história. (b) O modelo óptico não é uma metáfora do psiquismo: é um dispositivo cuja geometria se pode calcular, e o ponto é justamente que a imagem só se forma de certas posições. (c) A crítica da psicologia do ego é polêmica de escola, e é preciso saber contra quem Lacan escreve para não ler suas afirmações como teses gerais.
Antes / depois. Antes: o Discurso de Roma (1953). Depois: o Seminário 2, que é sua continuação direta, e "Variantes do tratamento-padrão" (1955).
S2Le moi dans la théorie de Freud et dans la technique de la psychanalyseO eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise1954–1955 · 25 lições
Ficha.Três lacunas nas transcrições: 24 de novembro de 1954, 23 de março e 26 de abril de 1955 (STÉNOTYPIE MANQUANTE). A de 26 de abril é justamente a lição sobre A carta roubada, que se conhece pelo texto que Lacan publicou em 1956. Quatro sessões seguidas trazem exposições de Valabrega (2, 9 e 16 de fevereiro e 2 de março de 1955); Anzieu expõe em 26 de janeiro. A lição de 22 de junho de 1955 é uma conferência: “Psicanálise e cibernética, ou da natureza da linguagem”.
A pergunta. O que é o eu, se ele não é o sujeito? O seminário demole a identificação entre eu e sujeito e instala, no lugar, a ordem simbólica como aquilo que determina o sujeito à sua revelia.
O argumento
Se o primeiro seminário perguntava o que é a fala, o segundo pergunta quem fala. E a resposta desmonta uma das evidências mais resistentes da psicologia: o eu não é o sujeito. A descoberta de Freud, diz Lacan na primeira lição, tem o mesmo sentido de descentramento que a de Copérnico — e o poeta já o dissera: Je est un autre, "eu é um outro" (Rimbaud).
O ano percorre três caminhos que parecem não ter relação entre si. O primeiro é a máquina: em que somos parentes de uma máquina? Uma câmera que filma uma montanha e seu reflexo num lago registra tudo — e não há nela sombra de um eu. O segundo é Freud lido linha a linha: o Projeto de 1895, o capítulo VII da Interpretação dos sonhos e o sonho da injeção de Irma, examinado em duas lições. O terceiro é a ordem simbólica como coisa autônoma: as estruturas de parentesco de Lévi-Strauss, o jogo de par ou ímpar, e a ideia de que o acaso, uma vez escrito em símbolos, passa a ter leis.
Esses caminhos se encontram em duas peças que ficaram célebres: o esquema L, que mostra como a relação imaginária entre o eu e o outro atravessa e interrompe a fala que vai do sujeito ao Outro; e o seminário sobre "A carta roubada", de Edgar Allan Poe, em que é a carta que define a posição de quem a possui.
O ano termina com uma conferência sobre psicanálise e cibernética e com uma pergunta feita a sério — por que os planetas não falam? A resposta conduz à leitura da pulsão de morte como insistência de uma ordem simbólica.
O que se encontra aqui
O eu não é o sujeito
A tese do ano, enunciada na abertura, 17 de novembro de 1954.
Lévi-Strauss
As Estruturas elementares do parentesco e o fim da oposição natureza/cultura, em 1º de dezembro de 1954.
A câmera e o lago
Não há eu numa máquina que registra: 8 de dezembro de 1954.
Hegel e Freud
Com Jean Hyppolite, em 12 de janeiro de 1955: o saber absoluto e o que Freud traz de novo.
O Projeto de 1895
Exposto por Anzieu em 26 de janeiro e continuado por Valabrega em 2 e 9 de fevereiro de 1955.
O sonho de Irma
Lido em 9 e 16 de março de 1955: a garganta, a fórmula da trimetilamina, o eu que se decompõe.
Par ou ímpar
O jogo proposto ao auditório em 30 de março de 1955, com o matemático Jacques Riguet.
A carta roubada
26 de abril de 1955 — lição sem estenotipia, conhecida pelo texto publicado em 1956; é lá que estão as cadeias α β γ δ.
Édipo em Colono
A fala de Édipo no fim da vida, em 11 e 18 de maio de 1955.
Por que os planetas não falam
Pergunta lançada em 18 de maio e respondida em 25 de maio de 1955.
O esquema L
Construído a partir do "muro da linguagem", em 1º de junho de 1955.
O "Nome do Pai"
Uma das primeiras aparições da expressão, a propósito do Homem dos Lobos, em 8 de junho de 1955.
Onde falta o texto
24 de novembro de 1954, 23 de março e 26 de abril de 1955 não têm estenotipia.
Lição por lição 25 sessões
117 nov. 1954
O eu não é o sujeito
Abertura do ano. Lacan apresenta a tese que vai desdobrar até junho: a descoberta de Freud descentra o sujeito em relação ao eu.
O descentramento freudiano comparado ao de Copérnico
"Eu é um outro": os poetas dizem a verdade sem saber o que dizem
La Rochefoucauld e o amor-próprio — e o que há de realmente novo em Freud
Os diálogos de Platão, Protágoras e Mênon: o que é a virtude, e se ela se ensina
A crítica do "ego autônomo" dos psicanalistas americanos
Rimbaud, La Rochefoucauld, Platão (Protágoras, Mênon), Copérnico
224 nov. 1954
Sem estenotipia
As transcrições trazem apenas a indicação STÉNOTYPIE MANQUANTE. Para esta lição, só existe a versão estabelecida por Jacques-Alain Miller e publicada em 1978.
Lacuna registrada nas próprias transcrições
31 dez. 1954
Lévi-Strauss e a ordem simbólica
Lacan comenta a reunião da véspera e faz uma leitura de As estruturas elementares do parentesco: a ordem simbólica forma um universo do qual não se pode sair.
O Édipo e o tabu do incesto pensados a partir das trocas
Estamos dentro da ordem simbólica, e tão dentro que não podemos sair dela
Depois de Lévi-Strauss, a oposição entre natureza e cultura deixa de ser simples
O "homem-máquina" dos materialistas do século XVIII
O debate com Jean Hyppolite: o que quer dizer "universo simbólico"? E a presença na ausência
Lévi-Strauss, Jean Hyppolite, Didier Anzieu, Octave Mannoni, Durandin, Perrier
48 dez. 1954
A câmera, o lago e a consciência
Uma das lições mais claras do seminário sobre o que é a consciência. Lacan imagina uma câmera que filma uma montanha e seu reflexo num lago para mostrar que registrar não é ser um eu.
Abre com um dístico de Angelus Silesius: o que fazia Deus antes de criar o mundo?
As resistências ao ensino estão justamente no eu — a "soma dos preconceitos"
O romance familiar: a criança que imagina ter outra família
Se ninguém estiver lá, a câmera registra a montanha e o reflexo no lago — e não há nela sombra de um eu
Máquinas que se regulam sozinhas, e o que nelas parece desejo
Angelus Silesius, Descartes
515 dez. 1954
O princípio do prazer e o terceiro polo
Lacan retoma a exposição da véspera, de Serge Leclaire, e avisa contra o risco de substituir uma idolatria do sujeito por outra.
A imagem das máquinas que dançam juntas, e a "Grande Voz" do legislador que as ordena
O sistema da consciência, curiosamente fora da dinâmica do aparelho psíquico
Fechner e o princípio de inércia
O princípio de realidade como princípio do prazer adiado — e o que escapa aos dois
A compulsão à repetição como insistência
Serge Leclaire, Fechner, Fliess, Descartes
612 jan. 1955
De Hegel a Freud
Depois da conferência de Jean Hyppolite na véspera, um confronto: o que há de novo em Freud quando posto ao lado de Hegel?
A compulsão à repetição (Wiederholungszwang) e as duas tendências que nela se misturam
O saber absoluto de Hegel, e por que a consciência nunca chega a ele
A pergunta que vem da véspera: a psicanálise é um humanismo?
Freud médico: o corpo abordado como máquina, e os seres vivos como sistemas que se regulam
Hegel (Fenomenologia do espírito), Jean Hyppolite, Lefèvre-Pontalis, Descartes
719 jan. 1955
Merleau-Ponty e o além do princípio do prazer
Lacan comenta a conferência de Merleau-Ponty da véspera e volta ao impasse do Além do princípio do prazer.
Contra a ideia de uma vida que progride sempre para formas mais perfeitas
A entropia, e o princípio do prazer que só se completaria na dissolução
Julius Robert Mayer e a conservação da energia
O que a análise descobre não avança por adaptação, mas por saltos
A memória das máquinas de calcular
Merleau-Ponty, Julius Robert Mayer, Jean Hyppolite
826 jan. 1955
O Projeto de 1895
Didier Anzieu apresenta o Projeto de uma psicologia, o manuscrito em que Freud tentou descrever o aparelho psíquico como um sistema de neurônios. Valabrega e Perrier discutem.
A relação de objeto e os fenômenos psicossomáticos: a linha de partilha do narcisismo
O aparelho de neurônios: quantidades de energia que circulam e se acumulam
A dor como irrupção de uma quantidade grande demais
O eu aparece pela primeira vez neste manuscrito
Didier Anzieu, Jean-Paul Valabrega, François Perrier, Freud (Projeto), Breuer
92 fev. 1955
Percepção, memória, realidade
Jean-Paul Valabrega continua o Projeto. Lacan discute como o aparelho distingue uma percepção de uma lembrança.
A advertência de Lefèvre-Pontalis: não fazer do "estádio do espelho" uma palavra mágica
Melanie Klein, Anna Freud e Jones
O que é um estímulo — e por que falar de "informação" é prematuro
O sinal de realidade: como o sistema sabe que algo está mesmo lá
O mundo do caranguejo não é o do coelho: cada espécie tem o seu
Jean-Paul Valabrega, Lefèvre-Pontalis, Melanie Klein, Anna Freud, Jones
109 fev. 1955
Do Projeto ao sonho
Lacan enuncia um método de leitura: criticar uma obra pelos princípios que ela mesma dá. Passa-se do esquema de 1895 ao da Interpretação dos sonhos.
A entropia, e as tentativas de medir a "energia psíquica"
A linguagem não está na máquina — mas também não basta dizer que foi o homem que a pôs ali
O sonho de Irma e o caráter alucinatório do desejo
A carta a Fliess em que Freud reconhece os limites da própria análise
Jean-Paul Valabrega, Bernfeld, Feitelberg, Fliess
1116 fev. 1955
Censura e esquecimento dos sonhos
Entrada no capítulo VII da Interpretação dos sonhos, com Valabrega. O ponto de partida: por que esquecemos os sonhos?
Todo obstáculo à interpretação vem da resistência
A censura é uma intenção: a história de quem descobre que dizer "o rei da Inglaterra é um imbecil" é proibido
A censura e o supereu
O "lugar psíquico" do sonho, ideia que vem de Fechner
Ivan Karamázov e o "tudo é permitido"
Jean-Paul Valabrega, Fechner, Dostoiévski
122 mar. 1955
O aparelho psíquico e a regressão
Continuação da leitura dos esquemas de Freud, "textos que se leem sempre depressa demais".
O objeto que se busca nunca é reencontrado: é sempre um objeto novo
A instância que critica e a instância criticada
Por que Freud precisou admitir que a excitação pode andar "para trás" no aparelho
Jean-Paul Valabrega, Fechner
139 mar. 1955
O sonho da injeção de Irma
Lacan faz uma nova leitura do sonho inaugural da psicanálise, o primeiro que Freud interpreta por inteiro.
O sonho contado: Irma, a garganta, Otto, o Dr. M., a injeção
A visão do fundo da garganta como encontro com algo de horrível
As mulheres por trás de Irma, e a leitura de Erikson
O inspetor Bräsig, personagem de Fritz Reuter
A fórmula da trimetilamina, que aparece em letras grossas: uma palavra que vem de fora, como resposta
Freud (o sonho de Irma), Fliess, Erik Erikson, Fritz Reuter
1416 mar. 1955
O eu decomposto
Antes, um debate sobre a conferência de Marcel Griaule sobre os Dogon, povo do Sudão francês. Depois, a segunda parte do sonho de Irma.
Os Dogon e o que deles se conhece por um informante
No sonho, o eu se decompõe nos personagens que nele aparecem
O homem se percebe como desejo diante de uma unidade que ele vê fora de si
O ponto de angústia, e o "eu" que se apaga na fórmula química
Marcel Griaule, os Dogon, Erik Erikson
1523 mar. 1955
Sem estenotipia
Segunda lacuna do ano: só a indicação STÉNOTYPIE MANQUANTE e a remissão à edição de 1978.
Lacuna registrada nas próprias transcrições
1630 mar. 1955
Par ou ímpar
Lição curta, perto das férias. Lacan faz o auditório jogar par ou ímpar e anotar as sequências, com o matemático Jacques Riguet.
Os limites da intersubjetividade a dois: adivinhar o que o outro vai pensar
O raciocínio em três tempos do jogador "inteligente"
Não há acaso naquilo que fazemos com a intenção de produzir acaso
Mannoni objeta; Lacan responde
Folhas distribuídas: cada um escreve sua sequência de pares e ímpares
Jacques Riguet, Octave Mannoni, David, Poe
1726 abr. 1955
O seminário sobre "A carta roubada"
Lição sem estenotipia, conhecida pelo texto que Lacan publicou em 1956. É a leitura do conto de Edgar Allan Poe que abrirá os Escritos.
O conto: a carta da rainha, roubada pelo ministro e recuperada pelo detetive Dupin
Duas cenas com três olhares: quem não vê, quem vê que o outro não vê, e quem vê tudo
A carta define a posição de quem a tem
O jogo de par ou ímpar, e as cadeias de símbolos α β γ δ
O verso de Crébillon deixado por Dupin na carta falsa
Edgar Allan Poe, Baudelaire, Crébillon
1811 maio 1955
O sonho e o devaneio
Uma exposição de Durandin abre a discussão. Lacan prepara o encontro entre a repetição e a insistência da fala.
A repetição como inércia: o retorno ao inorgânico
A resistência não deve ser buscada em outro lugar senão em nós mesmos
Lacan articula o que chama de insistência significante com o que Freud chama de pulsão de morte.
A libido como modo de falar do desejo, e o preço dessa maneira de falar
O engano no animal: na sexualidade, é fácil enganar um animal com uma imagem
Édipo em Colono: o destino de Tebas depende de uma fala que não souberam ouvir
Edgar Allan Poe e o caso do Sr. Valdemar, entre a vida e a morte
A pergunta que fica: por que os planetas não falam?
Sófocles, Aristóteles, Edgar Allan Poe, Octave Mannoni
2025 maio 1955
Por que os planetas não falam
Lacan responde à pergunta da semana anterior. A resposta serve para isolar o que faz do humano outra coisa que um astro.
Os planetas não falam: estão sempre no mesmo lugar — e é desse "mesmo lugar" que nasce a ciência
A síndrome de Cotard, o delírio de negação
O eu é uma construção imaginária, e é isso que ele tem de bom
A paciente angustiada com a ideia de que o analista saiba o que ela tem na mala
O analista como um espelho que não reflete o próprio eu
Parmênides, Koyré, Cotard
211 jun. 1955
O muro da linguagem
Construção do esquema que ficará conhecido como esquema L. Lacan avisa: todo esquema é uma metáfora.
A fala vai em linha reta, mas bate no "muro da linguagem"
O eu e o outro em espelho interrompem a fala entre o sujeito e o Outro
A teoria de Fairbairn: o ego central, o ego libidinal, o "sabotador interno"
O escravo do Mênon e a geometria de Euclides
Fairbairn, Platão (Mênon), Euclides
228 jun. 1955
Anfitrião: o sósia e o pacto
Molière e Plauto, com a história de Sósia, que encontra alguém igual a ele, servem para mostrar o que o pacto simbólico faz com a relação imaginária.
O pai simbólico — "o que eu chamo o Nome do Pai" —, o pai imaginário e o pai real
A mulher como objeto de troca no pacto do casamento, e o que diz Proudhon
Sósia diante do seu duplo: o eu encontra sempre o próprio reflexo
Um caso de neurose obsessiva
A inveja do pênis é simbólica, e não natural
Molière e Plauto (Anfitrião), Proudhon, o Homem dos Lobos
2315 jun. 1955
O que é uma mensagem
Lacan faz o auditório falar para saber onde cada um está. Segue-se o problema dos três prisioneiros com discos nas costas.
As respostas de Colette Audry, Riguet, Leclaire, Marchant, Mannoni e outros
A mensagem pode ser levada por um mensageiro que não sabe o que ela diz
"No princípio era o Verbo"
Os três prisioneiros: cada um só vê os discos dos outros dois, e precisa concluir sobre si
Colette Audry, Jacques Riguet, Serge Leclaire, Marchant, Octave Mannoni, Lefèvre-Pontalis
2422 jun. 1955
Psicanálise e cibernética, ou da natureza da linguagem
Conferência pública, aberta a um público mais amplo que o do seminário.
O resultado do jogo de par ou ímpar feito em março
Ciências exatas e ciências "conjecturais"
O relógio, a natureza e o tempo: o que é encontrar algo no mesmo lugar
A porta aberta ou fechada, e a lógica binária, de 0 e 1
O sentido, e o risco de reduzir a análise aos temas imaginários
Pascal, Huyghens, Norbert Wiener, Borel
2529 jun. 1955
A palavra e a resistência do analista
Última lição. Começa por uma discussão sobre o "Verbo" do Evangelho de São João e termina numa das frases mais conhecidas do ano.
Davar: o que o hebraico diz quando diz "palavra"
Bultmann e a falta do conceito grego de logos na tradição bíblica
Discussão com Valabrega, Mannoni e Beirnaert sobre o símbolo e o imaginário
"A única resistência verdadeira na análise é a resistência do analista"
São João, Bultmann, Jean-Paul Valabrega, Octave Mannoni, Louis Beirnaert, Jacques Riguet
Armadilhas. (a) O a do esquema L é o eu, imaginário — não é ainda o objeto a, que só aparecerá com esse valor em 1962–63. É a confusão mais comum entre leitores. (b) "A máquina" não é uma tese materialista sobre o cérebro: é uma demonstração de que a ordem simbólica funciona sem sujeito. (c) O comentário de Poe é uma demonstração sobre lugares, não uma interpretação literária.
Antes / depois. Antes: S1. Depois: o Seminário sobre "A carta roubada" nos Écrits (redigido em 1956, colocado por Lacan na abertura do volume, contra a cronologia — decisão editorial que é ela mesma uma tese).
S3Les psychosesAs psicoses1955–1956 · 25 lições
Ficha. 25 sessões, sem lacunas assinaladas, todas de Lacan. Um dos seminários mais bem construídos e mais legíveis, com um fio contínuo: as Memórias de Schreber.
A pergunta. O que é a psicose, se não é um déficit? A resposta constrói um mecanismo próprio, irredutível ao recalque, e uma clínica fundada na estrutura da linguagem e não na psicopatologia descritiva.
O argumento
Vinte e cinco lições, sem lacuna e sem expositor convidado: é o seminário mais contínuo dos primeiros anos. O objeto é um livro — as Memórias de um doente dos nervos, que o juiz alemão Daniel Paul Schreber escreveu sobre a própria loucura — e a tese é que a psicose não é um déficit. Ela tem uma estrutura, e essa estrutura é de linguagem.
O ano começa pela história da noção de paranoia e pela crítica de um critério muito difundido na psiquiatria: o de que o delírio seria aquilo que "não se compreende". Lacan propõe o contrário: partir dos fenômenos, e os fenômenos da psicose são fenômenos de linguagem — vozes, palavras de sentido estranho, frases que se interrompem.
O meio do ano constrói o mecanismo. Em 11 de janeiro de 1956, retomando o texto de Freud sobre a negação, Lacan formula que, antes de qualquer simbolização, pode acontecer que uma parte dela simplesmente não se faça: é a Verwerfung, que se traduzirá por foraclusão. Em 15 de fevereiro, ele a distingue do recalque (Verdrängung) pelo lugar em que cada um acontece.
O terceiro trimestre é linguístico. Passa pelas duas formas de afasia, pela oposição entre metáfora e metonímia, por um verso de Victor Hugo e pelas rimas estranhas que Schreber ouve dos "pássaros do céu". Em 6 de junho aparece, com esse nome, o ponto de basta — o ponto em que um significante prende o sentido —, demonstrado sobre o primeiro verso de Athalie, de Racine.
O ano termina com um longo exercício de gramática sobre uma frase — "tu és aquele que me seguirás" — que leva a uma conclusão: o que falta na psicose falta no lugar do pai, e ser pai, diferentemente de procriar, não tem significante que lhe corresponda.
O que se encontra aqui
Contra o critério da compreensão
A crítica a Jaspers, na abertura, 16 de novembro de 1955.
"Porca!"
A paciente que ouve um insulto no corredor: 7 de dezembro de 1955.
O dialeto corso
Um caso em que outra língua fazia as vezes do recalque: 14 de dezembro de 1955.
"A coisa freudiana"
Lacan lê o discurso que fez em Viena: 21 de dezembro de 1955.
A foraclusão
A Verwerfung é formulada em 11 de janeiro de 1956 e distinguida do recalque em 15 de fevereiro de 1956; a tradução “forclusion” só é adotada na última lição, 4 de julho de 1956.
"Sou homem ou sou mulher?"
A pergunta histérica, com o caso do condutor de bonde de Budapeste: 14 e 21 de março de 1956.
Metáfora e metonímia
Com as duas formas de afasia e o verso de Victor Hugo: 2 e 9 de maio de 1956.
Os "pássaros do céu" de Schreber
As rimas que eles repetem — Santiago / Karthago, Chinesentum / Jesum Christum: 9 de maio de 1956.
O ponto de basta
Primeira aparição do termo, em 6 de junho de 1956, sobre o verso de Athalie.
"Tu és aquele que me seguirás"
O exercício gramatical de 13, 20 e 27 de junho de 1956.
A grande estrada
A imagem do significante que organiza o campo, em 20 de junho de 1956.
O que é ser pai
A questão da procriação, de 20 de junho a 4 de julho de 1956.
Lição por lição 25 sessões
116 nov. 1955
O que é a paranoia
Abertura do ano. Freud quase nada disse sobre o tratamento das psicoses; é preciso, então, começar pela doutrina — e por uma crítica.
Os analistas se ocupam mais da esquizofrenia; é da paranoia, porém, que se pode aprender mais
Por muito tempo, "paranoia" foi o nome de quase toda loucura
Clérambault, que viu coisas que ninguém tinha visto
A crítica de Jaspers: a ideia de que o delírio é o que não se compreende
O exemplo do carro vermelho que, para o paciente, "quer dizer" alguma coisa
Clérambault, Jaspers, Schreber (anunciado)
223 nov. 1955
O sentido oposto das palavras primitivas
Lacan percorre a história da noção de paranoia e lê, em alemão, um texto de Freud sobre palavras antigas que diziam ao mesmo tempo uma coisa e o seu contrário.
O "momento fecundo": no começo do delírio há sempre uma ruptura
Por que a palavra comum, "loucura", continua sendo a mais justa
Freud e o linguista Karl Abel: no egípcio antigo, uma palavra podia significar algo e o seu oposto
Como a estrutura do próprio texto do delírio permite classificar a paranoia de outro modo
Karl Abel, Freud (O sentido antitético das palavras primitivas), Kraepelin, Flechsig, Benveniste
330 nov. 1955
A homossexualidade não explica nada
Crítica da explicação corrente do caso Schreber pela homossexualidade, e primeira aproximação do que a psicose faz com a linguagem.
A homossexualidade como explicação: o que se diz dela é vago e contraditório
O "galopiner" de uma paciente: uma palavra vinda de outro mundo, que só ela entende
Mensagens que chegam com atraso e se repetem como eco
O conhecimento paranoico, nascido da rivalidade e do ciúme no espelho
A diferença entre o sujeito que fala, o pequeno outro e o grande Outro
Clérambault, Schreber, Benveniste
47 dez. 1955
Neurose e psicose em Freud — "Porca!"
Lacan lê, no original alemão, os dois artigos de 1924 em que Freud compara a perda da realidade na neurose e na psicose. E apresenta um caso.
Por que a relação com a realidade é tão diferente nos dois casos
O que significa, exatamente, recalcar
A paciente que ouve "porca!" no corredor — depois de ela mesma ter dito "venho do açougueiro"
O ponto não é que ela se sinta hostilizada: é que a palavra foi ouvida, vinda de fora
Freud (Neurose e psicose e A perda da realidade na neurose e na psicose, 1924)
514 dez. 1955
O dialeto corso e o mundo de Schreber
Um caso apresentado na véspera: um rapaz para quem, em casa, só existia a língua corsa. Depois, a entrada na leitura das Memórias.
O rapaz criado em Paris, filho único, para quem tudo o que acontecia em casa se dizia em outra língua
O que, em outro sujeito, seria recalcado, nele era sustentado por um segundo idioma
Primeiros capítulos de Schreber, lidos em ordem
Os sonhos de castigo
A relação "diagonal" do delírio, diferente da relação entre duas pessoas que se falam
Schreber (Memórias), Katan
621 dez. 1955
"A coisa freudiana"
Lição curta. Notando a dificuldade do auditório com a leitura de Schreber, Lacan muda de método e lê o discurso que pronunciou em Viena.
O erro de método reconhecido: será preciso escolher o que ler
O discurso de Viena, que se tornará "A coisa freudiana", nos Escritos
A "curiosa aventura" do púlpito que cedeu no meio da conferência
Dalí, que dias antes contara na Sorbonne a metamorfose de A rendeira, de Vermeer, em chifres de rinoceronte
A psicanálise nos Estados Unidos e o seu desvio
O sentido de um retorno a Freud
Salvador Dalí, Vermeer
711 jan. 1956
Afirmar ou foracluir
A lição em que o mecanismo da psicose é formulado. Lacan volta ao texto sobre a negação, comentado por Hyppolite dois anos antes.
A certeza delirante, e por que ela não é a do sujeito comum
O "assassinato de alma" de que Schreber se diz vítima
Desconfiar de explicações por mecanismos comuns, como a projeção
Antes de toda simbolização, pode acontecer que algo não seja simbolizado
Na origem, ou Bejahung — a afirmação — ou Verwerfung — a recusa, a foraclusão
Freud (A negação), Jean Hyppolite, Kris, Schreber
818 jan. 1956
As almas e os duplos
Da estrutura ao detalhe do delírio: as "almas", a posição feminina diante de Deus, e um desvio pelo comportamento animal.
O que Schreber não podia suportar: uma posição feminina diante do pai
Quando o parceiro é Deus, a castração deixa de importar — é a lógica do delírio de grandeza
Dora, por contraste
O peixe que, sem saber se ataca, faz os gestos do acasalamento
As almas que são todas de mortos; Flechsig, o médico, também
A identidade fragmentada: ele é outro e é o mesmo
Schreber, Flechsig, Dora, Lorenz, Lagache
925 jan. 1956
A economia do caso
Para nós, o caso Schreber é o texto de Schreber. Lacan propõe estudar como o delírio evolui.
Freud explica pela passagem ao narcisismo, e ninguém tira as consequências
Katan e a noção de defesa
As internações: Coswig, depois Pirna
Os raios divinos e as almas
Grande parte do que se diz no dia a dia é discurso de ficção
Schreber, Katan, Flechsig, Cícero, Benveniste
101 fev. 1956
O não-sentido e a perfídia de Deus
A relação de Schreber com Deus e o fenômeno do não-sentido, com um desvio pela história da língua francesa.
"A palavra me falta", expressão nascida nos salões das Précieuses
O discurso sem sentido (Unsinn) com que Schreber tem de se haver
Cuidado com as comparações apressadas — com Plotino, por exemplo
A expressão "traumatismo craniano" que lhe vem sozinha, isolada
O amor de Deus por Schreber, e a "perfídia divina"
Contra a definição da alucinação como "percepção sem objeto": Lacan desloca a questão para a estrutura da fala.
Deus sabe qual número sairá na loteria? O futuro e a liberdade
O neurótico também testemunha do inconsciente, mas é preciso decifrar o seu testemunho
Mártir, em grego, quer dizer testemunha
As frases que se interrompem na escuta de Schreber, e o que as completa
O grito é puro significante; o pedido de socorro tem sentido
Schreber
1215 fev. 1956
Estrutura e economia da psicose
Lição de balanço. Por que analisar o fenômeno não é fazer fenomenologia, e por que a memória é o que há a explicar.
Estudar não só a estrutura, mas a economia das psicoses
Os fenômenos de linguagem como a fonte mais rica de ensino
Quem fala nas vozes? O outro imaginário, o duplo?
Foraclusão e recalque: dois lugares diferentes
O polvo de laboratório com eletrodos: o que ele faz com eles
Freud (A negação), Jean Hyppolite, Fliess, Schreber
1314 mar. 1956
O condutor de bonde: "sou homem ou mulher?"
Uma observação clínica antiga, de Budapeste, serve para isolar a pergunta que está no fundo da histeria.
O que se chama "pré-verbal" não é anterior à linguagem
O caso relatado por Joseph Hasler: um condutor de bonde com uma dor estranha nas costelas
Tudo no caso se ordena em torno de uma pergunta: sou homem ou sou mulher? — e: posso gerar?
Por que, para a mulher histérica, identificar-se ao pai é mais simples que para o homem
Joseph Hasler, Schreber, Dora, Françoise Dolto
1421 mar. 1956
O que não tem significante
A dissimetria do complexo de Édipo entre meninos e meninas leva ao ponto em que falta um significante.
Freud sempre insistiu que o Édipo não é igual para os dois sexos
O falo como símbolo sem correspondente feminino
A questão da procriação, posta a cada sexo de outro modo
A couvade: o costume em que o pai "dá à luz" junto com a mãe
O recalque como queda de algo na passagem de uma inscrição a outra
Dora, Freud (A dissolução do complexo de Édipo, Sobre a sexualidade feminina)
1511 abr. 1956
Ninguém na natureza usa o significante para significar
Volta das férias, com uma epígrafe de Cícero. Lacan enuncia o que separa a física da linguagem.
Cícero: o cuidado da natureza em permitir o uso da fala
A noção de estrutura já é efeito do significante
Na natureza, ninguém usa um significante para significar
Como distinguir os sintomas de antes da psicose dos de uma neurose?
A fórmula do sonho de Irma, de novo: é do significante que se trata
Cícero, Schreber, Freud (o sonho de Irma), Katan
1618 abr. 1956
Significante e significado na psicose
Lacan usa trechos de Schreber para mostrar por que é preciso separar significante e significado.
Schreber, "excepcionalmente dotado" para observar o que lhe acontece
Por que a explicação pela homossexualidade é aceita sem crítica
Os mesmos mecanismos convocados para psicose e neurose: é aí que está o problema
Nas psicoses, a resposta parece vir antes da pergunta
O homem moderno apoia-se em poucos pontos: num banco de três pés, não pode faltar nenhum
Schreber, Katan
1725 abr. 1956
Os nervos, os raios e a língua de Deus
Leitura do texto alemão de Schreber sobre a relação com Deus, com o comentário colado ao original.
A "volúpia de alma" e os pensamentos formulados em palavras
O recuo dos raios: dores e crises de gritos
O testemunho do psicótico sobre a sua relação com a linguagem deve ser levado a sério
Os "homens feitos às pressas", figuras que lhe parecem irreais
Os nervos que falam
Schreber, Silberer, Katan
182 maio 1956
Similaridade e contiguidade
Começa uma série sobre a linguagem. Uma frase de Freud a Fliess serve de epígrafe: "eles amam o seu delírio como a si mesmos".
No discurso do delírio não se encontra nada parecido com uma metáfora
"Sa gerbe n'était point avare ni haineuse", de Victor Hugo: um feixe de trigo não pode ser avaro — e, no entanto, o verso funciona
A similaridade e a contiguidade: substituir uma palavra por outra, ou encadear palavras
As duas formas de afasia: perder uma ou outra dessas capacidades
Moisés e o monoteísmo, anunciado
Victor Hugo ("Booz endormi"), Freud (carta a Fliess, Moisés e o monoteísmo)
199 maio 1956
Metáfora, metonímia e os pássaros do céu
A lição central sobre metáfora e metonímia, construída sobre as afasias e sobre as rimas que Schreber ouve.
Significante e significado não são o velho par "ideia e palavra"
A metáfora como transporte de sentido, vista em funcionamento
A substituição só é possível porque as palavras ocupam posições
A fórmula: "a metonímia é uma metáfora pobre"
Os "pássaros do céu" de Schreber e suas rimas: Santiago ou Karthago, Chinesentum ou Jesum Christum, Ahriman ou Ackermann
Pura equivalência de sons, sem relação de sentido
Schreber, Pichon e Damourette
2031 maio 1956
O psicótico habitado pela linguagem
Freud e os hieróglifos, Clérambault e o automatismo mental: a linguagem vista de fora.
Freud compara os sonhos aos hieróglifos egípcios
Os analistas, ignorantes do método de um filólogo
Os "fenômenos elementares" e o automatismo mental de Clérambault
O psicótico é habitado pela linguagem: ela lhe chega de fora
Os pronomes que se declinam e os que não se declinam
Clérambault, Schreber, Freud
216 jun. 1956
O ponto de basta
A lição em que o termo aparece. A demonstração é feita sobre o primeiro verso de Athalie, de Racine, palavra por palavra.
"Oui…": e daí em diante não se sabe aonde a frase vai
"Oui, je viens dans son temple adorer l'Éternel": quem fala é Abner, e Joad, o sumo sacerdote, escuta
"Trembler" e "temer": a mesma raiz, e o temor que vai aparecer
A "massa amorfa" dos pensamentos, em Saussure
O ponto de basta: como a agulha do estofador, um significante prende o sentido e fixa o que veio antes
Racine (Athalie), Saussure, Schreber, Clérambault
2213 jun. 1956
"Tu és aquele que me seguirás"
Uma lição de gramática, a partir de frases recolhidas na gramática de Pichon e Damourette. O exercício prepara a questão do pai.
"Je suis beaucoup plus moi. Avant j'étais un para-moi…": a frase de uma paciente
O "tu" e o "eu": quem é o Outro a quem se fala?
Ao "tu és meu mestre" responde um "quem sou eu?"
A voz média: verbos em que o sujeito se faz no próprio ato
Em toda a obra de Schreber, o pai é nomeado uma única vez
Pichon e Damourette, Benveniste, Schreber
2320 jun. 1956
A grande estrada e o que é ser pai
O exercício gramatical desemboca na questão da procriação e numa imagem que dá nome à lição.
A frase declinada em todas as formas: "tu és aquele que me segue, que me seguia, que me seguiu…"
A grande estrada: um significante não liga um ponto a outro; ele organiza todo um campo
É o significante que cria o campo das significações
Mais difícil que "ser mãe" é ser pai: isso não se resolve sabendo que, para ter filhos, é preciso copular
Onde falta a estrada principal, colocam-se placas — e elas se põem a falar sozinhas
Saussure, Schreber
2427 jun. 1956
Mandato, ostensão, pontuação
Última volta em torno da frase, agora pela diferença entre uma ordem e um mandato.
"Tu és aquele que me seguirás" não é uma ordem: é um mandato, e supõe todo um mundo instituído pela palavra
Nas línguas sem declinação, é a ordem das palavras que separa sujeito e objeto
A pontuação: onde colocá-la muda o sentido
A tartaruga e os dois patos, de La Fontaine
Em Schreber, cada gesto é comentado por vozes
La Fontaine, Pichon, Heidegger, São Tomás, Schreber, Ida Macalpine
254 jul. 1956
O meteoro, o Papai Noel e o monstro Chapalu
Última lição. Lacan responde à objeção de Ida Macalpine, tradutora de Schreber, e termina com uma leitura literária.
Freud explica o delírio por uma tendência homossexual negada — e é aí que a objeção de Macalpine pesa
O meteoro: o tecido mais inconsistente que se pode apresentar ao homem
"Estamos todos, eu com vocês, inseridos nesse significante maior que se chama Papai Noel"
O monstro Chapalu, de Apollinaire, que mia e só encontra corujas
A esfinge que morre por não ter adivinhado
Ida Macalpine, Apollinaire (O encantador apodrecido), Jones, Schreber
Armadilhas. (a) Foraclusão não é recalque intenso: é outra operação lógica. (b) A psicose não é ausência de estrutura — é uma estrutura. (c) O desencadeamento exige um encontro contingente com “Um-pai”: não basta a foraclusão — formulação que Lacan dará em “De uma questão preliminar…” (1958).
Antes / depois. Depois, obrigatoriamente: "D'une question préliminaire à tout traitement possible de la psychose" (1957–58), que condensa o seminário e apresenta os esquemas R e I.
S4La relation d'objetA relação de objeto1956–1957 · 24 lições
Ficha. 24 sessões. A partir de março, o caso do pequeno Hans ocupa o seminário inteiro, até julho. Dora ocupa quase toda a lição de 23 de janeiro de 1957.
A pergunta. O que é um objeto em psicanálise? Contra a "relação de objeto" da IPA — que fazia do objeto algo a ser encontrado e da análise uma reeducação afetiva — Lacan demonstra que a falta de objeto é o que estrutura, e que ela vem em três modalidades.
O argumento
Este é um seminário escrito contra um livro. Em 1956 saíra La psychanalyse d'aujourd'hui, obra coletiva em que a "relação de objeto" era a peça central da teoria e da técnica: haveria um objeto a encontrar, uma distância a regular, e a análise seria uma espécie de reeducação afetiva. Lacan passa o ano demonstrando o contrário: não é a relação com o objeto que estrutura o sujeito — é a falta dele.
A primeira metade do ano constrói o instrumento: três maneiras de faltar o objeto — frustração, privação e castração —, cada uma com o seu agente e o seu objeto. O quadro é testado em dois casos: o fetiche, objeto posto no lugar daquilo que falta à mãe, e a jovem homossexual tratada por Freud em 1920, que reage a uma decepção com o pai identificando-se a ele.
A segunda metade é uma coisa só: o pequeno Hans, menino de cinco anos que tinha medo de cavalos, tratado por Freud por meio do próprio pai. De março a julho, Lacan lê a observação dia a dia. A fobia aparece ali como um mito que a criança constrói, e o cavalo como um significante que troca de lugar com os outros elementos da história: as girafas, a banheira, o encanador, a mordida, a queda.
A conclusão é de estrutura: Hans não tem medo de um pai severo — ao contrário, o pai não intervém o bastante. A fobia chama um elemento simbólico ali onde a função do pai falhou. É o caminho que levará, no ano seguinte, à metáfora paterna.
O que se encontra aqui
Contra a "relação de objeto"
A abertura polêmica, 21 de novembro de 1956.
Frustração, privação, castração
O quadro das três faltas, armado a partir de 28 de novembro de 1956.
A onipotência é da mãe
Não da criança: 12 de dezembro de 1956.
A jovem homossexual
O caso de Freud (1920), lido em 9, 16 e 23 de janeiro de 1957, ao lado de Dora.
O véu e o fetiche
"Sobre o véu pinta-se a ausência": 30 de janeiro de 1957.
O pequeno Hans
De março a 3 de julho de 1957: a leitura mais longa que Lacan fez de um caso.
Medo e angústia
A fobia permite separá-los: 20 de março de 1957.
A fobia como mito
Com o método de Lévi-Strauss, em 27 de março de 1957.
Wegen dem Pferd
"Por causa do cavalo" e Wägen, carroças: o trocadilho como mola, em 8 de maio de 1957.
O Nome do Pai
O pai simbólico, que instaura a existência do pai: 15 de maio, 5 e 26 de junho de 1957.
"Booz endormi" e Leonardo
A metáfora e a "humaníssima trindade", em 19 de junho de 1957.
Uma inversão de datas
As sessões de 6 e 13 de março de 1957 aparecem trocadas nas transcrições.
Lição por lição 24 sessões
121 nov. 1956
Contra a "relação de objeto"
Abertura polêmica. Lacan escolhe o tema justamente porque se tornara central na teoria dominante — e explica por que só pôde atacá-lo depois de três anos lendo Freud.
O livro coletivo La psychanalyse d'aujourd'hui, recém-publicado
O que a noção deve a Freud: o objeto que se reencontra depois do desmame
Em Freud, a relação entre sujeito e objeto nunca é harmoniosa: há sempre uma hiância
A fobia e o fetiche, escolhidos como os dois exemplos do ano
La psychanalyse d'aujourd'hui, Glover, Kierkegaard, Abraham, o pequeno Hans
228 nov. 1956
Frustração, privação, castração
Depois de uma semana lendo o que os analistas escreveram sobre a sexualidade feminina, Lacan começa a montar o quadro que organizará o ano.
O "objeto genital, para chamá-lo pelo nome, é a mulher"
O objeto alucinado pela criança e o objeto encontrado
Winnicott e o objeto transicional — o paninho, o urso — entre a alucinação e o encontro real
A mãe que ensina a criança a suportar a frustração
A privação como terceiro termo; a castração, do lado da dívida simbólica
Winnicott, Renan, Maurice Bouvet, o pequeno Hans
35 dez. 1956
A imagem do corpo e a libido
A partir de uma discussão sobre a imagem do corpo, Lacan volta à energia psíquica e explica para que serve a teoria do significante.
A imagem do corpo não é um objeto
A comparação com uma usina hidrelétrica: a energia já está nas condições anteriores
"Faço esta teoria do significante e do significado para lembrar-lhes a presença do Espírito Santo"
Encontrar o objeto é sempre reencontrá-lo, já nos Três ensaios
Quando a criança percebe que o que a mãe deseja nela é uma imagem do falo
Françoise Dolto, Freud (Três ensaios), Jones
412 dez. 1956
A onipotência é da mãe
O quadro das três faltas é posto em uso. A lição desmonta a ideia de uma "onipotência infantil".
O escândalo da psicanálise não foi falar de sexo: foi mostrar que o acesso ao objeto sexual é difícil por natureza
Presença e ausência: o primeiro par simbólico
A mãe se torna real quando não responde, e o objeto passa a valer como dom
É absurdo supor que a onipotência seja da criança: ela é da mãe
A menina que descobre que os meninos têm um "faz-pipi", e a fobia do cachorro que morde
Melanie Klein, Alice e Michael Balint, Anna Freud, Dora, o pequeno Hans
519 dez. 1956
O analista como objeto real
A técnica que decorre da teoria adversária: se o analista é um objeto real, a análise vira regulação de distância.
O analista concebido como objeto real, de quem o paciente se aproxima ou se afasta
Aonde leva uma técnica de "regulagem da distância"
O esquema proposto é, sem que os autores percebam, o de uma perversão fetichista
O bundling, costume de namoro em que os noivos dormem juntos sem se tocar
O homem de armadura que assusta um paciente, interpretado como "mãe fálica"
Maurice Bouvet, Ruth Lebovici, Freud, Dora
69 jan. 1957
A jovem homossexual
Lacan passa ao caso que Freud publicou em 1920: uma moça de boa família vienense, apaixonada por uma dama mais velha.
A frustração é um momento fugaz, que só existe na reconstrução
Se a demanda fosse atendida, o objeto ficaria em segundo plano
A jovem, a "dama" e a família
Freud reconhece que a análise não foi até o fim
Dora, ao lado: a pergunta dela era sobre o próprio sexo
A decepção com o pai convertida em identificação: ela passa a amar como um homem
Freud (Sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade feminina, 1920), Dora
716 jan. 1957
"Bate-se numa criança"
O caso é lido ao lado do texto de Freud sobre a fantasia de espancamento. O ponto: a fantasia fala de uma relação entre três.
O debate entre Anna Freud e Melanie Klein como sintoma de uma falta na teoria
Entre a imagem fantasiada e a frase que a diz, há algo a escutar
A fantasia supõe três pessoas e uma sequência no tempo
A menina que brinca de mãe com uma boneca
Winnicott e os objetos transicionais
Freud (Bate-se numa criança), Anna Freud, Melanie Klein, Winnicott, Dora
823 jan. 1957
Dora e a jovem homossexual: o pai que dá o que não tem
Os dois casos sobrepostos termo a termo. Antes, o jogo de par ou ímpar retomado como modelo da frustração.
O par ou ímpar: presença ou ausência, e a demanda que espera ser atendida
A frustração, por definição, nunca se satisfaz
O quarteto de Dora: o pai, a filha, a Sra. K. e o Sr. K.
"Não há razão alguma para amar a Deus, a não ser, talvez, que ele não exista"
A tentativa de suicídio da jovem, que se joga numa linha de trem: em alemão, niederkommen — cair, e também dar à luz
Dora, Freud (o caso de 1920), Marcel Mauss, Lévi-Strauss
930 jan. 1957
O véu e o fetiche
A lição em que se diz o que é o objeto do fetichista: não está no lugar do falo, está sobre o véu que o encobre.
O que se ama em alguém é aquilo que lhe falta; e só se dá o que não se tem
Para Freud, o fetiche é o substituto do falo que a mulher não tem
O falo simbólico existe como ausência
A cortina: o que está por trás tende a se realizar como imagem
O fetiche como exemplo da dinâmica do desejo, e a identificação examinada a partir dos termos alemães de Freud.
O pensamento de Freud partiu dos paradoxos — no caso do desejo, do desejo perverso
O travesti identificado à mãe enquanto ela esconde que não tem o falo
Fenichel, que viu muito sem conseguir teorizar
A Mignon de Goethe, figura ambígua entre os sexos
A introjeção é pensada com uma metáfora oral, de comer
Goethe, Fenichel, Graber, Freud, o pequeno Hans
1127 fev. 1957
A frustração não é a recusa de um objeto
Uma lição mais formal. Lacan redefine a frustração e mostra como o falo entra em jogo.
Frustração não é simplesmente não satisfazer uma necessidade
O grito do bebê já entra num sistema de gritos organizados
O salto: como o falo se introduz nessa dialética
E se, nas trocas de Lévi-Strauss, fossem as mulheres a trocar os homens?
"As girafas grandes são mudas; as pequenas, raras"
Lévi-Strauss, Fenichel, Melanie Klein, Jones, Karl Abraham, o pequeno Hans
126 mar. 1957
O que Freud não articulou: a castração
Sessão cuja data aparece trocada nas transcrições. O tema: Freud sempre falou do Édipo, mas nunca disse plenamente o que é a castração.
O Édipo está em Freud desde o começo, porque a sua pergunta pessoal era: o que é um pai?
A castração, ao contrário, nunca foi articulada por inteiro
Jones e a "afânise", o desaparecimento do desejo
A privação: a mulher não tem o pênis
Hans, aos quatro anos e meio, faz uma fobia — isto é, uma neurose
Jones, Freud (Cartas a Fliess), o pequeno Hans
1313 mar. 1957
O falo como significante e a função do pai
Sessão com a data também trocada. Lacan avisa: o percurso não é um desenvolvimento — cada etapa remaneja a anterior.
O que vem de fora em cada etapa reorganiza o que veio antes
É a ordem simbólica que dá ao falo, elemento imaginário, sua importância
A criança precisa assumir o falo como significante, como peça das trocas
Não basta chegar à heterossexualidade: é preciso situar-se diante da função do pai
A menina poderá ter o falo como dom do pai
O Wiwimacher, o "faz-pipi" de Hans
o pequeno Hans, Freud (Totem e tabu), Jones
1420 mar. 1957
Medo e angústia
Depois de esclarecer um ponto sobre "A carta roubada", Lacan entra propriamente no caso Hans.
"Desde que há escrita, há ortografia"
"Se você tem um faz-pipi, deve ser um bem grande, como o de um cavalo"
É muito difícil saber de que Hans tem medo
Diante dos cavalos, Hans não sente angústia: sente medo
A fobia como construção de proteção, um pórtico diante do edifício
O medo não é o elemento primitivo da neurose — e é a fobia que permite ver isso
o pequeno Hans, Freud
1527 mar. 1957
A fobia como mito
A lição de método: os elementos da fobia de Hans tratados como os elementos de um mito.
A mãe se torna real quando recusa o amor, e o seio vira símbolo da frustração
O mito é uma ficção que guarda uma relação singular com a verdade
Os elementos de um mito trocam de posição de uma versão a outra
A fobia piora depois de uma intervenção do pai, seguindo instruções de Freud
A fantasia das duas girafas: a grande e a amassada
o pequeno Hans, Freud (Teorias sexuais infantis)
163 abr. 1957
O cavalo como significante
Os elementos das fantasias de Hans tratados como termos que se combinam — e o menino raciocinando com eles.
Por que a fobia vem um ano depois do nascimento da irmã
"Como o bom Deus foi gentil de pôr menos cavalos hoje!"
Descobrir e surpreender: o objeto escondido que é o falo da mãe
A mãe nua e de camisola, e a piada de Alphonse Allais: "debaixo da roupa, ela está nua!"
As crianças esgotam as combinações possíveis melhor que os adultos
o pequeno Hans, Lévi-Strauss, Alphonse Allais
1710 abr. 1957
O mito e o ingênuo
Cada vez que o pai intervém, a produção mítica de Hans recomeça.
A visita a Freud em 30 de março e a coragem que Hans ganha
O cavalo atrelado ou não, a carroça de um ou dois cavalos
O Krawall, o estardalhaço do cavalo que cai
Um significante de sintoma pode cobrir significados muito diferentes
O cômico e o ingênuo, no livro de Freud sobre o chiste
o pequeno Hans, Freud (O chiste), Lévi-Strauss
188 maio 1957
Wegen dem Pferd: "por causa do cavalo"
A leitura chega a um trocadilho registrado por Freud, e Lacan o usa para mostrar as duas leis da linguagem em ação.
O mais constante dos desejos humanos: o desejo de outra coisa
Marte, Odin, Zeus: por que os deuses têm cavalos
O passeio de domingo à casa da avó, em Lainz
Wegen dem Pferd ("por causa do cavalo") e Wägen (carroças): o som une o que o sentido separa
As duas espécies de associação têm nome: metáfora e metonímia
o pequeno Hans, Freud
1915 maio 1957
O bairro de Hans, a pinça e o pé de Édipo
Lacan reconstitui o bairro onde Hans morava e acompanha as fantasias de abril.
O Nome do Pai, e o pai que, diante de Freud, representa um "superpai"
A fantasia de subir na carroça que descarrega diante de casa
Hans não teme ser separado da mãe: tem certeza de poder voltar
O mapa do bairro, a casa dos pais e o circuito
A fantasia da banheira, e o encanador que desparafusa o traseiro de Hans com uma pinça (Zange) para pôr outro
A pinça, os dentes, o casco do cavalo — e o pé ferido de Édipo
o pequeno Hans, Freud
2022 maio 1957
A língua de Hans
Epígrafe tirada dos Cadernos de Leonardo da Vinci. A lição é uma leitura atenta do vocabulário do menino.
Em torno do significante "cavalo" cresce toda uma arborescência mítica
O tema do retorno; a fantasia de uma nova partida com o pai
O pai sugere que a fobia vem de Hans se tocar
Grete, a menina das fantasias
O pai é bom demais para que se tenha medo dele — e o cavalo carrega o medo
A boneca furada com o canivete
Leonardo da Vinci (Cadernos), o pequeno Hans
215 jun. 1957
O encanador, o perfurador e os substitutos do pai
A lição isola os personagens que ocupam, na fobia, o lugar que o pai não ocupa.
Se o pai simbólico — o Nome do Pai — é essencial ao mundo simbólico, o que acontece quando ele não opera?
As calcinhas da mãe e o mal-entendido entre pai e filho
"O cavalo morde": como ele morde a mãe, ela o morderá
"O cavalo cai", como Hans se sente deixado cair desde que só se ocupam da irmã Anna
Não há castrador — mas há substitutos: o encanador, depois o perfurador
o pequeno Hans, Nietzsche (Assim falou Zaratustra)
2219 jun. 1957
"Booz endormi" e a trindade de Leonardo
A leitura de Hans desemboca na metáfora. Lacan retoma o verso de Victor Hugo e o estudo de Freud sobre Leonardo.
O Édipo funda a nossa instalação entre o real e o simbólico na existência daquele que tem a palavra: o pai
A metáfora em "Sa gerbe n'était point avare ni haineuse": a gavela no lugar de Booz
A fobia de Hans escrita em letras: o cavalo, a mãe
A queda como termo comum a tudo o que está em jogo; a irmã Anna, que ele quer ver cair
Leonardo e a "humaníssima trindade" — Santa Ana, a Virgem e o Menino —, com o cordeiro como quarto termo
Victor Hugo ("Booz endormi"), Freud (Uma lembrança de infância de Leonardo da Vinci), Françoise Dolto, o pequeno Hans
2326 jun. 1957
Formalizar a fobia
Penúltima lição: escrever a observação em letras, para fixar pontos de referência.
Robert Fliess e a "experiência filogenética"
Hans pede ao pai que faça o papel de pai: "você deve ficar com ciúmes"
A neurose como pergunta do sujeito sobre a própria existência: o que é ter o sexo que tenho?
O Nome do Pai, que instaura a existência do pai
A carroça e a banheira, onde se põem muitas crianças: figuras da mãe
o pequeno Hans, Robert Fliess, Isakower
243 jul. 1957
Encerramento
Lacan retoma a escrita em letras e explica por que não se deve exigir uma fórmula completa da pergunta de Hans. As transcrições anexam a esta lição o texto alemão do caso e do Leonardo.
Escrever as relações para fixar pontos de referência na discussão
Por que a pergunta de Hans não cabe numa fórmula completa
O balanço do ano: o que resta da "relação de objeto"
Em anexo, Análise da fobia de um menino de cinco anos e Uma lembrança de infância de Leonardo da Vinci, no original
Freud (Análise da fobia de um menino de cinco anos, 1909; Leonardo, 1910)
Armadilhas. (a) O quadro das três faltas é frequentemente decorado errado: preste atenção a que o agente e o objeto trocam de registro em cada linha. (b) "Falo" aqui é imaginário; o Φ simbólico é posterior. (c) O seminário é uma polêmica com a escola inglesa; sem saber isso, várias afirmações parecem gratuitas.
Antes / depois. Depois: "La signification du phallus" (1958) e o Seminário 5, que retoma a metáfora paterna já formalizada.
S5Les formations de l'inconscientAs formações do inconsciente1957–1958 · 27 lições
Ficha. 27 sessões nas transcrições (a de 13 de novembro de 1957 vem junto com a de 6 de novembro). Seminário de grande densidade e muito bem estruturado: divide-se com nitidez em três blocos — o chiste (nov.–dez.), a metáfora paterna (jan.–fev.), o desejo e a demanda (mar.–jul.).
A pergunta. Como o inconsciente se forma — isto é, como ele se produz em formações reconhecíveis (chiste, lapso, sonho, sintoma)? E qual é a estrutura comum a todas elas?
O argumento
O título é uma escolha de método. Lacan não vai falar do inconsciente em geral, mas das suas formações — o chiste, o lapso, o esquecimento de um nome, o sonho, o sintoma —, porque é nelas que o inconsciente se deixa apanhar, e porque todas obedecem à mesma estrutura.
O ano tem três blocos bem nítidos. O primeiro, de novembro a dezembro de 1957, é uma leitura do livro de Freud sobre o chiste. O exemplo de partida é uma piada de Heine: um personagem conta que o barão Rothschild o tratou de modo "famillionnaire" — familiar e milionário numa palavra só. Lacan a lê como uma metáfora, e põe ao lado o esquecimento do nome do pintor Signorelli, em que a metáfora falha. Daí sai uma peça central: o chiste precisa de um Outro que o receba e o reconheça.
O segundo bloco, de janeiro a fevereiro de 1958, é a metáfora paterna: o Nome-do-Pai vem no lugar do desejo da mãe e lhe dá uma significação. Os três tempos do Édipo são reformulados como momentos lógicos, e não como etapas da vida.
O terceiro bloco, de março a julho, é o do desejo. Depois de um longo exame do que os analistas escreveram sobre a "fase fálica", Lacan chega à distinção que comandará tudo: necessidade, demanda e desejo. Ela é demonstrada em dois sonhos de histéricas comentados por Freud — o do salmão defumado e o da bela açougueira — e depois no desejo do obsessivo.
O que se encontra aqui
O famillionnaire
A piada de Heine lida como metáfora: 6 de novembro de 1957 (a transcrição inclui aí a sessão de 13 de novembro).
Signorelli
O nome esquecido por Freud e os seus restos: 6 e 20 de novembro de 1957.
O Outro do chiste
Não há chiste sem alguém que o receba: 4 e 11 de dezembro de 1957.
A batalha de Marengo
A célebre história de exame, em 11 de dezembro de 1957.
A Escola de mulheres
Molière e o cômico, em 18 de dezembro de 1957.
A metáfora paterna
15, 22 e 29 de janeiro de 1958.
Os três tempos do Édipo
22 e 29 de janeiro de 1958.
A fase fálica em debate
Jones, Karen Horney, Hélène Deutsch, Melanie Klein: março de 1958.
Necessidade, demanda, desejo
A distinção de abril e maio de 1958.
O sonho do salmão defumado
30 de abril de 1958: um desejo de desejo insatisfeito.
O sonho da bela açougueira
7 de maio de 1958: o falo como significante numa frase.
O desejo do obsessivo e o acting out
14 e 21 de maio e 25 de junho de 1958.
Uma sessão sem cabeçalho
Nas transcrições, a lição de 13 de novembro de 1957 corre dentro da de 6 de novembro.
Lição por lição 27 sessões
16 nov. 1957
O chiste: famillionnaire
Abertura do ano. Nesta transcrição, a sessão de 13 de novembro vem junto, sem cabeçalho próprio — daí a extensão.
O ano vai pensar o lugar do significante no inconsciente
Um pequeno esquema com duas linhas: a do discurso comum e a dos efeitos de metáfora e metonímia
Heine, nos Quadros de viagem: Hirsch Hyacinthe conta que Rothschild o tratou de modo "famillionär"
Duas palavras que se fundem numa e produzem um sentido novo
O esquecimento do nome Signorelli: Signor e Herr, Bósnia-Herzegovina, e os restos que permitem reconstituir o nome
"Aterrado", em Bossuet: lido ao pé da letra, "posto por terra"
Freud (O chiste e sua relação com o inconsciente, Psicopatologia da vida cotidiana), Heine, Bossuet
220 nov. 1957
O que resta da metáfora
Se a metáfora cria sentido, o que sobra dela quando falha? Chiste e esquecimento de nome postos lado a lado.
O Prometeu mal acorrentado, de Gide, em que Zeus é um banqueiro
Quando a metáfora não se faz, ficam destroços que permitem achar o buraco
O resíduo da criação metafórica
Para que haja substituição, é preciso uma cadeia de significantes
Freud, Heine, Gide, Mallarmé
327 nov. 1957
A metonímia: as trinta velas
A outra face do chiste. Lacan explica por que parte sempre do exemplo particular: é o exemplo, e não a classe, que ensina.
O bezerro de ouro, e a resposta de Heine a um rival: "este já passou um pouco da idade"
As "trinta velas" de O Cid: a parte pelo todo, a metonímia
"O primeiro voo da águia" — e vol, em francês, é voo e também roubo
É preciso introduzir o Outro como lugar que recebe o chiste
Heine, Frédéric Soulié, Corneille (O Cid)
44 dez. 1957
De onde vem o prazer do chiste
A pergunta pela fonte do prazer obriga a introduzir o Outro.
O não-sentido nos engana tempo bastante para que um sentido se produza
A história do salmão com maionese: o homem que pediu dinheiro emprestado e é encontrado no restaurante
O desejo que passa deixa um circuito que insiste
Não há prazer do chiste sem alguém a quem contá-lo — e esse alguém é o Outro, com maiúscula
Freud, Octave Mannoni, Odier
511 dez. 1957
A batalha de Marengo
Como o Outro pode aceitar um não-sentido e transformá-lo em achado — com a mais célebre das histórias de exame.
O candidato a quem perguntam sobre a batalha de Marengo e que descreve um cavalo empinado relinchando
O cômico, e o livro de Bergson sobre o riso
"Por que você me diz que vai a Cracóvia, se você vai mesmo a Cracóvia?" — a verdade usada para enganar
O pequeno outro e o grande Outro no chiste
Freud, Bergson (O riso), Queneau
618 dez. 1957
O cômico, o ingênuo e Arnolphe
Último encontro do bloco do chiste. Para saber o que é o cômico, Lacan propõe ler comédias — e lê a Escola de mulheres, de Molière.
O chiste devolve um gozo a uma demanda insatisfeita
O riso dos adultos diante da criança que não entende por que riem: o chiste ingênuo
A Bubizin, palavra que uma menina inventa
Arnolphe, que cria Agnès na ignorância para casar com ela — e é, afinal, um verdadeiro apaixonado
A pedra atirada com um bilhete amarrado
Molière (Escola de mulheres), Freud, Bergson
78 jan. 1958
O Nome-do-Pai e a lei
Volta das férias. Lacan comenta uma exposição de Gisela Pankow e nomeia o que autoriza o texto da lei.
A comunicação de Gisela Pankow e a escola da "comunicação" (Bateson)
O que autoriza a lei é um significante: o Nome-do-Pai, o pai simbólico
O inconsciente é um espaço "tipográfico", feito de letras
O Outro como tesouro dos significantes
O desejo volta ao sujeito transformado: por isso é sempre "enganado"
"Tu és aquele que me seguirás": a invocação
Gisela Pankow, Bateson, Schreber
815 jan. 1958
A metáfora paterna
Antes da fórmula, um inventário das perguntas que os analistas fizeram ao Édipo.
"Vou tratar de questões de estrutura"
Existem neuroses sem Édipo?
Haverá, por trás do supereu paterno, um supereu materno ainda mais exigente?
A "carência paterna", tema da moda
O Édipo invertido, presente em toda parte e mal definido
Freud, Melanie Klein, Odier, o pequeno Hans
922 jan. 1958
Os três tempos do Édipo
A fórmula da metáfora posta a funcionar: o Édipo e a castração se deixam articular a partir dela.
A criança não se relaciona com a mãe: relaciona-se com o desejo da mãe
Num primeiro tempo, ela se identifica ao falo que a mãe deseja
O pai priva de algo que só existe como símbolo
O pequeno Hans como contraprova
A saída: para o menino, identificar-se ao pai que tem; para a menina, reconhecer no homem quem tem
o pequeno Hans, Jones, Freud
1029 jan. 1958
O falo e o pai que interdita
Falar da metáfora paterna é falar da castração. E o que acontece quando o pai é interditor demais?
O falo como objeto que circula por toda a cadeia de significações, como um furão
No segundo tempo, o pai aparece como interditor — mas a sua palavra chega pela boca da mãe
Alucinações que são mensagens num código novo
"É frequente que uma inversão sexual decorra da queda de um pai interditor demais"
O falo não é um "objeto parcial"
Freud, Schreber
115 fev. 1958
Alucinação e realidade
A partir de um artigo de Charles Rycroft, Lacan volta à pergunta de Winnicott: como a criança distingue a alucinação da realidade?
Os processos primário e secundário
A fome insiste, porque a satisfação imaginada não a sacia
O objeto sexual pode ser, ele mesmo, ilusório
A pergunta de Winnicott, bem posta
O objeto metonímico: o que sempre escapa
Charles Rycroft, Winnicott, Melanie Klein, Jones
1212 fev. 1958
"Bate-se numa criança" e a fase fálica
Leitura, em boa parte no original alemão, do texto de Freud sobre a fantasia de espancamento; e a abertura do dossiê da fase fálica.
Os três tempos da fantasia e a diferença entre menino e menina
Quem bate não é outra criança: é um adulto
"Assim ele desmentiu a realidade, mas salvou o próprio pênis"
A fase fálica, de Ernest Jones, no quadro
Freud (Bate-se numa criança), Ernest Jones (A fase fálica)
135 mar. 1958
O que dizem os analistas da fase fálica
Depois de três semanas de pausa, Lacan diz o que separa Freud de toda a tradição: o desejo, que antes dele sempre foi reduzido ou disciplinado.
Antes de Freud, estudava-se o desejo para discipliná-lo
Jones lido em inglês: a fase fálica não é, para ele, uma etapa natural
Um caso de Karen Horney
Hélène Deutsch; e o artigo de Joan Rivière sobre a feminilidade como mascarada
Ernest Jones, Karen Horney, Hélène Deutsch, Melanie Klein, Joan Rivière
1412 mar. 1958
O vínculo com a mãe e a bissexualidade
Freud, Sobre a sexualidade feminina, confrontado com Jones.
Jones tenta responder a Freud permanecendo perto da letra dele
Que alvos sexuais tem a menina no tempo da ligação exclusiva à mãe?
"A hipótese de uma bissexualidade inata é muito provável — mas difícil de provar"
O primeiro desejo de um pênis induzido pela frustração oral
Balanço da fase fálica — o falo não cabe numa lógica biológica porque é significante — e entrada na questão das identificações.
O falo precisa de alguma aptidão imaginária para exercer a sua função de significante
O ideal do eu nasce de uma identificação ligada ao Édipo
Hélène Deutsch e o masoquismo feminino
A paciente que, depois de um arroto, pensa satisfeita: "igualzinho ao papai"
Hélène Deutsch, Karen Horney, Abraham
1626 mar. 1958
Insígnias, castração, afânise
Uma reação do auditório obriga Lacan a esclarecer o que dissera sobre certas análises de mulheres. Depois, a castração é retomada a partir de Totem e tabu.
O avanço da análise pode ameaçar um gozo conquistado
A identificação a certas insígnias
O medo da castração e o que se teme ainda antes dela
O totem como significante que ordena tudo, inclusive o sujeito
Por que Jones foi buscar a palavra grega aphanisis, desaparecimento
Freud (Totem e tabu), Jones, Melanie Klein
1716 abr. 1958
O sintoma como máscara do desejo
Começo do terceiro trimestre. O que a descoberta do inconsciente abre — e o que ela limita no poder de curar.
Freud fala de realização de desejo no sonho
No sintoma há uma satisfação, mas às avessas
As interpretações "ao lado" de Freud com Dora
O sintoma vai no sentido do reconhecimento do desejo
O riso como primeira comunicação da criança com o que está além da presença
Haverá tantas máscaras quantas formas de insatisfação?
Dora, Freud, Hegel
1823 abr. 1958
Desejo e demanda: a divisão do eu
Leitura do último texto de Freud, deixado inacabado, sobre a divisão do eu.
Sem distinguir desejo e demanda, a análise desliza para "frustrar ou gratificar"
A divisão do eu (Ichspaltung) na última reflexão de Freud
As consequências da diferença anatômica entre os sexos (1925)
Freud (A divisão do eu no processo de defesa, 1938; Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos, 1925)
1930 abr. 1958
O sonho do salmão defumado
A distinção entre desejo e demanda demonstrada num sonho de uma paciente de Freud.
O sonho: "quero dar um jantar, mas só tenho um pouco de salmão defumado"
Ela gostaria de comer caviar todas as manhãs — e pede ao marido que não lhe dê
Freud: "para que ela precisa de um desejo não realizado?"
A amiga, magra, que adora salmão defumado: o desejo da paciente passa pelo desejo da outra
Dora, em quem isso aparece em estado puro
Freud (A interpretação dos sonhos), Dora
207 maio 1958
O sonho da bela açougueira
Outro sonho de histérica, em que o falo aparece como significante numa frase.
Se a relação entre homens e mulheres fosse simples, haveria ilhas de harmonia no mundo
O sonho: no mercado, a vendedora oferece uns legumes estranhos, escuros, amarrados
"Isso eu não conheço, isso eu não levo"
No falar vienense, dizer "o teu açougue está aberto" é avisar que a braguilha está aberta
A frase de Freud no sonho: "isso não se consegue mais"
Freud (A interpretação dos sonhos), Breuer
2114 maio 1958
O obsessivo e o objeto
Lacan escreve no quadro as palavras alemãs do desejo e passa a criticar um relatório clássico sobre a neurose obsessiva.
Bedürfnis (necessidade), Forderung (demanda), Begierde e Wunsch (desejo)
O relatório de Maurice Bouvet sobre o eu na neurose obsessiva — que, na verdade, só fala da relação de objeto
Abraham e as fantasias de devorar o pênis
O obsessivo sempre à beira de destruir o mundo
O sonho da vela quebrada no castiçal
Maurice Bouvet, Karl Abraham, Ruth Mack Brunswick, Freud
2221 maio 1958
Fantasia, façanha, acting out
O obsessivo visto pelas fantasias e pela relação com a permissão. O acting out entra com esse nome.
O obsessivo diante de um desejo que se esvai
A demanda pede sempre mais do que a satisfação
A fantasia como um cenário
O obsessivo está sempre pedindo uma permissão
Phyllis Greenacre e o acting out: um aviso, às vezes grave, dado fora da sessão
Phyllis Greenacre, Abraham
234 jun. 1958
Identificação, sugestão, transferência
Entrada pela identificação em Psicologia das massas e análise do eu — preparação do ano seguinte.
Identificar-se a alguém no lugar de amá-lo
A sugestão nós a interpretamos — porque a transferência já está lá
César e o Rubicão: Kojève e o tempo da ação
O erro de técnica que traz para o presente a transferência homossexual do obsessivo
Freud (Psicologia das massas), Kojève, Maurice Bouvet, Joan Rivière
2411 jun. 1958
O losango e a hóstia
Lacan explica o losango da fórmula da fantasia e lê o tratamento de uma obsessiva conduzido por um colega.
O losango (◊) e a relação do sujeito com o Outro
A linha do significante, fundo de toda demanda
A paciente católica e o corpo de Cristo na hóstia
O analista que "dá" o falo à paciente — e ela o devolve
Durante toda a análise, ele quis convencê-la de que ela queria ser homem; ela não se convenceu
Maurice Bouvet, Freud
2518 jun. 1958
Interpretações inexatas
No aniversário da fundação da Sociedade Francesa de Psicanálise, Lacan comenta um artigo de Edward Glover sobre o efeito das interpretações erradas.
Os efeitos terapêuticos da interpretação inexata, de Glover
Uma interpretação muito falsa não tem efeito; uma ligeiramente inexata pode atrapalhar
O desaparecimento dos sintomas não basta para avaliar uma análise
"O médico encoraja o paciente demonstrando a própria capacidade de recalque"
Edward Glover, Joan Rivière, Abraham, Jones
2625 jun. 1958
A demanda do obsessivo e o Nome-do-Pai
Penúltima lição. O desejo do obsessivo e a linha do significante no esquema recebem a sua definição.
A demanda do obsessivo é sentida pelo Outro como insistente demais
A necessidade de destruir o desejo do Outro
A linha do significante é "estruturada como uma linguagem"
O Nome-do-Pai como suporte da cadeia significante, e a fórmula da metáfora paterna
Por que, para o neurótico, "isso fala" no inconsciente, e para o psicótico, fora
Maurice Bouvet, Freud, Schreber
272 jul. 1958
Formações: formas, relações, talvez topologia
Última lição. Lacan explica o título do ano. As transcrições anexam a esta lição o texto alemão do livro de Freud sobre o chiste.
"Formações": formas, relações, talvez topologia — palavras que ele evitara usar de saída
Não se entende o inconsciente apenas por tensões que amadurecem do pré-genital ao genital
Em anexo, O chiste e sua relação com o inconsciente, no original alemão
Freud (O chiste e sua relação com o inconsciente, 1905)
Armadilhas. (a) Os três tempos do Édipo não são fases do desenvolvimento: são momentos lógicos, e podem coexistir. (b) A metáfora paterna não descreve uma família: é uma operação significante. (c) "Ser o falo" e "ter o falo" são posições, não atributos de sexo.
Antes / depois. Depois: "A significação do falo", "A direção do tratamento" e "Subversão do sujeito" — três dos textos mais importantes dos Écrits, todos derivados deste seminário.
S7L'éthique de la psychanalyseA ética da psicanálise1959–1960 · 27 lições
Ficha. 27 sessões. Expõem Lefèvre-Pontalis (2 de dezembro de 1959), Kaufmann (2 de março, 27 de abril e 15 de junho de 1960) e Hubert (9 de março de 1960). O ano tem focos nítidos: das Ding em dezembro e janeiro; Sade no fim de março; Antígona de maio a junho; Kant em 15 de junho.
A pergunta. Qual é a ética própria da psicanálise, se ela não pode ser nem a do bem, nem a do prazer, nem a da adaptação? A resposta — "não ceder de seu desejo" — só é compreensível depois de toda a construção sobre das Ding.
O argumento
Um dos seminários mais lidos do primeiro ensino — e dos mais mal citados. A fórmula que dele se guarda, a de que a única coisa de que se pode ser culpado é de ceder de seu desejo, só aparece na última lição, e só se entende depois de uma construção que ocupa o ano inteiro. Antes dela, é preciso passar por das Ding, "a Coisa".
Lacan começa criticando a ética como disciplina do bem: Aristóteles procurava a conduta conforme à razão; o século XVIII tentou libertar o desejo e fracassou; Freud, no Mal-estar na civilização, mostra que a cultura exige demais e que a culpa age sem que o sujeito saiba. Lacan vai buscar num manuscrito de Freud de 1895 uma palavra quase esquecida: das Ding, um ponto estrangeiro em torno do qual gira toda a vida psíquica. Está no centro, mas por estar excluído — Lacan cria para isso a palavra extimidade.
De janeiro a março, o ano se torna uma teoria da sublimação: elevar um objeto à dignidade da Coisa. Os exemplos são todos feitos em torno de um vazio: o vaso modelado pelo oleiro, uma coleção de caixas de fósforos, e o amor cortês dos trovadores, que torna inacessível a Dama para que ela venha ocupar o lugar vazio.
De março a maio, a virada ética. O mandamento "amarás o teu próximo como a ti mesmo" é aquilo diante do que Freud recua — e Lacan mostra por quê: no próximo há a maldade, o gozo. É por aí que Sade entra, não como curiosidade, mas como o avesso de Kant.
O último bloco é Antígona, a heroína de Sófocles que enterra o irmão contra a lei da cidade. Ela atravessa um limite, e é dessa travessia que nasce o efeito de beleza. O ano se fecha com Édipo em Colono, o rei Lear e a distinção entre o "serviço dos bens" e a dimensão trágica da vida.
O que se encontra aqui
Das Ding
A Coisa, o vazio central: 9 e 16 de dezembro de 1959, e depois o ano inteiro.
A Coisa no centro, excluída
23 de dezembro de 1959.
A caixa de fósforos
A coleção como forma simples de sublimação: 20 de janeiro de 1960.
O vaso do oleiro
Criar um objeto em torno de um vazio: 27 de janeiro de 1960.
A anamorfose
Os embaixadores, de Holbein, e a arquitetura como organização do vazio: 3 de fevereiro de 1960.
O amor cortês e a "extimidade"
Os trovadores e a Dama: 10 de fevereiro de 1960.
Arnaut Daniel
Um poema obsceno que mostra que a sublimação não precisa ser "elevada": 9 de março de 1960.
Amar o próximo
O mandamento diante do qual Freud recua, e "o gozo é um mal": 23 e 30 de março de 1960.
Sade
A fábula sadiana da destruição: 30 de março e 4 de maio de 1960.
Antígona
De 25 de maio a 8 de junho de 1960: a catarse, a Áte, a travessia do limite.
O belo e o sublime
A Crítica do juízo, de Kant, apresentada por Pierre Kaufmann: 15 de junho de 1960.
Édipo em Colono e o rei Lear
29 de junho de 1960.
"Ceder de seu desejo"
A fórmula, enunciada uma única vez, na última lição: 6 de julho de 1960.
Lição por lição 27 sessões
118 nov. 1959
Por que "ética", e não "moral"
Abertura, com hesitação declarada. Lacan explica a escolha da palavra e o que pretende pôr sob ela.
A análise explorou como nunca o "universo da falta" — e da culpa
A tentativa de libertar o desejo, no século XVIII, fracassou
O Mal-estar na civilização: a cultura pede ao homem mais do que ele pode dar
Bentham e as "ficções", que não querem dizer mentira
No horizonte, o masoquismo
Aristóteles, Bentham, Freud (O mal-estar na civilização), Jones
225 nov. 1959
Princípio do prazer, princípio de realidade
Aristóteles e o manuscrito de Freud de 1895 lidos lado a lado.
O ethos e o "discurso correto" em Aristóteles
A questão ética já supõe o discurso
Freud: "o mais desagradável são os humores (Stimmungen)"
Para Freud, adaptar-se à realidade nunca foi sinônimo de um "bem"
Aristóteles (Ética a Nicômaco), Freud (Projeto, O mal-estar)
32 dez. 1959
Lefèvre-Pontalis sobre o Projeto
Primeira exposição do ano, sobre o manuscrito de Freud de 1895, publicado junto com as cartas a Fliess.
Por que partir de um texto que ficou fora das obras completas
O aparelho de neurônios, e a crítica de que seria só fisiologia
O processo primário busca reencontrar a mesma percepção; o secundário, o mesmo pensamento
A fábula do escorpião e da rã
As inscrições em lugares diferentes, e o inconsciente
A lição decisiva do ano. O alemão tem duas palavras para "coisa", das Ding e die Sache; o francês — e o português — só uma. Lacan extrai daí um conceito.
Ding e Sache: a coisa e a coisa representada
A origem da palavra Ding: a assembleia em que se julga
Freud escreve Sachvorstellung, e não Dingvorstellung
As coisas do mundo humano são coisas de um mundo feito de palavras
O mundo exterior só é percebido sob uma forma escolhida
Freud (Projeto, A negação), Lefèvre-Pontalis
516 dez. 1959
Os mandamentos e a dor
O que a Coisa comanda. Da consciência moral inconsciente aos Dez Mandamentos.
A psicanálise não deu menos lugar à instância moral que aos instintos
Das Ding como termo estrangeiro na origem da organização psíquica
A dor como limite
O pequeno "ne" do francês, que mostra a discordância entre o que se diz e quem diz
Os Dez Mandamentos, todos negativos
Freud (A negação), Lévi-Strauss, André Breton
623 dez. 1959
O bem, o mal e a lei do capricho
Lacan explica a si mesmo "para o simplório" — e chega à formulação mais nítida do lugar da Coisa.
A Coisa está no centro por estar excluída
O bem-estar (Wohl) e o bem, em Kant
Uma lei de capricho, de oráculo, em que o sujeito não tem garantia
O "objeto mau" de Melanie Klein
A filosofia na alcova, de Sade, que começa pelo elogio da calúnia
Kant, Sade (A filosofia na alcova), Melanie Klein
713 jan. 1960
A sublimação
Depois das férias, Lacan nomeia enfim o termo que vinha evitando.
A pastoral, recurso de toda civilização contra o próprio mal-estar
Trieb, a pulsão, traduzida por "deriva", como o drive inglês
Lutero: "vocês são o dejeto que cai do ânus do diabo"
O que importa é o alvo da pulsão, e não o objeto
A sublimação se situa entre o objeto narcísico e das Ding
Lutero, Erasmo, Freud, São Paulo
820 jan. 1960
A caixa de fósforos
O exemplo mais simples e mais desconcertante da sublimação: uma coleção.
A cólera, e o pouco que a análise disse sobre ela
A Coisa como aquilo pelo que alguém pode preferir a morte
O exemplo de Kant: o homem que deve escolher entre uma noite com a dama e a forca
A coleção de caixas de fósforos: algo mais do que o seu uso
Uma satisfação que não pede nada a ninguém
Kant, Ella Sharpe, Glover, Sterba
927 jan. 1960
O vaso do oleiro
Criar é modelar um vazio. A lição parte de um caso de Karin Michaelis e chega a Heidegger.
"O espaço vazio": a mulher que cobre as paredes de casa com quadros
A Coisa está velada, e por isso é preciso contorná-la
O oleiro modela o vaso em torno de um vazio: é a forma mais antiga de criar
Um pote de mostarda é, essencialmente, um pote vazio
A criação a partir do nada
Karin Michaelis, Melanie Klein, Glover, Heidegger
103 fev. 1960
O "sim", a arquitetura e a anamorfose
Lacan adia o amor cortês e faz uma sessão de discussão: sobre Spitz, sobre o "sim" e o "não", e sobre a arquitetura.
Contra Spitz: o gesto decisivo está no "sim", não no "não"
A Coisa é feita para ser esquecida — e para retornar
O vazio da Coisa, como o vazio de um pote
Os embaixadores, de Holbein, e a mancha que só se vê de lado: a anamorfose
A arquitetura como organização em torno de um vazio
René Spitz, Holbein, Lucien Febvre, Laplanche, Smirnoff
1110 fev. 1960
O amor cortês
A lição exemplar sobre a sublimação: a poesia dos trovadores e o lugar que ela dá à Dama.
As pinturas da caverna de Altamira, a partir de Ella Sharpe
A Coisa como "extimidade": exterioridade íntima
Trovadores, trouvères, Minnesänger: os séculos XII e XIII
Guilherme de Poitiers, o primeiro dos trovadores
A Dama, aquela que domina, cercada de obstáculos para que fique inacessível
Guilherme de Poitiers, Bernart de Ventadorn, Ella Sharpe, Holbein, Paul Éluard
122 mar. 1960
Kaufmann sobre Bernfeld
Pierre Kaufmann apresenta o artigo de Siegfried Bernfeld sobre a sublimação.
A sublimação aplicada à criação social
Ihering, Vierkandt, Simmel
A distância entre sujeito e objeto
O jovem Goethe, como modelo de força criadora
Pierre Kaufmann, Siegfried Bernfeld, Simmel, Ihering, Vierkandt, Goethe
139 mar. 1960
A sublimação não é o que se pensa
A contraprova: um poema obsceno do trovador Arnaut Daniel, lido por inteiro.
A sublimação não se dá obrigatoriamente no "elevado"
O poema: Bernart que não deve "tocar a trompa"
Ele sobreviveu em vinte manuscritos, quando outros poemas do autor estão em dois ou três
A filologia de Hans Sperber sobre as palavras de sentido sexual
Arnaut Daniel, Hans Sperber, Bernart de Ventadorn, Jones, Mêncio
1416 mar. 1960
Moisés e o monoteísmo
Da crítica ao método de Sperber ao livro que Freud remoeu durante anos.
Desde Totem e tabu, Freud pensava na história de Moisés
A mensagem monoteísta e o seu valor, para Freud
O sagrado deixa marcas: basta pouco para que se erga um templo
Moisés, o egípcio, e Moisés, o midianita
A mensagem transmitida porque ficou ligada ao assassinato do grande homem
Freud (Moisés e o monoteísmo, Totem e tabu), Sperber, Akhenaton
1523 mar. 1960
Amar o próximo
O mandamento diante do qual Freud recua, no Mal-estar.
A morte de Deus Pai
O Deus de um solitário — Espinosa, Freud — nada tem a ver com o Deus dos crentes
O "louco" e o "patife" do teatro elisabetano
O gozo nos continua interditado, mesmo depois que "Deus está morto"
"O gozo é um mal", porque comporta o mal do próximo
Freud (O mal-estar na civilização), Espinosa, Kant, Sade
1630 mar. 1960
Sade e o próximo
Sade não como curiosidade pitoresca, mas como aquele que revela a Lei.
A Lei é "amarás o teu próximo como a ti mesmo"
Freud recua diante dele porque o acha desumano
"Mesmo", em latim metipse
Os abusos dos senhores contra os camponeses, narrados por Fléchier
Maurice Blanchot sobre Sade
O parentesco entre a relação sádica e as defesas do obsessivo
Sade, Maurice Blanchot, Esprit Fléchier, Freud
1727 abr. 1960
Bernfeld: energia e pulsão
Kaufmann apresenta dois artigos de Bernfeld sobre a pulsão de morte pensada com a física.
A pulsão como energia e como história
O "princípio de Nirvana"
A pulsão definida na linguagem da termodinâmica
O homem não tende à morte como acontecimento
Pierre Kaufmann, Siegfried Bernfeld, Le Chatelier, Helmholtz
184 maio 1960
A fábula de Sade
A pulsão retomada pela sua vertente histórica, e a "fábula" sadiana como exemplo.
A pulsão insiste porque algo foi memorizado
Em Sade, os crimes do homem mantêm o equilíbrio do universo
Só a destruição mereceria o nome de crime
A pulsão de morte, em Sade, é uma ideia de criação
"Desconfiem do pensamento evolucionista"
Sade, Marx, Horácio, Hegel, Bernfeld
1911 maio 1960
O bem e o serviço dos bens
A lição sobre o bem — e sobre a imprudência de prometer bens ao paciente.
Não prometer ao paciente o acesso aos bens que o tentam
A distância entre os desejos e as necessidades
São Martinho que corta o manto em dois
O tecido que mostra e esconde
O bem está em poder dispor de algo
Freud (Projeto), Bentham, Sartre, Edmond Rostand
2018 maio 1960
Atravessamos a linha?
Com os discursos de guerra fria ao fundo, Lacan aborda a beleza pelo lado da destruição.
Uma catástrofe futura não terá motivo de prazer: será feita por burocratas
O potlatch: destruir bens por prestígio
A pulsão de morte e o masoquismo primário
Antígona anunciada
Sade, Hegel, Sófocles
2125 maio 1960
Antígona: a catarse relida
Primeira das lições sobre Antígona. Antes, a história da palavra catarse.
A tragédia está na raiz da experiência analítica, mais até que o Édipo
Aristóteles: a tragédia produz, pelo temor e pela piedade, a catarse das paixões
Na Política, a catarse aparece a propósito da música
A leitura médica da catarse, de Jacob Bernays (1857)
Aristóteles (Poética, Política), Jacob Bernays, Hegel, Goethe
221 jun. 1960
Antígona e Creonte
A estrutura da peça: nem Antígona nem Creonte parecem sentir temor ou piedade.
Antígona e a irmã Ismene
As leis não escritas dos deuses
O guarda que conta como o corpo foi descoberto, e a poeira que encheu o céu
O coro e o "elogio do homem"
Sófocles (Antígona), Sade, Kant
238 jun. 1960
Para além do limite
Lacan indica os versos a ler e faz a demonstração central: Antígona atravessa uma fronteira.
"Toma coragem, vive; quanto a mim, há muito minha alma está morta e só serve aos mortos"
Ektos atas: para além da Áte, do limite
Antígona escolhe ser a guardiã do ser do irmão criminoso
As núpcias de Dioniso e Ariadne, no horizonte da cena
Sófocles (Antígona, Ájax, Electra, Filoctetes), Karl Reinhardt, Heráclito
2415 jun. 1960
Kant: o belo e o sublime
Pierre Kaufmann apresenta a Crítica do juízo a partir de Werther.
A imagem de Antígona faz parte da nossa moral, mesmo sem saber
O efeito de belo nasce da relação do herói com o limite
Werther e o sentimento da beleza
O belo e o sublime em Kant
Kant (Crítica do juízo), Goethe (Werther), Pierre Kaufmann
2522 jun. 1960
Os sapatos de Van Gogh
O analista paga com palavras, com a pessoa e com um juízo sobre a sua ação. E o que faz de um objeto uma obra.
O analista é desapossado pela transferência
O que nos pedem é a felicidade
A sublimação como satisfação da pulsão sem recalque
Um par de sapatos à porta de um hotel — e os velhos sapatos pintados por Van Gogh
Dioniso e Heráclito
Kant, Van Gogh, Heráclito
2629 jun. 1960
Édipo em Colono e o rei Lear
Penúltima lição. A questão é a relação de cada um com o próprio desejo, no curto espaço entre nascer e morrer.
O desejo tem uma relação fundamental com a morte
Édipo renuncia àquilo que o capturou: a felicidade
O rei Lear, que acha que foi feito para ser amado
Quem avança nessa zona avança sozinho e traído
As últimas palavras de Édipo: mè phunai, "melhor não ter nascido"
Sófocles (Édipo em Colono), Shakespeare (Rei Lear), Jones, Melanie Klein
276 jul. 1960
Ceder de seu desejo
Última lição. É aqui, e só aqui, que a fórmula é dita — ao fim de todo o percurso.
A ética é um juízo sobre a nossa ação
Mêncio: a bondade do homem é natural, como uma montanha coberta de árvores
O "serviço dos bens" e a dimensão trágica da vida
"A única coisa de que se pode ser culpado, ao menos na perspectiva analítica, é de ter cedido de seu desejo"
O herói é aquele que pode ser traído impunemente
O filme Nunca aos domingos, de Jules Dassin
Mêncio, Sófocles, Kant, Jules Dassin
Armadilhas. (a) "Não ceder de seu desejo" não é um imperativo de autenticidade nem uma licença: é uma proposição sobre a culpa. (b) Sublimação não é dessexualização. (c) Das Ding não é um trauma nem uma lembrança: é um lugar vazio, e é da ordem do real. (d) O seminário nunca foi publicado por Lacan em vida sob sua forma; é o primeiro que Miller estabeleceu, e a fidelidade do texto é objeto de discussão.
Antes / depois. Depois: "Kant avec Sade" (1962), escrito como prefácio recusado e publicado nos Écrits.
S10L'angoisseA angústia1962–1963 · 25 lições
Ficha. 25 sessões. Um dos seminários mais bem construídos e mais úteis na clínica. O acting out e a passagem ao ato ocupam janeiro de 1963; duas lições de fevereiro são dadas por Granoff, Perrier e Piera Aulagnier; a topologia (cross-cap, banda de Möbius) aparece em janeiro.
A pergunta. O que é a angústia, se ela não é sem objeto? Contra toda a tradição — inclusive parte da freudiana — Lacan sustenta que a angústia tem um objeto, e que esse objeto é o a.
O argumento
De todos os seminários, este é um dos mais bem construídos e dos mais úteis na clínica. A tese cabe numa linha e leva o ano inteiro para ser conquistada: a angústia não é sem objeto.
A tradição — e em parte o próprio Freud — diz que a angústia é um medo sem objeto. Lacan chama isso de "canção", parecida com a que a criança canta para se acalmar. E corrige pela negativa, de propósito: não diz que a angústia "tem" um objeto; diz que ela não é sem objeto. Esse objeto existe, mas não se alcança como os outros: não aparece no espelho, não se representa, não se nomeia. É o objeto a.
Por isso é também o seminário em que o objeto a ganha forma acabada: ele passa a ser causa do desejo, e não o seu alvo — um resto, algo que se destaca do corpo e cai. Daí a série que Lacan completa: o seio, as fezes e mais dois que ninguém havia isolado, o olhar e a voz.
O ano se organiza em torno de um quadro que distribui inibição, sintoma e angústia, e que serve para distinguir o que não deve ser confundido — sobretudo o acting out, uma cena endereçada ao Outro, e a passagem ao ato, uma saída de cena. E é cheio de clínica e de cultura: o conto O homem da areia, de Hoffmann; casos de Freud; uma longa discussão sobre a contratransferência; Don Juan; a circuncisão; o chifre de carneiro que se toca no ano-novo judaico.
A angústia, conclui Lacan, não aparece quando o objeto falta, mas quando a falta falta — quando não há mais vazio onde o desejo possa se sustentar.
O que se encontra aqui
"Que quer ele de mim?"
A pergunta diante do desejo do Outro, na abertura, 14 de novembro de 1962.
A outra cena
O inconsciente como cena, e Hamlet: 28 de novembro de 1962.
O estranho (unheimlich)
O homem da areia e o lugar onde a falta deveria estar: 5 de dezembro de 1962.
A angústia "não engana"
19 de dezembro de 1962 e 23 de janeiro de 1963.
A causa do desejo
O objeto a passa ao centro: 16 de janeiro de 1963.
Acting out e passagem ao ato
16 e 23 de janeiro de 1963.
"Quando a falta falta"
30 de janeiro de 1963.
A contratransferência
Duas lições de Granoff, Perrier e Piera Aulagnier sobre Margaret Little, Lucy Tower e outros: 20 e 27 de fevereiro de 1963.
Medo e angústia
6 e 13 de março de 1963, com Tchékhov e Zurbarán.
Don Juan
20 de março de 1963.
A circuncisão
19 de dezembro de 1962, 27 de março e 8 de maio de 1963.
O seio, o olhar, a voz
As formas do objeto a: 15, 22 de maio e 5 de junho de 1963.
O shofar
O chifre de carneiro e a voz: 22 de maio de 1963.
O objeto que se cede
26 de junho e 3 de julho de 1963.
O desejo do analista
A pergunta com que o ano termina: 3 de julho de 1963.
Lição por lição 25 sessões
114 nov. 1962
Emoção, perturbação
Abertura. Alguém lhe disse que o tema não renderia muito; Lacan promete provar o contrário — e começa por um dicionário etimológico.
A angústia é o ponto onde se encontra tudo o que veio antes no ensino
"Que quer ele de mim?": a pergunta diante do desejo do Outro
Freud, Inibição, sintoma e angústia: o título como palavra de ordem
Sobre a angústia não há uma rede: ela está no vazio entre as malhas
O embaraço, a emoção e a palavra francesa émoi (perturbação)
A cólera: "quando os pinos não entram nos buracos"
Freud (Inibição, sintoma e angústia), Aristóteles (Retórica), Sartre, Heidegger
221 nov. 1962
Desejo de desejo
O que é ensinar, e onde Lacan se separa de Hegel.
Não fazer um catálogo dos afetos
Rapaport, e a velha divisão entre as paixões em Santo Tomás
O "desejo de desejo" de Hegel: desejar que um outro me deseje
Onde Lacan se separa: no meu desejo, sou para o Outro um objeto — e isso me marca de finitude
Hegel (Fenomenologia do espírito), David Rapaport, Kierkegaard, Lévi-Strauss
328 nov. 1962
A outra cena
O inconsciente como lugar — "a outra cena", diz Freud a propósito dos sonhos.
O sujeito se constitui no lugar do Outro
A estrutura não é a cópia do cérebro (a propósito de O pensamento selvagem)
A cena e o espectador: dois lugares distintos
As datas que se repetem e marcam um dia do calendário
Hamlet, e a leitura de Otto Rank
"Avanço mascarado", diz Descartes
Freud (A interpretação dos sonhos), Lévi-Strauss, Shakespeare (Hamlet), Otto Rank, Descartes
45 dez. 1962
O estranho
A lição em que a angústia ganha um lugar: ela aparece onde algo vem ocupar o lugar da falta.
O lugar marcado pela castração, e a angústia que ali aparece
O texto de Freud sobre o "estranho" (Das Unheimliche) e a análise das palavras
Heim: a casa do homem
O homem da areia, de Hoffmann, e os olhos roubados
O perverso e o neurótico diante da fantasia
O sonho da bela açougueira, de novo
Freud (O estranho, A interpretação dos sonhos), E. T. A. Hoffmann, Breuer
512 dez. 1962
Pistas falsas
Contra a acusação de "filosofia": uma lição sobre laboratórios, animais e o que só o homem faz com os rastros.
Se a psicanálise questiona o desejo de conhecer, ela está aquém do conhecimento
As "neuroses" produzidas em animais de laboratório
Desde que há aparelhos montados, há o Outro
Por que os analistas se interessam tão pouco pelo pesadelo
Um animal apaga rastros; só o homem deixa rastros falsos para que se pense que são falsos
Pascal e o "horror ao vazio"
Pascal, Kurt Goldstein, Pavlov, Freud
619 dez. 1962
O quadro na janela
Uma lição de método — e a primeira entrada da circuncisão.
Aprender a reconhecer, no lugar certo, o que aparece na experiência
A fantasia como um quadro que se coloca no caixilho de uma janela
O sonho do Homem dos Lobos: os lobos brancos imóveis na árvore, vistos pela janela aberta
A relação, mal estabelecida, entre a circuncisão e a castração
A angústia é "o que não engana"
Freud (O Homem dos Lobos), Ferenczi
79 jan. 1963
O vaso, a luva, a banda
Um termo de Freud mal traduzido, e uma lição de topologia sobre o que o espelho não mostra.
Freud pede "representações abstratas" que ponham ordem na observação
O corpo não cabe nas categorias de Kant
O que importa num buraco é a sua borda
O espelho troca a luva direita pela esquerda
A banda de Möbius: uma superfície que só tem um lado e uma borda
Freud (Novas conferências), Möbius
816 jan. 1963
O objeto e a causa do desejo
O objeto a entra no centro do ano. E o sádico não busca a dor do outro, mas a sua angústia.
A angústia é a tradução subjetiva do objeto a
O equívoco de pensar o "objeto do desejo" como o objeto de uma intenção
No fetiche, o objeto aparece como causa do desejo
O sádico procura a angústia do outro, e não o seu sofrimento
O caso da jovem homossexual e o "deixar-se cair"
Só estamos de luto por alguém de quem podemos dizer: "eu era a sua falta"
Freud (o caso da jovem homossexual, Dora), Husserl, Sade, Kant
923 jan. 1963
Acting out e passagem ao ato
A distinção clássica, estabelecida de uma vez — com uma bofetada como exemplo.
O a como resto da relação com o Outro
A passagem ao ato: deixar-se cair, sair de cena — a jovem homossexual que se joga na linha do trem
O acting out: uma cena mostrada ao Outro, que pede leitura
O fantasma do corpo despedaçado
O caso de "plágio" de Ernst Kris e o artigo de Phyllis Greenacre
Freud, Ernst Kris, Phyllis Greenacre, Ernest Jones
1030 jan. 1963
Quando a falta falta
A tese ganha a sua forma completa — e o luto é redefinido.
"A angústia é um medo sem objeto": uma canção
A angústia nos introduz à função da falta
O catálogo que diz "faltam as gravuras de tal a tal"
O cross-cap
A privação é algo real
Margaret Little e "a resposta total do analista"
Margaret Little, Szasz, Freud (Luto e melancolia)
1120 fev. 1963
A contratransferência em exame (I)
Lição dada por Wladimir Granoff e François Perrier, a pedido de Lacan: um percurso pela literatura inglesa e americana.
Separar, nesses artigos, o que interessa ao ensino de Lacan
Margaret Little: a satisfação do analista comparada a fazer uma refeição
Lucy Tower e as viradas de dois tratamentos depois de um acting out da analista
Thomas Szasz e o poder do analista
A conclusão de Tower: o amor de contratransferência não é menos verdadeiro que outro amor
Margaret Little, Lucy Tower, Thomas Szasz, Barbara Low, Wladimir Granoff, François Perrier
1227 fev. 1963
A contratransferência em exame (II)
Piera Aulagnier apresenta o que extraiu de Margaret Little. Lacan abre falando das estações de esqui e dos campos de concentração.
A crítica de Lacan à "moralização" que, depois da guerra, encobriu a questão dos campos
A definição de contratransferência em Margaret Little
A responsabilidade do analista com certos pacientes
Szasz e Barbara Low
Margaret Little, Lucy Tower, Szasz, Barbara Low, Piera Aulagnier
136 mar. 1963
Medo e angústia
Contra o lugar-comum: a angústia é diante de alguma coisa.
"A angústia não é o que se pensa"
O apêndice de Inibição, sintoma e angústia: a angústia é vor etwas, diante de algo
Os contos de Tchékhov sobre o susto
Santa Luzia e Santa Ágata, pintadas por Zurbarán, que levam os próprios olhos e seios numa bandeja
O que se busca no Outro: uma resposta à queda do sujeito
Freud (Inibição, sintoma e angústia), Tchékhov, Zurbarán, Sade
1413 mar. 1963
Gozo e angústia
Três frases em russo trazidas pelos ouvintes, e o objeto a como metáfora do sujeito do gozo.
"O medo aumenta os objetos"; "temo que ele venha"; "temo que ele não venha"
As palavras do medo são difíceis de traduzir
O professor faz "colagens"
Sadismo e masoquismo, recapitulados
As "caducas": o que cai do corpo, como a placenta
Tchékhov, Freud, Zurbarán
1520 mar. 1963
Don Juan
O gozo, retomado da Ética, e a analista Lucy Tower lida através da figura de Don Juan.
O gozo é independente da articulação do desejo — e é nessa falha que a angústia se produz
No campo do gozo, a mulher está menos presa
Tirésias, que foi homem e mulher, e foi cegado por Juno
O livro de Otto Rank sobre Don Juan
Lucy Tower e a eficácia de manter as distâncias
Otto Rank, Lucy Tower, Sartre, T. S. Eliot, Ovídio
1627 mar. 1963
Séfora e a faca de pedra
A circuncisão como marca que ordena o lugar da castração.
O vazio do vaso e o homo faber
Uma pergunta a Conrad Stein sobre Totem e tabu e Moisés e o monoteísmo
A circuncisão egípcia
Êxodo 4: Séfora circuncida o filho e toca Moisés com o prepúcio
Bíblia (Êxodo), Freud (Moisés e o monoteísmo), Conrad Stein, Voltaire
178 maio 1963
As mil estátuas
Depois de uma pausa, uma lição sobre o Japão e sobre um objeto comovente sem relação com o sexo.
Jeremias: "castigarei todo circuncidado em seu prepúcio"
Um "pathos do corte"
As mil estátuas de Buda num templo de Kyoto
Kannon, figura budista que se torna feminina
Por que o objeto mais comovente pode aparecer sem relação com o sexo?
Bíblia (Jeremias), budismo japonês, Valéry
1815 maio 1963
O seio e a borda
Por que a lista dos objetos de Freud precisa ser completada — e uma lição de anatomia comparada.
Objeto oral, anal, fálico
O a como resto
O desejo ligado ao corte
Os lábios e a função de uma borda
O ornitorrinco e a equidna, mamíferos que põem ovos
Freud, Descartes
1922 maio 1963
O shofar
O andar da voz: o chifre de carneiro tocado no ritual judaico.
Cinco formas do objeto, e um tipo de angústia para cada uma
Theodor Reik e os rituais
O shofar: a voz destacada do corpo que a emite
Moisés, o bezerro de ouro e a crítica a Reik
A memória do sacrifício de Isaac
Theodor Reik, Bíblia (Êxodo, Gênesis 22), Lévi-Strauss
2029 maio 1963
Os impasses do desejo
Lição sobre como ensinar — e sobre o que não existe: a "fusão" dos sexos.
O avanço de uma ciência passa por remanejar os seus conceitos
A angústia de castração como passagem obrigatória do ensino
A cena primária do Homem dos Lobos
Robertson Smith e o sacrifício
A pretensa fusão genital
Freud (O Homem dos Lobos, Totem e tabu), Robertson Smith, T. S. Eliot, Joan Riviere
215 jun. 1963
A voz e o ressoador
O silêncio que se seguiu à lição anterior prova algo. Depois, por que a voz é um objeto.
Ninguém aplaudiu — e isso confirma: tocar a angústia de castração produz eco
"Criou-os homem e mulher"
O macaco de Köhler resolve problemas, desde que veja o alvo
A voz destacada do corpo, e o ouvido como ressoador
Isakower
Ernest Jones, Köhler, Yerkes, Isakower
2212 jun. 1963
O a é causa, não objeto
A lição da torneira: uma crítica de Piaget e a distinção entre causa e objeto do desejo.
A angústia está ligada ao desejo do Outro
O objeto anão é o objeto do desejo — é a sua causa
"Vou verificar se a porta está fechada, ou a torneira..."
O experimento de Piaget sobre a torneira explicado a crianças
"A profunda maldade de toda posição pedagógica"
Piaget, Binet, Kant, Freud
2319 jun. 1963
O objeto anal
Das fezes ao ateísmo: o obsessivo e o que ele exige de Deus.
Os objetos ligados a estágios, e a outra maneira de pensá-los
A ligação entre o anal e o olhar
Jones e a concepção da Virgem pelo ouvido
Voltaire, deísta, que achava Diderot louco por negar Deus
O obsessivo exige um Deus que exista para poder destituí-lo
Ernest Jones, Karl Abraham, Diderot, Voltaire, Cyril Tourneur
2426 jun. 1963
O objeto que se cede
De volta ao quadro do começo do ano, e a descoberta que o organiza: o a é aquilo que se cede.
O quadro de inibição, sintoma e angústia
Diante do trauma, o sujeito cede — e cede algo
Todos os objetos a são objetos cessíveis
O presente da criança, e o Homem dos Lobos
Freud (Inibição, sintoma e angústia, O Homem dos Lobos), Winnicott
253 jul. 1963
A angústia como sinal
Conclusão do ano.
Freud: a angústia é um sinal de perigo
O perigo está ligado à cessão do objeto
O "não sei" angustiante é desconhecimento do objeto que causa o desejo
O luto, o acting out e o amor cortês
O agalma, o objeto precioso que se procura no Outro (Platão, O banquete)
A pergunta que fica: qual deve ser o desejo do analista?
Freud, Shakespeare (Hamlet), Kierkegaard, Platão (O banquete)
Armadilhas. (a) A tese não é "a angústia tem um objeto" e sim "não é sem objeto" — a diferença é lógica e Lacan insiste nela. (b) Acting out e passagem ao ato não são sinônimos, e o quadro de dupla entrada existe justamente para distingui-los por posição. (c) Ler apenas a teoria e pular os casos empobrece este seminário.
Antes / depois. Depois: os Nomes-do-Pai (seminário interrompido, única lição em 20 de novembro de 1963) e o Seminário 11.
S11Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyseOs quatro conceitos fundamentais da psicanálise1964 · 20 lições
Ficha. 20 sessões — começa só em janeiro. Um ponto de ruptura: em novembro de 1963 Lacan foi excluído da lista de didatas da IPA e interrompeu Os Nomes-do-Pai após uma única lição; o Seminário 11 recomeça na École Normale Supérieure, diante de outro público. Por isso ele começa perguntando com que direito ensina — a pergunta é institucional antes de ser teórica.
A pergunta. Quais são os conceitos que fazem da psicanálise algo mais que uma prática? A resposta são quatro: inconsciente, repetição, transferência, pulsão.
O argumento
O seminário mais lido de Lacan — e por isso um dos mais deformados. Convém começar pelo que aconteceu antes dele. Em novembro de 1963, Lacan foi excluído da lista de analistas didatas da Associação Psicanalítica Internacional. Interrompeu o seminário Os Nomes-do-Pai depois de uma única lição e recomeçou em outro lugar, a École Normale Supérieure, diante de um público novo. Por isso o ano abre com uma pergunta que é institucional antes de ser teórica: com que direito ensino? Ele chega a falar de excomunhão, comparando-se a Espinosa.
A resposta toma a forma de quatro conceitos: inconsciente, repetição, transferência e pulsão.
O inconsciente aparece primeiro como descontinuidade: uma fenda que se abre e se fecha, um tropeço em que algo se acha e logo se perde. A repetição é pensada com duas palavras de Aristóteles: automaton, aquilo que insiste e retorna, e tyche, o encontro sempre faltoso com o real — como no sonho do pai que ouve o filho morto dizer: "Pai, não vês que estou queimando?".
No meio do ano, o desvio mais célebre: o olhar. O olhar não é o meu: está do lado das coisas, e um quadro funciona como uma armadilha para ele. Passam por ali a caveira escondida em Os embaixadores, de Holbein, os pintores gregos Zêuxis e Parrásio, e uma lata de sardinhas boiando no mar.
A transferência recebe sua fórmula — a colocação em ato da realidade do inconsciente, que é sexual — e dela sai o sujeito suposto saber. A pulsão é descrita como uma montagem que contorna o objeto. E o ano termina com as duas operações pelas quais o sujeito se constitui: alienação e separação.
O que se encontra aqui
A excomunhão
A pergunta prévia sobre a autorização de ensinar, e Espinosa: 15 de janeiro de 1964.
O inconsciente como fenda
22 e 29 de janeiro de 1964.
O estatuto ético do inconsciente
Em resposta a uma pergunta de Jacques-Alain Miller: 29 de janeiro de 1964.
Automaton e tyche
A repetição pensada com Aristóteles: 5 e 12 de fevereiro de 1964.
"Pai, não vês que estou queimando?"
O sonho e o encontro faltoso com o real: 12 de fevereiro de 1964.
O olhar
De 19 de fevereiro a 11 de março de 1964.
O sonho da borboleta
Chuang-Tsé: 19 de fevereiro de 1964.
Os embaixadores e a anamorfose
26 de fevereiro de 1964.
A lata de sardinhas
"Você vê aquela lata? Pois ela não te vê": 4 de março de 1964.
Zêuxis e Parrásio
As uvas e o véu pintado: 11 de março de 1964.
A transferência
"A colocação em ato da realidade do inconsciente": 15, 22 e 29 de abril de 1964.
A pulsão é uma montagem
6 e 13 de maio de 1964.
A lamela
O mito que Lacan inventa sobre a libido: 20 de maio de 1964.
Alienação e separação
"A bolsa ou a vida": 27 de maio e 3 de junho de 1964.
O sujeito suposto saber
De 3 a 24 de junho de 1964.
O desejo do analista
A questão final: 24 de junho de 1964.
Lição por lição 20 sessões
115 jan. 1964
Excomunhão
Primeira lição no novo lugar. Antes dos conceitos, a pergunta sobre quem fala e com que direito.
"Com que direito eu ensino?" — a pergunta imposta pelas circunstâncias
O ensino visava formar analistas
A expulsão comparada a uma "excomunhão maior"
Espinosa, excomungado pela comunidade judaica de Amsterdã em 1656
O shibboleth: a palavra que revela de que lado se está
A psicanálise como aquilo que faz o mutismo falar
Espinosa, Duhem, Meyerson, Diderot, Freud
222 jan. 1964
O inconsciente é uma fenda
Um poema de Aragon para começar, e o primeiro conceito: o inconsciente como descontinuidade.
Versos de O louco de Elsa, de Aragon
Kant e a causa: entre a causa e o efeito, sempre uma fenda
No lugar dessa fenda, algo é achado — e logo se perde
A descontinuidade é a forma como o inconsciente aparece primeiro
O inconsciente de Freud não é o da Filosofia do inconsciente, de von Hartmann
Aragon, Kant, Freud, Lévi-Strauss
329 jan. 1964
O estatuto ético do inconsciente
Resposta a uma pergunta de Jacques-Alain Miller sobre a ontologia do inconsciente.
Uma falta estrutura o sujeito e o seu desejo
O inconsciente é aquilo que passa por essa fenda
As sombras dos mortos que só falam quando bebem sangue: a comparação de Freud
O estatuto do inconsciente não é de ser, mas ético: Freud diz "seja como for, é preciso ir lá"
A dúvida em Descartes funda a certeza; em Freud, a dúvida é sinal de que ali há algo
Descartes, Freud, Heidegger, Shakespeare (Hamlet), Jacques-Alain Miller
45 fev. 1964
Repetir
A entrada da repetição, pelo texto de Freud e pela própria palavra alemã.
Freud confia no que se diz do sonho, inclusive nas dúvidas do sonhador
A carta 52 a Fliess e as camadas de inscrição
O retorno e a repetição em Recordar, repetir e elaborar (1914)
Holen, em alemão: puxar com esforço
Anúncio de duas palavras da Física de Aristóteles: automaton e tyche
Freud (Recordar, repetir e elaborar, carta 52, Além do princípio do prazer), Aristóteles
512 fev. 1964
"Pai, não vês que estou queimando?"
A lição central sobre a repetição. O real como encontro que sempre falha.
Nada na psicanálise autoriza a dizer que "a vida é um sonho"
Como o sonho, que realiza desejos, pode reproduzir o trauma?
O barulho que nos acorda, e que o sonho incorpora antes do despertar
O sonho contado por Freud: o pai que dorme, o filho morto no quarto ao lado, a vela que caiu — e a frase "Pai, não vês que estou queimando?"
A tyche: o encontro faltoso com o real; acorda-se para continuar a dormir
Freud (A interpretação dos sonhos), Aristóteles, Epicuro, Kierkegaard
619 fev. 1964
O olho e o olhar
A repetição leva ao campo do visível. Primeira das lições sobre o olhar.
O sujeito dividido entre o que vive e a consciência que tem disso
O visível e o invisível, de Merleau-Ponty, publicado naquela semana
O mimetismo: as manchas em forma de olho nas asas das borboletas
O mundo nos olha antes que o vejamos
Chuang-Tsé sonha que é borboleta; acordado, pergunta-se se não é a borboleta que sonha ser Chuang-Tsé
Merleau-Ponty, Roger Caillois, Chuang-Tsé, Freud
726 fev. 1964
A anamorfose
A perspectiva como armadilha, e a caveira de Holbein.
"Sou como os espelhos, que refletem e não veem" (Aragon)
O olhar em Sartre, em O ser e o nada
A perspectiva geométrica nasce na mesma época que o sujeito de Descartes
A anamorfose: uma imagem que só se reconhece vista de lado
Os embaixadores, de Holbein: objetos de ciência e de arte — e, embaixo, uma mancha que, vista de viés, é uma caveira
Identificação, idealização, projeção, introjeção — e "Booz endormi".
Termos que fazem sentido, e por isso são difíceis de usar bem
O poema "Booz endormi", de Victor Hugo
A interpretação visa um núcleo de não-sentido
Alcibíades pede a Sócrates o agalma, sem saber o que é
"A voz da razão é baixa, mas diz sempre a mesma coisa" (Freud)
Victor Hugo, Platão (Banquete), Freud, Theodor Reik
2024 jun. 1964
O desejo do analista
Última lição.
O ano nasceu de um desencontro (dustuchia)
Foi preciso suspender Os Nomes-do-Pai
Que tipo de verdade a prática analítica engendra?
Lucien Febvre e a incredulidade no século XVI
A "liquidação da transferência": uma expressão que se usa sem saber o que quer dizer
A questão final: o desejo do analista
Freud, Lucien Febvre, Bergler, Espinosa
Armadilhas. (a) Os "quatro conceitos" não são os quatro pilares eternos: são os quatro que Lacan escolheu naquele momento, e o seminário diz por quê. (b) O olhar não é o meu olhar: está do lado do objeto — é a inversão mais difícil do seminário. (c) Alienação e separação não são etapas biográficas: são operações lógicas.
Antes / depois. É o seminário mais lido — e por isso o mais marcado pela divisão em capítulos da edição publicada. Ler pelas datas corrige muito. Depois: "Position de l'inconscient" (1964), redigido em paralelo.
S16D'un Autre à l'autreDe um Outro ao outro1968–1969 · 25 lições
Ficha. 25 sessões. O seminário do mais-de-gozar, que aparece desde a primeira lição (13 de novembro de 1968). É também aqui que surge pela primeira vez a fórmula “não há relação sexual” (12 de março de 1969). Hegel é o interlocutor filosófico do ano.
A pergunta. Como se passa do grande Outro ao pequeno outro — isto é, como o objeto a se produz a partir do campo do Outro? O título é o programa.
O argumento
Um seminário de passagem: sem ele, os quatro discursos do ano seguinte parecem surgir do nada. O título é o programa — de um Outro ao outro: como, a partir do campo do Outro, se produz o objeto a?
A resposta passa por um caminho inesperado. Na primeira lição, em 13 de novembro de 1968, Lacan recorre a Marx. O que Marx descobre não é o trabalho, que é tão velho quanto o mundo: é que existe um mercado do trabalho, e que, por o trabalho ser comprado, aparece um excedente não pago — a mais-valia. Por uma analogia que Lacan diz ser de estrutura, ele forma o conceito de mais-de-gozar: também a renúncia ao gozo é antiga, mas o que se perde ali produz um excedente, que pode ser captado.
O centro do ano é um longo comentário da aposta de Pascal — a ideia de que vale a pena apostar a vida finita contra uma infinidade de vidas. Lacan a lê não como teologia, mas como um cálculo sobre o gozo; e mostra que a verdadeira pergunta não é "Deus existe?", mas "o 'eu' existe?".
Daí a tese de que o Outro é inconsistente: incompleto, sem garantia — o que Lacan sustenta com a lógica matemática (Gödel, a teoria dos conjuntos). E é neste seminário, em 12 de março de 1969, que aparece pela primeira vez a fórmula "não há relação sexual".
O último terço do ano é clínico e político: a perversão, a fobia do pequeno Hans, a histérica e o obsessivo — e, na última sessão, a leitura em voz alta da carta que retira a Lacan a sala da École Normale Supérieure.
O que se encontra aqui
O mais-de-gozar
Construído a partir da mais-valia de Marx, na primeira lição, 13 de novembro de 1968, e retomado o ano todo.
O mercado do trabalho
13 e 20 de novembro, 4 de dezembro de 1968.
O Outro sem garantia
"O Outro não encerra nenhum universo do discurso": 4 de dezembro de 1968; Gödel, em 11 de dezembro.
A aposta de Pascal
De 8 de janeiro a 12 de fevereiro de 1969.
O traço unário e a série de Fibonacci
"O mais difícil de pensar é o 1": 22 e 29 de janeiro de 1969.
"Não há relação sexual"
Primeira formulação, em 12 de março de 1969.
Sublimação e perversão
"Na perversão, é o sujeito que se encarrega de suprir a falha do Outro": 26 de março e 23 de abril de 1969.
Saber e poder
7 de maio de 1969.
"O significante nasce de seus traços apagados"
E a girafa amassada do pequeno Hans: 14 de maio de 1969.
O obsessivo e o tonel das Danaides
21 de maio e 18 de junho de 1969.
"Não há Outro do Outro"
E a aposta como jogo de um só jogador: 11 de junho de 1969.
A histérica e "A mulher"
Dora, em 18 de junho de 1969.
A carta da École Normale
Lida em voz alta na última lição, 25 de junho de 1969.
Lição por lição 25 sessões
113 nov. 1968
O mais-de-gozar
Primeira lição. Marx entra no seminário, e com ele o conceito do ano.
"A essência da teoria psicanalítica é um discurso sem palavras"
O "estruturalismo", palavra da moda, e o trocadilho com poubelle (lata de lixo) e publication
O pote de mostarda: vale por estar vazio — e por ter "mostarda" escrito em cima
Marx: o novo não é o trabalho, é que ele seja comprado — daí a mais-valia
Do mesmo modo, a renúncia ao gozo é antiga; o novo é a função do mais-de-gozar, que pode ser captado por alguns
Marx (O capital), Althusser, Pascal, Kant, Sade, Beckett
220 nov. 1968
Mais-valia e mais-de-gozar
A analogia entre os dois termos, explicitada.
Mehrwert (mais-valia), escrita no quadro para que não se ouça "mère verte"
O mais-de-gozar como a mais-valia "aplicada pelo avesso"
Um discurso que vale é como um golpe de tesoura no real
A física e o físico que tem um discurso correto
No trabalho pago pelo preço justo, há sempre valor não pago
Marx, Althusser
327 nov. 1968
O par ordenado
O gozo e a lógica dos conjuntos — e a piada do famillionnaire posta de novo para trabalhar.
Ligar o saber ao gozo
O mais-de-gozar nasceu de uma analogia com a mais-valia
A piada de Heine: "ele me tratou de modo famillionnaire"
"A classe dos conjuntos que contêm a si mesmos": o paradoxo de Russell
O par ordenado e a relação do sujeito com o Outro
Freud (O chiste), Heine, Russell
44 dez. 1968
O Outro não fecha nada
Do par ordenado a uma tese: o Outro não fecha nenhum universo do discurso.
"O Outro não encerra nenhum universo do discurso"
O capital: a produção da mais-valia absoluta
O artesão com a sua plaina, e o operário diante da máquina
O sofrimento não basta para fazer um sujeito
A carta de um ouvinte sobre o par ordenado
Marx, Bíblia (Sinai), François Wahl
511 dez. 1968
Gödel e os Dez Mandamentos
A inconsistência do Outro demonstrada — e os mandamentos lidos como leis da fala.
A proibição de pronunciar o nome de Deus
A sarça ardente
Os Dez Mandamentos como as leis do "eu falo"
Gödel: não se pode reunir tudo num só sistema consistente
"O que você deseja?"
O oleiro, de novo: criar um objeto em torno de um vazio
Gödel, Bíblia (Êxodo), Hegel
68 jan. 1969
A lógica
Votos de ano novo — "69 é um bom número!" — e preparação da aposta.
Um artigo sobre "o estilo de Jacques Lacan": "meu estilo é um problema!"
Devolver aos termos de Freud a sua função
A lógica moderna, renovada pela matemática
Quine, von Neumann
A pergunta que vai ser jogada: não "Deus existe?", mas "o 'eu' existe?"
Gödel, Quine, von Neumann, Georges Brunet, Pascal
715 jan. 1969
A aposta de Pascal (I)
O gozo, o ócio, e a aposta.
Um argumento que espanta por parecer insustentável vindo de alguém tão rigoroso
Renunciar aos prazeres
O ócio (otium) — não os nossos "lazeres", que são forçados
O gozo não se confunde com o prazer
A "regra das partidas" de Pascal, importante para a matemática das probabilidades
Pascal (Pensamentos), Georges Brunet, Hegel, Horácio, Terêncio
822 jan. 1969
A aposta de Pascal (II): o traço unário
"O mais difícil de pensar é o 1." E a série que escreve o objeto a.
O traço unário (einziger Zug)
O jansenismo, contexto de Pascal
"Cara ou coroa" — no tempo de Pascal, "cruz ou coroa"
Uma atividade fundada na aceitação da perda
A série de Fibonacci: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13…
Pascal, Jansênio, Fibonacci, Freud
929 jan. 1969
A aposta de Pascal (III)
O ponto de partida da série é arbitrário, como o signo em Saussure.
O 1 como pura marca, um traço
A série de Fibonacci e o objeto a como limite
A aposta escrita numa tabela, como na teoria dos jogos
Vale a pena apostar para ganhar uma segunda vida? Três?
Pascal, Fibonacci, Saussure
105 fev. 1969
Repetir para reencontrar
O 1, uma vez repetido, prolifera.
A repetição busca reencontrar um gozo que já escapou
O primeiro 1 já altera aquilo que marca
A aposta confunde-se com a existência do parceiro
Bergler e o supereu
Pascal, Edmund Bergler, Freud, Kant
1112 fev. 1969
Limites
A aposta levada ao extremo, num momento de agitação política.
"Estou aqui para fazer o meu número ou para ocupar a sala?"
A verdade do capitalismo, segundo Marx, é o proletariado
Maud Mannoni e a debilidade mental
O genocídio
O mito da ilha deserta
Pascal, Marx, Lênin, Maud Mannoni, Defoe, Diderot
1226 fev. 1969
Saber e verdade
O título só se esclarece no fim — e Foucault, dias antes, falara sobre o autor.
A conferência de Michel Foucault "O que é um autor?"
O sonho diz algo sem saber o que diz
O Projeto de 1895, mais rico do que Freud supunha
O saber perdido está na origem do desejo
Michel Foucault, Freud, Krivine, Bentham
135 mar. 1969
O engano da consciência
Uma fórmula sobre a verdade e o saber, e uma crítica do "naturalismo" na psicanálise.
No inconsciente, enuncia-se uma verdade da qual nada podemos saber
As pulsões como montagens
"O engano da consciência é servir àquilo que ela não pensa servir"
O ser humano nasce num banho de significantes
Schopenhauer, Frege, Simmel, Platão, Freud
1412 mar. 1969
"Não há relação sexual"
A fórmula aparece pela primeira vez, no meio de uma lição sobre a sublimação.
Gilles Deleuze vai publicar dois livros importantes
A sublimação: a pulsão "inibida quanto ao alvo"
No centro, uma zona proibida porque o prazer seria intenso demais: o campo do gozo
Quem é o "próximo" do mandamento?
A pulsão tem uma estrutura de borda
"Não há relação sexual"
Gilles Deleuze, Freud
1519 mar. 1969
Deleuze, por Jacques Nassif
Lacan, gripado, cede a palavra: Jacques Nassif apresenta a Lógica do sentido, de Deleuze.
"O capitalismo serve para alguma coisa"
Designação, manifestação, significação
O paradoxo de Lewis Carroll e a diferença entre linguagem e metalinguagem
Gilles Deleuze (Lógica do sentido), Jacques Nassif, Lewis Carroll, os estoicos
1626 mar. 1969
A voz, o olhar e a perversão
Verdades primeiras sobre a perversão.
O objeto a pode equivaler ao gozo por uma estrutura topológica
Krafft-Ebing e Havelock Ellis
O exibicionista que se mostra até diante de um sacrário
O voyeur, em Sartre
O sádico é o instrumento de um "suplemento dado ao Outro", que o Outro não quer
Volta das férias. A norma, Hegel, e uma resposta a quem falou em "terrorismo".
Na perversão, é o sujeito que se encarrega de suprir a falha do Outro
O que quer dizer "liberdade de pensamento"
A norma, de Platão a Thomas More
Hegel e a consciência de si
"No fim, o analista vira o olhar e a voz do paciente"
Hegel, Platão, Thomas More, Peano, Grunberger, Chasseguet-Smirgel
1830 abr. 1969
A câmara escura
Idealismo e realismo, e o bispo Berkeley.
A disputa entre idealismo e realismo foi abandonada por cansaço, não resolvida
Berkeley: só sabemos o que está na nossa cabeça
A câmara escura: a imagem que se forma do outro lado do buraco
Para o perverso, é preciso uma mulher não castrada — uma "hommelle"
Berkeley, Einstein, Max Born
197 maio 1969
Saber e poder
Os armazéns e os impérios, e uma fobia de galinhas.
"A angústia não é sem objeto": o "não sem" supõe a falta
Os emporia (entrepostos) e os impérios: a mesma coisa
A separação entre saber e poder
Um caso de fobia de galinhas
Freud (O pequeno Hans), Alain, Hélène Deutsch, Konrad Lorenz
2014 maio 1969
Os traços apagados
Como nasce um significante — e a girafa do pequeno Hans.
Os objetos a: do seio ao excremento, da voz ao olhar
O rastro: a marca de uma mão, de um pé
"O significante nasce de seus traços apagados"
A grande girafa de Hans é a mãe "falicizada"; a pequena, que ele amassa e sobre a qual se senta, é uma escrita num papel
O "tigre de papel"
Freud (O pequeno Hans), Mao Tsé-tung, Prévert
2121 maio 1969
Lugar nenhum
O sistema "de lugar nenhum", e como o gozo excluído se torna o real.
A "nulibiedade" do bispo Wilkins: estar em lugar nenhum
O gozo é excluído do saber, e por isso se afirma como real
Não se pode escrever um número maior que todos
O significante fálico
O obsessivo e o "tonel das Danaides": o gozo só se autoriza por um pagamento sempre renovado
John Wilkins, Freud
224 jun. 1969
O bode expiatório
De volta ao ato psicanalítico, interrompido no ano anterior pelos acontecimentos de maio de 1968.
"Digo as coisas mais interessantes nas últimas sessões — é o meu estilo"
O ato psicanalítico como incitação ao saber
O sujeito suposto saber não existe
Frazer e o bode expiatório
A comunidade dos psicanalistas como "associação para a proteção dos bodes expiatórios"
Frazer, Freud
2311 jun. 1969
O conjunto vazio
O senhor, o escravo e o "dobro ou nada".
O 1 e a identidade numérica
O conjunto vazio
A aposta de Pascal como "dobro ou nada" jogado por um só jogador: não há Outro do Outro
A luta de morte entre senhor e escravo em Hegel
Pascal, Hegel, Fibonacci, Caim e Abel
2418 jun. 1969
O que a histérica supõe
Última lição teórica: o senhor, a histérica, o obsessivo.
Um uso "diagonal" de Saussure
O risco de vida é o essencial do ato do senhor
A obediência "como um cadáver", de Santo Inácio
A histérica — lembrem-se de Dora — é capturada por "A mulher", que ela supõe saber o que o homem precisa para gozar
O obsessivo só retém do senhor uma coisa: que o seu desejo é impossível
Freud (Dora), Hegel, Saussure, Santo Inácio
2525 jun. 1969
A carta
Fim do ano e do lugar. A carta que retira a sala é lida em voz alta.
"Somos estilhaçados na fantasia"
O saber serve ao senhor — e nasce do escravo
No Édipo, foi a histérica que respondeu à Esfinge
Hegel errou: o que está em jogo não é a vida do senhor, é a do escravo
"Ser estudante é uma posição servil"
A carta: "a École Normale pôs uma sala à sua disposição por mais de cinco anos…"
Hegel, Sófocles, Mao Tsé-tung
Armadilhas. (a) O mais-de-gozar não é uma metáfora econômica: a analogia com a mais-valia é estrutural e Lacan a sustenta. (b) A aposta de Pascal não é discutida como problema de teologia: é um aparelho de cálculo sobre o gozo. (c) É o seminário-charneira: sem ele, o Seminário 17 parece surgir do nada.
S17L'envers de la psychanalyseO avesso da psicanálise1969–1970 · 13 lições
Ficha. Apenas 13 sessões nas transcrições, com grandes intervalos (nada entre 26 de novembro e 17 de dezembro; nada entre 21 de janeiro e 11 de fevereiro). Primeiro ano na Faculdade de Direito do Panthéon, depois de maio de 68. O seminário dos quatro discursos, construídos de dezembro a março; Dora ocupa a lição de 18 de fevereiro de 1970.
A pergunta. Qual é o avesso da psicanálise? Resposta: o discurso do mestre. E a única maneira de mostrá-lo é construir a máquina dos quatro laços sociais.
O argumento
O primeiro ano depois de maio de 1968, num terceiro endereço: uma sala emprestada pela Faculdade de Direito, no Panthéon. São só treze sessões nas transcrições, com longos intervalos.
O título é uma provocação que traz a resposta: o avesso da psicanálise é o discurso do mestre. E a única maneira de mostrá-lo é construir a máquina inteira — os quatro discursos.
A máquina é simples, e por isso funciona. Há quatro lugares fixos — o agente, o outro, a verdade e a produção — e quatro termos que circulam por eles: o significante-mestre (S1), o saber (S2), o sujeito dividido ($) e o objeto a. Um quarto de volta faz passar de um discurso ao seguinte, e assim se obtêm o discurso do mestre, o da universidade, o da histérica e o do analista. Não são tipos de pessoa: são laços sociais, e podem mudar dentro de uma mesma conversa.
O que essa máquina torna legível é, primeiro, que a verdade só se diz pela metade — como a Esfinge, que aparece pela metade e desaparece quando o enigma é resolvido. E que, em cada volta, algo se produz e se perde: o mais-de-gozar, herdado do ano anterior.
O ano tem um centro clínico — uma nova leitura de Dora — e um centro polêmico: o mito do assassinato do pai da horda, em Totem e tabu, que Lacan lê como mito e não como origem. Há ainda as "profissões impossíveis" de Freud — governar, educar, analisar — e os pequenos objetos que a ciência espalha por todas as vitrines. O ano termina falando de vergonha.
O que se encontra aqui
Os quatro discursos
Construídos de dezembro de 1969 a março de 1970.
O meio-dizer da verdade
A verdade só se diz pela metade, como o enigma da Esfinge: 17 de dezembro de 1969.
"O que exige a repetição é o gozo"
14 de janeiro de 1970.
Wittgenstein
O Tractatus lido criticamente: 21 de janeiro de 1970.
O mestre e o rico
O Satyricon, de Petrônio: 11 de fevereiro de 1970.
O avesso da psicanálise
É o discurso do mestre: 18 de fevereiro de 1970.
Dora e o pai idealizado
18 de fevereiro de 1970.
Os quatro lugares
Agente, outro, verdade, produção: 11 de março de 1970.
Totem e tabu como mito
11 e 18 de março de 1970.
"Só conheço uma origem da fraternidade: a segregação"
11 de março de 1970.
O discurso do capitalista
Apenas mencionado, em 11 de março e 9 de abril de 1970; a escrita virá depois.
Radiofonia
As respostas às perguntas de Robert Georgin: 9 de abril de 1970.
André Caquot sobre Moisés
Um hebraísta convidado expõe o livro de Sellin e o profeta Oseias: 15 de abril de 1970.
As lathouses
Os objetos fabricados pela ciência para causar o desejo: 20 de maio de 1970.
As profissões impossíveis
Governar, educar, analisar: 10 de junho de 1970.
A vergonha
"Morrer de vergonha é um efeito raramente obtido": 17 de junho de 1970.
Lição por lição 13 sessões
126 nov. 1969
Uma terceira mudança
Primeira lição no Panthéon: o lugar, os agradecimentos, e a promessa dos quatro discursos.
A sala emprestada pela Faculdade de Direito
A terceira mudança: o hospital Sainte-Anne, a rue d'Ulm, agora o Panthéon
O saber, chamado no ano anterior de "gozo do Outro"
O mais-de-gozar
O que vai se destacar entre os quatro: o discurso do mestre
Hegel, Marx, Kant
217 dez. 1969
O enigma e a citação
As quatro fórmulas no quadro — e o que a verdade tem de "meio-dizer".
O significante representa o sujeito para outro significante
O discurso do mestre
O discurso do analista não é o discurso de quem está em análise
A verdade, quando sai do poço, sai sempre pela metade
A Esfinge (a Quimera) e o discurso da histérica
"O enigma é um meio-dizer"
Citar Marx: cita-se conforme o lugar que se ocupa num discurso
Sófocles (a Esfinge), Marx, Hegel, Freud
314 jan. 1970
A repetição e o gozo
O que domina em cada discurso, e por que é o gozo que exige a repetição.
Os quatro discursos nascem da permutação dos mesmos termos
O objeto a no lugar de onde o discurso é comandado
"O que exige a repetição é o gozo"
O traço unário, a marca mais simples, origem do significante
O analista ocupa esse lugar justamente por não estar ali por si mesmo
Freud (Além do princípio do prazer), Kierkegaard, Laplanche e Leclaire
421 jan. 1970
Wittgenstein e a metade de sujeito
Uma leitura crítica do Tractatus, e uma nota sobre Freud.
"O que ensino poderia se chamar História de uma metade de sujeito"
Wittgenstein: só há verdade numa proposição — e isso anula o sentido
Politzer e a "psicologia concreta"
O sujeito dividido pelo gozo
Sade, "o mais inteligente dos materialistas"
A suposta relação de Freud com a cunhada, Minna Bernays: "e daí?"
Wittgenstein (Tractatus), Politzer, Sade, Freud
511 fev. 1970
O mestre e o rico
Uma regra de leitura: um discurso se classifica pelo que ele quer dominar.
O discurso do analista deve estar no oposto de toda vontade de domínio
Saint-Just: a felicidade virou um fator da política
Marx e a mais-valia: espoliar o gozo
O Satyricon: o rico compra tudo sem pagar, porque resgatou a si mesmo
Petrônio (Satyricon), Marx, Saint-Just, Adam Smith, Hegel
618 fev. 1970
Dora e o pai idealizado
A releitura clínica do ano.
"O avesso da psicanálise é o discurso do mestre"
Ele "fecha tudo, até o que se pensa ser revolução" — a revolução como volta que se fecha
O pai idealizado
Dora e o sonho da caixa de joias: o que ela goza não é a joia, é a caixa
O assassinato do pai da horda: e se isso fosse uma defesa?
Freud (Dora, Totem e tabu), Marx
711 mar. 1970
Os quatro lugares
A máquina ganha forma, e a primeira crítica frontal ao mito de Freud.
O lugar da verdade e o lugar do comando
A verdade só se diz pela metade
"Sou um a de analista, a pedra rejeitada"
Totem e tabu: uma "história para dormir em pé" — e com um resultado exatamente contrário
"Só conheço uma origem da fraternidade: a segregação"
O discurso do capitalista e a sua ligação com a ciência
Freud (Totem e tabu, Moisés e o monoteísmo), Sófocles, Lévi-Strauss, Kroeber
818 mar. 1970
O pai não sabe nada da verdade
Resposta a um artigo de Marie-Claire Boons sobre o assassinato do pai em Freud.
O artigo de Marie-Claire Boons e o de Conrad Stein
"No mito de Édipo está a chave do gozo"
A castração como princípio do significante-mestre
Quem é, de fato, o pai?
Para a criança, o pai é aquele que nada sabe da verdade
Marie-Claire Boons, Conrad Stein, Freud, Sófocles
99 abr. 1970
Radiofonia
Respostas a perguntas de Robert Georgin, depois publicadas como "Radiofonia": Saussure, Jakobson, Newton.
O livro de Sellin, mandado buscar em Copenhague
Freud antecipou Saussure e o Círculo de Praga
Jakobson e a poesia
A "segunda revolução copernicana"
A lei da queda dos corpos, de Newton, como exemplo de estrutura
Saussure, Jakobson, o Círculo de Praga, Newton, Robert Georgin
1015 abr. 1970
André Caquot sobre Moisés
Uma lição incomum: duas horas de comentário bíblico por um hebraísta convidado.
O livro de Ernst Sellin, em que Freud apoiou a tese de que Moisés foi assassinado
O profeta Oseias
A idolatria, o deus Baal
A religião profética e o lugar de Israel
André Caquot, Ernst Sellin, Bíblia (Oseias, Números 25), Freud (Moisés e o monoteísmo)
1120 maio 1970
As lathouses
Os objetos fabricados pela ciência, e o mundo em que eles vivem.
A ciência produz coisas que não existiam antes
"Lathouses": os pequenos objetos que se encontram na rua, em todas as vitrines, feitos para causar o desejo
A "aletosfera": a esfera das coisas produzidas pela ciência
Diante desses objetos, "somos todos irmãos"
Descartes, Leibniz, Euclides, Arquimedes
1210 jun. 1970
Governar, educar, analisar
Penúltima lição: as profissões impossíveis.
Para Freud, três profissões são impossíveis: governar, educar, analisar
O discurso universitário como quarto de volta do discurso do mestre
A "astúcia da razão", em Hegel
O que faz agir o agente?
Hegel, Freud, Marx
1317 jun. 1970
Morrer de vergonha
Última lição.
"Morrer de vergonha é um efeito raramente obtido"
E é, no entanto, o único sinal que garante a genealogia
Vincennes: "eu não fiquei muito contente com Vincennes"
O Criticón, de Gracián
A produção da vergonha — e o seu avesso, a impudência
Balzac, Baltasar Gracián, Diderot, Hegel
Armadilhas. (a) Os discursos não são tipos de pessoa: são laços, e trocam-se dentro da mesma conversa. (b) O discurso da histérica não é o "discurso das histéricas": é o que faz o saber avançar. (c) O discurso capitalista aqui só é mencionado — a sua escrita aparece depois, sobretudo na conferência de Milão (12 de maio de 1972). (d) A releitura de Totem e tabu é uma crítica ao Édipo, não sua celebração.
S20EncoreMais, ainda1972–1973 · 13 lições
Ficha.13 sessões. A de 12 de dezembro de 1972 é de François Recanati, e a de 10 de abril de 1973 inclui uma exposição de Jean-Claude Milner. Jakobson está presente na lição de 19 de dezembro de 1972. O nó borromeano, apresentado no seminário anterior, volta em 8 e 15 de maio de 1973; lalíngua atravessa o ano e domina a última lição.
A pergunta. O que é o gozo feminino, e por que ele obriga a refazer a lógica? Mas o seminário faz muito mais: é onde a topologia dos nós entra e onde lalíngua é forjada.
O argumento
O seminário mais lido do último Lacan — e um dos mais mal lidos. O título, Encore, quer dizer "ainda", "mais", "de novo", e soa também como en corps, "em corpo". Lacan o chama de "o nome próprio daquela falha de onde, no Outro, parte a demanda de amor".
Três coisas fazem a importância deste ano. A primeira são as fórmulas da sexuação: um quadro com dois lados, em que se escreve o modo como cada um se situa diante do falo. Do lado masculino, todos estão submetidos a ele, porque há ao menos um que faz exceção; do lado feminino, não há exceção — e por isso a mulher é não-toda submetida ao falo. Daí a frase célebre: "A mulher não existe". É uma afirmação sobre o artigo definido — não há A mulher como universal —, e não sobre as mulheres. E daí também um gozo suplementar, do qual Lacan diz, a propósito da Santa Teresa de Bernini e das místicas: elas o sentem, mas nada sabem dele.
A segunda é lalíngua (lalangue, numa só palavra): a língua tal como se fala e se ouve, com seus equívocos, antes de qualquer gramática — aquilo de que a linguagem tenta dar conta. Por isso Lacan diz que o que faz não é linguística, mas "linguisteria".
A terceira é o nó borromeano, que Lacan havia apresentado no seminário do ano anterior e retoma aqui, em maio de 1973: três anéis presos de tal modo que, cortando um qualquer, os outros dois se soltam. A partir daí, ele ocupará os anos seguintes.
Há ainda duas sessões dadas por convidados — o filósofo François Recanati e o linguista Jean-Claude Milner —, uma homenagem a Jakobson, Aristóteles, Kierkegaard e o barroco.
O que se encontra aqui
Encore
O nome da falha de onde parte a demanda de amor: 21 de novembro de 1972.
A compacidade
O gozo pensado com a topologia: 21 de novembro de 1972.
Recanati
Uma sessão sobre a predicação e a Lógica de Port-Royal: 12 de dezembro de 1972.
Jakobson e a "linguisteria"
19 de dezembro de 1972.
Ler uma letra
"Não há realidade pré-discursiva": 9 de janeiro de 1973.
A outra satisfação
A satisfação da palavra: 13 e 20 de fevereiro de 1973.
As fórmulas da sexuação e o não-todo
13 e 20 de fevereiro, 13 e 20 de março de 1973.
"A mulher não existe"
20 de fevereiro e 13 de março de 1973.
As místicas
Santa Teresa, de Bernini, e Hadewijch de Antuérpia: 20 de fevereiro de 1973.
Não há amor sem ódio
Empédocles: 13 de março de 1973.
Milner e Kierkegaard
10 de abril de 1973.
O cristianismo e o barroco
8 de maio de 1973.
O nó borromeano
Retomado em 8 e 15 de maio de 1973 — Lacan lembra que o apresentara no ano anterior.
"Não há metalinguagem"
15 de maio de 1973.
Lalíngua
Sobretudo na última lição, 26 de junho de 1973: 23 das 24 ocorrências na fala de Lacan (a outra é de 10 de abril; as demais que as transcrições trazem estão em notas do transcritor, entre colchetes).
O rato no labirinto
26 de junho de 1973.
Lição por lição 13 sessões
121 nov. 1972
O gozo e a compacidade
Abertura. Encore como nome de uma falha — e a topologia.
"Por muito tempo, meu caminho foi algo como 'não quero saber disso'"
"Sempre me espanto: encore!" — ainda, de novo
Encore é "o nome próprio daquela falha de onde, no Outro, parte a demanda de amor"
O periquito apaixonado pelo que há de essencial num homem: as suas roupas
O espaço do gozo pensado como espaço fechado, "compacto"
Lalíngua, primeira menção
Bentham, Zenão (Aquiles e a tartaruga), Parmênides, Picasso
212 dez. 1972
François Recanati: a predicação
Uma sessão inteira dada pelo filósofo François Recanati.
O ser e o predicado
A Lógica de Port-Royal e a teoria da substância
O número ordinal como "nome de nome"
"A palavra está na posição de intérprete"
François Recanati, Lógica de Port-Royal, Peirce, Aristóteles, Platão
319 dez. 1972
Linguisteria
Homenagem a Jakobson, presente na sala — e lalíngua como objeto.
"É difícil não falar bobagem sobre a linguagem — mas você, Jakobson, consegue"
Depois da descoberta do inconsciente, não se entra na linguística da mesma maneira
"Faço linguisteria", e o seu objeto é lalíngua
"Alimentar-se faz parte da besteira"
Roman Jakobson, Saussure, Lógica de Port-Royal, Descartes, Kojève
49 jan. 1973
Ler uma letra
Votos de ano novo — e uma lição sobre a escrita.
"Ler uma letra" e "ler" não são a mesma coisa
A besteira, que não vai longe
"Não há nenhuma realidade pré-discursiva"
"Não digo que leiam Philippe Sollers, que é ilegível como eu — mas leiam Joyce"
O sujeito do inconsciente sabe ler, e pode aprender a ler
Joyce, Saussure, Philippe Sollers
516 jan. 1973
O amor visa o sujeito
Sobre o eterno, a revolução copernicana e o que se visa no amor.
A "revolução copernicana" não foi bem uma revolução
O discurso da histérica, girado um quarto de volta, dá o discurso analítico
O ser só se apresenta como "par-ser" (par-être)
Onde há fumaça, há um fumante
O que se visa no amor é o sujeito
Copérnico, Kepler, Newton, Parmênides, Victor Hugo
613 fev. 1973
A outra satisfação
Aristóteles, Bentham — e as duas maneiras de falhar a relação sexual.
As necessidades do ser falante estão "contaminadas" por uma outra satisfação: a da palavra
O gozo que se apoia na linguagem
A Ética a Nicômaco, de Aristóteles
Duas maneiras de falhar a relação sexual
Bentham e a teoria das ficções
Do lado do homem, o objeto a vem no lugar do parceiro que falta: é a fantasia
Aristóteles, Bentham, Freud
720 fev. 1973
Deus e o gozo d'A mulher
A lição do gozo d'A mulher e das místicas — a mais citada do seminário. Os dois lados da sexuação já se anunciam; o quadro das fórmulas vai para a lousa na lição seguinte.
O gozo fálico e o "justo meio" de Aristóteles
O lado do "ao menos um" e o lado do não-todo
Um homem também pode se pôr do lado do não-todo
A Santa Teresa de Bernini, Hadewijch de Antuérpia, São João da Cruz
Das místicas: elas sentem esse gozo, mas nada sabem dele
Bernini, Hadewijch de Antuérpia, São João da Cruz, Aristóteles, Pierre Rousselot, Kierkegaard
813 mar. 1973
A moral é sade
A lição que abre com o quadro das fórmulas da sexuação escrito na lousa ("Após o que acabo de vos pôr no quadro"). E, depois, o saber, a alma em Aristóteles e o ódio que Deus não conhece.
"Não pensem que já sabem tudo"
No esquema dos discursos, S2 é o saber
A "alma", em Aristóteles
Cornélia e os Gracos: "pergunte a um analista e ele dirá que não foi tão bom assim para os filhos"
O amor cortês, de novo
A moral que se diz do Bem confessa ser sade — trocadilho com "sadia" e Sade
Empédocles: se Deus não conhece o ódio, sabe menos que os mortais — não há amor sem ódio
Aristóteles, Sade, Kant, Empédocles
920 mar. 1973
O saber tem um preço
Sobre a contingência e o preço do saber — e um pedido de respostas que ninguém atende.
"Bastaria que uma mão se levantasse"
O gozo só se evoca a partir de um semblante
A contingência: aquilo que "cessa de não se escrever"
O saber tem um preço: o seu valor é de uso, não de troca
Marx e Lênin, Freud e Lacan
Para a próxima: ler "A significação do falo"
Marx, Lênin, Freud, Kant, Russell, Saussure
1010 abr. 1973
Jean-Claude Milner e Kierkegaard
Uma exposição de linguística e uma história de amor.
Ler "L'étourdit", o texto sobre a distância entre o dizer e o dito
O linguista Jean-Claude Milner apresenta a gramática transformacional
Berkeley
Kierkegaard e Regine, a noiva que ele abandonou
Uma homenagem a Recanati
Jean-Claude Milner, François Recanati, Kierkegaard, Berkeley, Chomsky
118 maio 1973
O cristianismo e o barroco
"Penso em vocês — o que não quer dizer que os penso."
O amor e o seu caráter indireto
O cristianismo, e a história de um homem: Cristo
O domingo da vida, de Queneau, e Kojève
"Prefiro o lado do barroco"
A verdade e a "via" do taoísmo
Primeira menção do nó borromeano no ano
Queneau, Kojève, Hegel, Aristóteles, Renan
1215 maio 1973
O nó borromeano
O nó volta, e com ele toda a topologia dos anos seguintes.
"Não há metalinguagem"
Uma corda fechada sobre si é já um nó
O nó borromeano, apresentado "no ano passado, por volta de fevereiro": três anéis tais que, cortando um, os outros dois se soltam
"O real é o mistério do corpo falante, o mistério do inconsciente"
Parmênides
1326 jun. 1973
O rato e o enxame
Última lição: o ano relido, e um labirinto como imagem do que é o saber.
"A linguagem é o esforço feito para dar conta de algo que nada tem a ver com a comunicação — e que chamo lalíngua"
O rato no labirinto: o que ele aprende?
Quem sabe algo é o experimentador, que monta o labirinto
O S1 como enxame (essaim, que soa como S1 em francês)
"Nunca soube, em vinte anos, se continuaria no ano seguinte"
Bateson, Newton, Freud
Armadilhas. (a) "A mulher não existe" é uma proposição sobre o artigo, e não sobre mulheres . (b) O gozo suplementar não é "superior", "mais profundo" nem místico no sentido devocional. (c) As fórmulas da sexuação são objeto de crítica lógica séria, inclusive quanto à validade da escrita ∀̄x; é honesto registrar a disputa. (d) O nó borromeano não é a chave de Encore inteiro: Lacan o apresentara no Seminário 19 (fevereiro de 1972) e só o retoma aqui em maio de 1973.
OS OUTROS VOLUMES
Os volumes à parte, um a um
A tese, as conferências e Televisão — oito volumes que não estão nem nos Écrits nem nos Outros escritos.
Cada ficha tem a mesma forma das fichas de seminário: o que o volume faz, o que se encontra ali, e a peça a peça com as páginas da edição indicada.
Da psicose paranoica em suas relações com a personalidadeseguido de Primeiros escritos sobre a paranoia1932 · 4 peças
Tese de doutorado em medicina · Forense-Universitária, 1987, trad. Aluisio Menezes, Marco Antonio Coutinho Jorge e Potiguara Mendes da Silveira Jr.
O argumento
A tese é anterior ao ensino em dezessete anos, não está nos Écrits, e é o único lugar da obra em que Lacan escreve um caso clínico inteiro — trezentas páginas sobre uma mulher só. Quem lê a psicose lacaniana sem passar por aqui lê a foraclusão sem ter visto nunca uma paranoia.
O argumento é polêmico e tem endereço: contra a noção de constituição paranoica, que era a doutrina dominante na psiquiatria francesa. Não há um temperamento que produza a paranoia; há uma história, e o delírio tem uma estrutura que se pode reconstruir. O que virá quarenta anos depois — que o delírio é uma reconstrução e não uma destruição — já está aqui, em linguagem de psiquiatria clássica.
Aimée agride uma atriz à porta de um teatro. Lacan mostra que o ataque atinge, no alvo, a própria paciente: é o que ele chama de paranoia de autopunição. Anos depois, dirá que a obra literária de Aimée foi o que o pôs no caminho — e, num detalhe que a história cobrou, ele guardou consigo os manuscritos dela.
O que se encontra aqui
O caso Aimée
Segunda parte, a partir da p. 145 — cerca de metade do volume. Observação, comportamento, atitude mental, os escritos da paciente, a estrutura da psicose e a sua evolução.
A crítica da constituição
Primeira parte, p. 45 em diante: por que “a psicose paranoica como desenvolvimento de uma personalidade” é uma proposição e não uma descrição.
A formação histórica do grupo das psicoses paranoicas
p. 9. As três escolas — francesa, alemã, italiana — e o que cada uma fixou no vocabulário que ainda se usa.
O método
Terceira parte, p. 311, “em forma de apêndice, do método de uma ciência da personalidade”. O que se pode e o que não se pode concluir de um caso.
O problema do estilo
Nos Primeiros escritos sobre a paranoia, p. 375. É de 1933, e já trata o delírio como forma — o texto que aproxima Lacan dos surrealistas.
A epígrafe de Spinoza
Antes da introdução: “o afeto de um indivíduo difere do afeto de outro tanto quanto a essência de um difere da essência do outro”. É o programa do livro em uma linha.
Peça por peça
01p. 7I · Posição teórica e dogmática do problema
A formação histórica do grupo das psicoses paranoicas; e a psicose paranoica tomada como desenvolvimento de uma personalidade.
02p. 145II · O caso “Aimée” ou a paranoia de autopunição
O caso inteiro: comportamento, atitude mental, os escritos, a estrutura da psicose, e a anomalia de estrutura no desenvolvimento da personalidade.
03p. 311III · Em forma de apêndice, do método de uma ciência da personalidade
O que uma ciência do caso pode afirmar — e o que não pode.
04p. 373Primeiros escritos sobre a paranoia
“O problema do estilo e a concepção psiquiátrica das formas paranoicas da experiência” (1933) e a exposição geral dos trabalhos científicos.
O mito individual do neuróticoou Poesia e verdade na neurose1953 · 3 peças
Conferência no Collège philosophique · Zahar, 2008, trad. Claudia Berliner
O argumento
Dita em 1953, no mesmo ano do Discurso de Roma, e publicada só em 2007. É o documento mais limpo do que Lacan fazia no instante em que o ensino começa: a estrutura já está lá, e o vocabulário ainda não.
O Homem dos Ratos é lido como um mito, no sentido de Lévi-Strauss: uma constelação de quatro termos — o pai, a dívida, a mulher rica, a mulher pobre — que se repete de uma geração à seguinte com os lugares trocados. O sintoma não repete um acontecimento; repete uma relação entre lugares.
O volume traz ainda “Do símbolo e de sua função religiosa” e a intervenção de Lacan depois de uma exposição de Lévi-Strauss — de modo que se pode ver, no mesmo livro, de onde vem a noção de estrutura que ele acabara de importar.
O que se encontra aqui
O quaternário do Homem dos Ratos
p. 7 em diante. Os quatro termos e a sua permutação entre as gerações; a dívida do pai; e por que o sujeito não sabe que está repetindo.
Mito e verdade
O subtítulo é Poesia e verdade na neurose — Goethe. A verdade do sujeito tem estrutura de ficção, e isso não é uma desqualificação.
Lévi-Strauss em primeira mão
p. 49: a intervenção depois da exposição “Sobre as relações entre a mitologia e o ritual”, com a resposta dele. Um diálogo direto, e raro.
A função religiosa do símbolo
p. 26. O símbolo antes de o significante ter tomado o lugar dele no vocabulário.
Peça por peça
01p. 7O mito individual do neurótico ou Poesia e verdade na neurose
A conferência. O Homem dos Ratos, o quaternário, a dívida, e o mito como forma da verdade do sujeito.
02p. 26Do símbolo e de sua função religiosa
O símbolo, o rito e o que neles opera.
03p. 49Intervenção depois de uma exposição de Claude Lévi-Strauss
“Sobre as relações entre a mitologia e o ritual”, na Sociedade Francesa de Filosofia — com a resposta de Lévi-Strauss.
Meu ensino1967–1968 · 4 peças
Três conferências na província · Zahar, 2006, trad. André Telles
O argumento
Se alguém pergunta por onde começar a ler Lacan, a resposta honesta é este volume. São três conferências ditas fora de Paris, a públicos que não o acompanhavam, e nelas ele explica o próprio ensino — coisa que no seminário quase nunca faz.
O tom é o dos “Paradoxos”: rápido, sarcástico, sem a sintaxe que trava os Écrits. E, no entanto, o conteúdo não é rebaixado: estão aqui o inconsciente estruturado como uma linguagem, o sujeito dividido, o objeto, e a crítica da psicologia — ditos de uma vez.
A terceira conferência, “Então, vocês terão escutado Lacan”, é um exercício curioso: ele antecipa o que o público dirá que ouviu, e responde a isso. É o mais perto que ele chega de comentar a própria recepção.
O que se encontra aqui
O que é um ensino
Primeira conferência. Lugar, origem e fim — e por que um ensino de psicanálise não pode ser a transmissão de um saber constituído.
A entrada mais fácil de toda a obra
Não há texto de Lacan mais acessível que estes três, e nenhum que exija menos aparato. Servem de porta para os Seminários 14 e 15, que correm ao lado.
A crítica da psicologia
Atravessa as três conferências: o sujeito da psicanálise não é o indivíduo da psicologia, e a diferença não é de grau.
O contemporâneo
1967 e 1968: as conferências são exatamente contemporâneas da Proposição de outubro de 1967 e do Seminário 15. Lidas junto com eles, mostram o mesmo problema dito em dois registros.
Peça por peça
01p. 7Preâmbulo
Apresentação da série.
02p. 9Lugar, origem e fim do meu ensino
O que o ensino é, de onde vem e para onde vai. O inconsciente, a linguagem, o sujeito — e a crítica da psicologia.
03p. 67Meu ensino, sua natureza e seus fins
O que se transmite e o que não se transmite; o saber e a verdade.
04p. 101Então, vocês terão escutado Lacan
Ele antecipa o que o público dirá ter ouvido — e responde a isso.
Estou falando com as paredesconversas na Capela de Sainte-Anne1971–1972 · 5 peças
Zahar, 2011, trad. Vera Ribeiro
O argumento
Três conversas dadas na capela do hospital Sainte-Anne, em paralelo ao Seminário 19. Lacan volta ao lugar onde o ensino começou, e fala a um auditório de psiquiatras e internos — o auditório dos primeiros anos.
O título é uma queixa e uma tese ao mesmo tempo. Falar às paredes é falar sem resposta; mas é também o que faz com que a fala ressoe, e a ressonância é o que aqui interessa. O corpo e o gozo entram por essa porta.
É o par falado de …ou pior: os mesmos temas — o semblante, o saber, o gozo — ditos com muito menos formalismo. Para quem trava nos Seminários 18 e 19, este volume é o caminho de entrada.
O que se encontra aqui
Saber, ignorância, verdade e gozo
Primeira conversa, p. 9. As quatro coisas postas juntas — e a ignorância tratada como uma paixão, e não como falta de informação.
O semblante
Atravessa as três conversas, e é o mesmo assunto do Seminário 18. Aqui dito sem a maquinaria lógica.
O médico e o analista
O auditório é de médicos, e Lacan aproveita: o que a medicina pede ao corpo e o que a psicanálise pede a ele não são a mesma coisa.
O anexo
p. 101. Acompanha as conversas e ajuda a situá-las no ano.
Peça por peça
01p. 7Nota
De Jacques-Alain Miller, sobre a ocasião das conversas.
02p. 9Saber, ignorância, verdade e gozo
A primeira conversa.
03p. 39Da incompreensão e outros temas
A segunda. O que é não compreender, e por que isso não é um defeito da escuta.
04p. 71Estou falando com as paredes
A terceira, que dá o título ao volume.
05p. 101Anexo
Peças que situam as conversas no ano do Seminário 19.
O triunfo da religiãoprecedido de Discurso aos católicos1960 e 1974 · 12 peças
Zahar, 2005, trad. André Telles
O argumento
Dois textos separados por quatorze anos, publicados juntos — e a distância entre eles é o que torna o volume útil. O Discurso aos católicos é de março de 1960, contemporâneo do Seminário 7; O triunfo da religião é a conferência de imprensa de Roma, outubro de 1974, contemporânea de A Terceira.
No primeiro, a questão é a ética: Freud, diz Lacan, dá à moral o peso correto, e a psicanálise é constituinte da ética exigida pelo nosso tempo. É a matéria do Seminário 7 dita a um auditório católico, e por isso dita com todas as letras.
No segundo, a frase que ficou: a religião triunfará, porque ela é capaz de dar sentido a absolutamente tudo, e é disso que o real produz. A psicanálise não compete nesse terreno — o que ela pode é habituar ao real, que é outra coisa.
O que se encontra aqui
“Governar, educar, analisar”
p. 57. As três profissões impossíveis, ditas a jornalistas, com a clareza que o seminário não tem.
“O Verbo faz gozar”
p. 72. A fórmula que liga a religião ao gozo, e não à crença.
“Habituar-se ao real”
p. 75. O que a psicanálise pode, posta ao lado do que a religião pode — e a resposta não é otimista.
A angústia dos cientistas
p. 61. O que a ciência produz e não sabe manejar: uma leitura da época que envelheceu pouco.
A ética, catorze anos antes
Discurso aos católicos, p. 9. Duas partes: “Freud, no que se refere à moral, dá o peso correto” e “A psicanálise é constituinte da ética exigida pelo nosso tempo?”. Ler com o Seminário 7 ao lado.
Peça por peça
01p. 9Discurso aos católicos
Bruxelas, março de 1960.
02p. 11— Anúncio
A apresentação da conferência.
03p. 13— I. Freud, no que se refere à moral, dá o peso correto
A moral, o supereu e o que Freud não concede.
04p. 37— II. A psicanálise é constituinte da ética exigida pelo nosso tempo?
A pergunta do título, e a resposta.
05p. 55O triunfo da religião
Conferência de imprensa em Roma, outubro de 1974.
06p. 57— Governar, educar, analisar
As três profissões impossíveis.
07p. 61— A angústia dos cientistas
O que a ciência produz e não sabe manejar.
08p. 64— O triunfo da religião
A religião dá sentido a tudo; é por isso que vence.
09p. 68— Circunscrever o sintoma
O que a psicanálise faz, dito em uma expressão.
10p. 72— O Verbo faz gozar
A religião e o gozo.
11p. 75— Habituar-se ao real
O que se pode esperar de uma análise.
12p. 79— Não filosofar
A recusa final, e o que ela quer dizer.
Televisão1973 · 9 peças
Zahar, 1993, versão brasileira de Antonio Quinet
O argumento
Escrito para ser dito diante de uma câmera, em resposta a perguntas de Jacques-Alain Miller, e transmitido no início de 1974. É o texto mais citado do último ensino e o mais mal lido — porque a forma é acessível e a matéria não é.
A primeira frase dá o programa: “Digo sempre a verdade: não toda, porque dizê-la toda não se consegue.” O resto do texto é a consequência disso, aplicada ao inconsciente, ao gozo, à ética do analista e ao mal-estar da civilização.
Vale como par de Radiofonia, de 1970: a mesma operação — responder a perguntas — em outro meio, três anos depois. E vale como aviso: as sete seções não são um resumo do ensino, são sete respostas, cada uma com o seu ângulo.
O que se encontra aqui
“Digo sempre a verdade: não toda”
Seção I, p. 9. A frase de abertura, e a razão pela qual não se trata de modéstia mas de estrutura.
O inconsciente, coisa extremamente precisa
Seção II, p. 15. Contra a ideia de um inconsciente profundo e vago.
“Ser um santo”
Seção III, p. 27. O analista como santo — que faz de dejeto, e não de modelo. Uma das poucas descrições diretas da posição do analista.
O racismo e o mal-estar
Seção V, p. 49, e o fim do texto. A previsão sobre o racismo por vir, muito citada e raramente lida por inteiro.
O descaminho do gozo
Seção V. Por onde o gozo se desvia — e o que a análise tem a ver com isso.
Contra o inconsciente profundo; o saber que não se sabe.
04p. 27III · [Ser um santo]
A posição do analista, e o que ela tem de insuportável.
05p. 35IV · [Esses gestos vagos daqueles que extraem de meu discurso uma garantia]
Contra o uso do próprio nome como garantia.
06p. 49V · [O descaminho de nosso gozo]
O gozo, o corpo e o mal-estar.
07p. 61VI · [Saber, fazer, esperar]
O que se pode esperar de uma análise.
08p. 77VII · [O que bem se enuncia, claramente se concebe]
O fecho.
09p. 83Notas de tradução
De Antonio Quinet: as escolhas, uma a uma.
Discurso de Tóquio1971 · 1 peças
Tradução de Borda traduções, 2020 · edição não comercial
O argumento
Dito a analistas japoneses em 1971, entre o Seminário 18 e o 19 — os anos do semblante e da letra. O que está em causa é uma pergunta simples e incômoda: o que acontece com a psicanálise numa língua que não é a de Freud.
A resposta passa pelo significante e a escrita. Lacan insiste em que o significante não é o que a palavra parece indicar, e que a escrita japonesa — com as duas leituras de um mesmo caractere — põe isso à vista de um modo que o alfabeto esconde.
É o texto a pôr ao lado do “Aviso ao leitor japonês”, dos Outros escritos, escrito no ano seguinte. Os dois dizem coisas próximas, e a tese sobre o japonês é discutida — o que obriga a lê-los antes de repeti-los.
O que se encontra aqui
O lado índice do significante
O ponto em que o discurso insiste: o que uma primeira aproximação da língua consiste justamente em ultrapassar.
A escrita e a leitura
A relação entre o caractere e as suas leituras, e o que isso mostra do significante que o alfabeto não mostra.
O par obrigatório
“Aviso ao leitor japonês”, Outros escritos, p. 498, de janeiro de 1972.
Advertência sobre a edição
Esta tradução é de um coletivo, não comercial, e declara as suas escolhas no editorial. Citar com a referência da tradução.
Peça por peça
01p. 1Discurso de Tóquio
O discurso inteiro, com o editorial dos tradutores sobre as escolhas de tradução.
A Terceira1974 · 1 peças
Congresso de Roma, novembro de 1974 · digitalização sem camada de texto
O argumento
A conferência de Roma de 1974 é uma das peças centrais do último ensino: é ali que os três gozos são situados no nó borromeano — o gozo do sentido, o gozo fálico e o gozo do Outro —, com o objeto a no centro.
O título é literal e irônico: é a terceira vez que Lacan fala em Roma. A primeira foi o Discurso de Roma, em 1953; a segunda, em 1967. Vinte e um anos separam a primeira da terceira, e a distância entre elas mede o ensino inteiro.
Esta ficha é mais breve que as outras: A Terceira ainda será trabalhada com o devido vagar. O que se diz acima vem do lugar que a conferência ocupa na cronologia e nos seminários vizinhos.
O que se encontra aqui
Os três gozos no nó
O conteúdo pelo qual a conferência é citada. Ver, nas fichas do corpus, o Seminário 22 (1974–75), que é rigorosamente contemporâneo e onde o mesmo material aparece com data.
Peça por peça
01—A Terceira
Congresso da École Freudienne de Paris, Roma, 31 de outubro a 3 de novembro de 1974. Ficha em elaboração.
OS ÉCRITS · 1966
Os Écrits, texto por texto
A regra que torna o volume legível: para cada Escrito, localizar o seminário de que ele é o precipitado.
O que é o volume. Publicado pelo Seuil em novembro de 1966, com quase 900 páginas, reunindo textos de 1936 a 1966. Não é uma antologia: é uma construção. Lacan abre o volume com o Seminário sobre "A carta roubada" — que é de 1956 — contra a cronologia, e fecha com A ciência e a verdade, que é a lição inaugural do Seminário 13. A ordem é uma tese: começa-se pela determinação simbólica e termina-se pela questão do estatuto científico.
Como ler. Os Écrits são notoriamente difíceis, e a dificuldade tem uma causa identificável: quase todos os textos são condensações de um ano de seminário. Ler "Subversão do sujeito" sem ter percorrido os Seminários 5 e 6 é ler as conclusões sem as premissas. A regra é: para cada Escrito, localizar o seminário de que ele é o precipitado.
1. Os textos, na ordem do volume
O sumário abaixo sai do sumário da edição brasileira (Zahar, 1998, tradução de Vera Ribeiro) — daí as páginas e os títulos em português na forma publicada. Atenção: “O número treze e a forma lógica da suspeita” não está neste volume — está nos Outros escritos, p. 91. As datas vêm da Linha Temporal de Bergson Paulino e Jefferson Weyne (2020).
p.
texto
data
o que faz
seminário
9
Abertura desta coletâneaOuverture de ce recueil
out. 1966
A nota de abertura. “O estilo é o homem a quem nos endereçamos” — e a queda do objeto a posta como resposta à questão do estilo.
—
13
O seminário sobre “A carta roubada”Le séminaire sur « La Lettre volée »
ago. 1956
Os três lugares e os três olhares; a carta que determina quem a tem. O apêndice sobre as redes α β γ δ mostra uma memória que emerge da pura simbolização. Posto na abertura contra a cronologia — e isso é uma tese.
S2
69
De nossos antecedentesDe nos antécédents
1966
Autoapresentação retrospectiva: o que havia antes de 1953, e por que o autor o recolhe agora.
—
77
Para-além do “Princípio de realidade”Au-delà du « principe de réalité »
out. 1936
Primeiro texto teórico. A crítica do associacionismo; a imago; e a psicologia recolocada no campo da linguagem.
—
96
O estádio do espelho como formador da função do euLe stade du miroir comme formateur de la fonction du Je
jul. 1949
A matriz do eu. A imagem antecipa uma unidade que o corpo ainda não tem; daí a alienação constitutiva e a agressividade que a acompanha.
S1
104
A agressividade em psicanáliseL’agressivité en psychanalyse
maio 1948
As cinco teses. A agressividade como tensão da relação especular — nem instinto, nem pulsão de morte biológica.
S1
127
Introdução teórica às funções da psicanálise em criminologiaIntroduction théorique aux fonctions de la psychanalyse en criminologie
maio 1950
Com Michel Cénac. Responsabilidade, lei e sujeito: não há crime sem sujeito que a lei suponha.
—
152
Formulações sobre a causalidade psíquicaPropos sur la causalité psychique
set. 1946
Contra Henri Ey. A loucura não é déficit do organismo, é posição do sujeito. “O ser do homem não pode ser compreendido sem sua loucura.”
pré-S3
197
O tempo lógico e a asserção de certeza antecipadaLe temps logique et l’assertion de certitude anticipée
mar. 1945
Os três prisioneiros: instante de ver, tempo para compreender, momento de concluir. O texto lógico maior — e o título do Seminário 25 sai daqui.
S25
214
Intervenção sobre a transferênciaIntervention sur le transfert
nov. 1951
Dora lida por inversões dialéticas. O primeiro texto em que a transferência deixa de ser um afeto e passa a ser uma estrutura.
S4
229
Do sujeito enfim em questãoDu sujet enfin en question
1966
Nota de montagem sobre o que o volume faz com o sujeito.
—
238
Função e campo da fala e da linguagem em psicanáliseFonction et champ de la parole et du langage en psychanalyse
set. 1953
O Discurso de Roma, texto-programa de toda a obra. Fala plena e fala vazia; as três ordens; o fort-da; Lévi-Strauss; o tempo lógico; a crítica da IPA.
abre S1
325
Variantes do tratamento-padrãoVariantes de la cure-type
fev. 1955
Crítica da padronização técnica: o que se padroniza é o que se deixou de pensar.
S2
365
De um desígnioD’un dessein
1966
Nota de montagem, curta, sobre o propósito da coletânea.
—
370
Introdução ao comentário de Jean Hyppolite sobre a “Verneinung” de FreudIntroduction au commentaire de Jean Hyppolite…
fev. 1954
A denegação; a distinção entre Bejahung e Ausstossung; e o que significa dizer que algo não foi admitido no simbólico.
S1
383
Resposta ao comentário de Jean Hyppolite sobre a “Verneinung” de FreudRéponse au commentaire de Jean Hyppolite…
fev. 1954
A resposta, publicada junto com o comentário do próprio Hyppolite, em apêndice ao volume — a única vez em que um texto alheio entra nos Écrits.
S1
402
A coisa freudianaLa chose freudienne
nov. 1955
“Eu, a verdade, falo.” A prosopopeia que faz da verdade um sujeito; o retorno a Freud enunciado como retorno ao sentido.
S3
438
A psicanálise e seu ensinoLa psychanalyse et son enseignement
fev. 1957
Sobre a transmissão: o que se pode ensinar de uma prática que não se aprende senão nela.
S4
461
Situação da psicanálise e formação do psicanalista em 1956Situation de la psychanalyse et formation du psychanalyste en 1956
set. 1956
Polêmica institucional, e o diagnóstico do que a IPA fez do ensino de Freud.
—
496
A instância da letra no inconsciente ou a razão desde FreudL’instance de la lettre dans l’inconscient ou la raison depuis Freud
maio 1957
Texto capital.S/s e a inversão de Saussure; as fórmulas da metáfora e da metonímia; a árvore; as portas “Damas” e “Cavalheiros”; a letra distinguida do significante; Booz endormi.
S3, S5
537
De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicoseD’une question préliminaire à tout traitement possible de la psychose
jan. 1958
Texto capital. A metáfora paterna; a foraclusão; os esquemas R e I; e a nota de 1966 que declara o campo R um corte de cross-cap.
S3
591
A direção do tratamento e os princípios de seu poderLa direction de la cure et les principes de son pouvoir
jul. 1958
Texto capital. O que o analista paga; necessidade, demanda e desejo; o sonho da bela açougueira; e “o desejo do homem é o desejo do Outro”.
S5, S6
653
Observação sobre o relatório de Daniel LagacheRemarque sur le rapport de Daniel Lagache
jul. 1958
O esquema óptico completo, com o espelho plano; I(A); e a distinção entre eu ideal e ideal do eu, que quase toda exposição confunde.
S1, S8
692
A significação do faloLa signification du phallus
maio 1958
Texto capital. Munique. O falo como significante da falta; ser o falo, tê-lo; a mascarada.
S5
704
À memória de Ernest Jones: sobre sua teoria do simbolismoÀ la mémoire d’Ernest Jones : sur sa théorie du symbolisme
jan. 1959
Crítica do simbolismo em Jones: o símbolo não é uma imagem que substitui uma coisa.
S5
725
De um silabário a posterioriD’un syllabaire après coup
1966
Nota complementar ao texto sobre Jones.
—
734
Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade femininaPropos directifs pour un congrès sur la sexualité féminine
1958
A sexualidade feminina antes das fórmulas da sexuação — e por isso mesmo o ponto de comparação obrigatório para medir o que muda em 1972.
S5
749
Juventude de Gide ou a letra e o desejoJeunesse de Gide ou la lettre et le désir
abr. 1958
O objeto, a letra e o desejo lidos a partir de uma biografia — e a carta destruída que organiza uma vida.
S6
776
Kant com SadeKant avec Sade
set. 1962
Texto capital e difícil. A estrutura comum ao imperativo e à máxima sadiana; os dois esquemas; a vontade de gozo. Exige o Seminário 7 inteiro.
S7
807
Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudianoSubversion du sujet et dialectique du désir dans l’inconscient freudien
set. 1960
Texto capital. O grafo do desejo completo em quatro tempos; S(Ⱥ); $◊D; $◊a; Che vuoi?; o falo como √−1; e “Wo Es war, soll Ich werden”.
S5, S6
843
Posição do inconscientePosition de l’inconscient
out. 1960
Alienação e separação escritas; o vel; os círculos de Euler; a lamela; e o inconsciente como hiância e não como profundeza.
S11
865
Do “Trieb” de Freud e do desejo do psicanalistaDu « Trieb » de Freud et du désir du psychanalyste
jan. 1964
A pulsão e o desejo do analista em duas páginas. O texto mais curto do volume, e um dos mais densos.
S11
869
A ciência e a verdadeLa science et la vérité
dez. 1965
Texto capital. Lição inaugural do Seminário 13, e último texto do volume. As quatro causas; os quatro modos de relação com a causa — magia, religião, ciência, psicanálise; a foraclusão do sujeito pela ciência.
abre S13
893
Apêndice I — Comentário falado sobre a “Verneinung” de Freud, por Jean HyppoliteAppendice I — Commentaire parlé sur la Verneinung de Freud, par Jean Hyppolite
fev. 1954
O texto de Hyppolite, dito no Seminário 1 e conservado no volume. Não é de Lacan — e citá-lo como se fosse é erro corrente.
S1
E o aparato do fim do volume, que quase ninguém abre
Índice ponderado dos principais conceitos, por Jacques-Alain Miller p. 908
Um índice de conceitos com peso: distingue a passagem em que o conceito é trabalhado daquela em que é apenas citado. É a ferramenta mais subutilizada do volume.
Quadro comentado das representações gráficas p. 917
Todos os esquemas do volume — L, R, I, óptico, grafo — reunidos e comentados um a um.
Termos de Freud em alemão p. 923
A lista dos termos alemães com a tradução adotada. Resolve metade das dúvidas de leitura.
Índice dos nomes citados p. 926
Quem aparece, e onde.
Referências bibliográficas na ordem cronológica p. 930
A bibliografia de Lacan em ordem de escrita — que é outra ordem que não a do volume.
2. O que precisa ser elucidado em cada Escrito capital
"Fonction et champ" (1953). A distinção fala plena/vazia; as três ordens; a função do símbolo; o fort-da; Lévi-Strauss e a eficácia simbólica; o tempo lógico; a crítica da IPA. É o texto programa de toda a obra.
"L'instance de la lettre" (1957). A escrita S/s e a inversão de Saussure; o algoritmo; a fórmula da metáforaf(S′/S)S ≅ S(+)s e a da metonímiaf(S…S′)S ≅ S(−)s; a árvore e as portas "Damas"/"Cavalheiros"; a diferença entre a letra e o significante; a interpretação de Booz endormi.
"D'une question préliminaire" (1957–58). A metáfora paterna escrita com o cancelamento do Desejo da Mãe; a foraclusão do Nome-do-Pai; o esquema R e seus vértices M, I, P, Φ, i, m; o esquema I com os buracos P₀ e Φ₀ e as curvas assintóticas; a nota de 1966 que declara que o campo R é um corte de cross-cap. Este texto é a fonte de dois módulos inteiros de qualquer material didático sério.
"La direction de la cure" (1958). O que o analista paga: com palavras, com sua pessoa, com um juízo sobre seu ser; a distinção necessidade/demanda/desejo; a análise do sonho da bela açougueira; a crítica da interpretação por sugestão; e a formulação de que o desejo do homem é o desejo do Outro.
"Subversion du sujet" (1960). O texto mais denso do volume. Contém o grafo completo em quatro tempos, e cada um dos seus elementos precisa de elucidação separada: Δ, $, A, s(A), i(a), m, I(A), d, $◊a, S(Ⱥ), $◊D, Che vuoi?. Contém também a fórmula do falo como √−1 e a leitura de "Wo Es war, soll Ich werden".
"Kant avec Sade" (1962). Os dois esquemas; a vontade de gozo V; a fantasia sadiana como rotação da fantasia neurótica; a tese de que Sade é a verdade de Kant. Texto que exige o Seminário 7 inteiro.
"Position de l'inconscient" (1964). A escrita da alienação (o vel, a bolsa ou a vida) e da separação (a interseção das duas faltas); os círculos de Euler; a lamela.
"La science et la vérité" (1966). A causa formal, eficiente, material e final; os quatro modos de relação com a causa (magia, religião, ciência, psicanálise); a tese de que o sujeito da ciência é o sujeito sobre o qual a psicanálise opera; a foraclusão.
OS AUTRES ÉCRITS · 2001
Os Autres écrits e o que ficou de fora
Indispensável para o último ensino — e é aqui que estão Lituraterra, L'étourdit e a Proposição de 1967.
O que é o volume. Reunido por Jacques-Alain Miller e publicado pelo Seuil em 2001, junta o que ficou de fora dos Écrits: textos anteriores a 1966, textos posteriores, intervenções institucionais, prefácios, apresentações de seminários e as "Radiofonia"/"Televisão". É indispensável para o último Lacan, cujo pensamento está quase todo aqui e nos seminários não editados.
Os textos, na ordem do volume
Do sumário da edição brasileira (Zahar, 2003). Os três últimos textos do volume tiveram o número de página perdido no reconhecimento óptico do sumário: entram com um travessão.
p.
texto
data
o que faz
seminário
11
PrólogoPrologue
fev. 2001
De Jacques-Alain Miller. Diz por que o volume começa por Lituraterra — o lugar que nos Écrits coube a “A carta roubada”. Não é de Lacan.
—
15
LituraterraLituraterre
maio 1971
Texto capital. A distinção letra / significante; a letra como litoral entre saber e gozo; o ravinement; a planície siberiana vista do avião; a caligrafia japonesa; litura / littera / rature.
S18
29
Os complexos familiares na formação do indivíduoLes complexes familiaux dans la formation de l’individu
mar. 1938
O artigo de enciclopédia. Desmame, intrusão, Édipo — e o declínio da imago paterna, tese que volta quarenta anos depois no sinthoma.
—
91
O número treze e a forma lógica da suspeitaLe nombre treize et la forme logique de la suspicion
1946
Exercício lógico sobre a pesagem de moedas. Está aqui, e não nos Écrits — engano corrente.
—
106
A psiquiatria inglesa e a guerraLa psychiatrie anglaise et la guerre
1947
Relato da viagem a Londres. Bion, Rickman e o grupo sem líder: uma psiquiatria que opera pelo coletivo, e não pelo médico.
—
127
Premissas a todo desenvolvimento possível da criminologiaPrémisses à tout développement possible de la criminologie
maio 1950
Com Michel Cénac. O par do texto dos Écrits sobre criminologia.
—
132
Intervenção no I Congresso Mundial de PsiquiatriaIntervention au Ier Congrès mondial de psychiatrie
set. 1950
Sobre a psicocirurgia, e o que ela supõe do sujeito.
—
139
Discurso de RomaDiscours de Rome
set. 1953
A versão falada do que os Écrits publicam como “Função e campo”. Ler as duas lado a lado mostra o que a escrita faz com a fala.
abre S1
173
A psicanálise verdadeira, e a falsaLa psychanalyse vraie, et la fausse
jun. 1958
Polêmica sobre o que distingue uma análise de uma psicoterapia.
—
183
Maurice Merleau-PontyMaurice Merleau-Ponty
out. 1961
Necrológio. O olhar, o visível e o invisível — e o que Lacan deve, e não deve, à fenomenologia.
S11
195
Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise resumoLes quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse
jul. 1965
Resumo do Seminário 11 pelo próprio Lacan, para o anuário dos Hautes Études.
S11
198
Homenagem a Marguerite Duras pelo arrebatamento de Lol V. SteinHommage fait à Marguerite Duras
dez. 1965
“O artista sempre precede o psicanalista.” O olhar, o a-três, e o arrebatamento tomado como estrutura e não como tema.
S13
206
Problemas cruciais para a psicanálise resumoProblèmes cruciaux pour la psychanalyse
abr. 1966
Resumo do Seminário 12 — que não tem edição estabelecida. Atalho valioso.
S12
210
Respostas a estudantes de filosofiaRéponses à des étudiants en philosophie
fev. 1966
Sobre o sujeito, a estrutura, e o que a filosofia pede à psicanálise.
—
219
Apresentação das Memórias de um doente dos nervosPrésentation des Mémoires d’un névropathe
nov. 1966
Sobre Schreber, dez anos depois do Seminário 3 — e sobre o que uma tradução faz com um delírio.
S3
224
O objeto da psicanálise resumoL’objet de la psychanalyse
jul. 1967
Resumo do Seminário 13. O objeto, o cross-cap e a perspectiva.
S13
226
Pequeno discurso no ORTFPetit discours à l’ORTF
dez. 1966
Primeira aparição na rádio: o ensaio geral do que será Radiofonia.
—
235
Ato de fundaçãoActe de fondation
jun. 1964
A criação da École Freudienne de Paris depois da excomunhão, e o cartel como dispositivo de trabalho: quatro mais um.
—
248
Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da EscolaProposition du 9 octobre 1967 sur le psychanalyste de l’École
out. 1967
Texto capital. O passe; o sujeito suposto saber e a sua queda; a destituição subjetiva; e a fórmula da transferência. Ler com o Seminário 15.
S15
265
Discurso na Escola Freudiana de ParisDiscours à l’École freudienne de Paris
dez. 1967
Complemento da Proposição, dito diante da Escola que a recebeu mal.
—
288
Introdução de Scilicet no título da revista da EscolaIntroduction de Scilicet…
jan. 1968
Por que os artigos saem sem assinatura: uma revista que não faz nome a ninguém.
—
299
Pronunciamento na EscolaAllocution à l’École
jan. 1969
Sobre a crise interna da EFP depois de 1968.
—
302
Alocução sobre o ensinoAllocution sur l’enseignement
abr. 1970
O que se ensina quando se ensina psicanálise — e a universidade tomada como discurso.
S17
311
Nota italianaNote italienne
abr. 1974
O desejo do analista e a autorização: “o analista só se autoriza de si mesmo” — frase quase sempre citada pela metade.
—
316
Talvez em Vincennes…Peut-être à Vincennes…
jan. 1975
As quatro disciplinas que Lacan propõe para a formação: linguística, lógica, topologia e antifilosofia.
—
319
Carta de dissoluçãoLettre de dissolution
jan. 1980
A dissolução da École. “Falo sem a menor esperança de me fazer ouvir.”
—
323
A lógica da fantasia resumoLa logique du fantasme
jul. 1968
Resumo do Seminário 14 pelo próprio Lacan. Para um seminário sem edição estabelecida, é a fonte mais confiável e mais curta.
S14
329
O engano do sujeito suposto saberLa méprise du sujet supposé savoir
dez. 1967
O que o sujeito suposto saber tem de engano — e por que assim mesmo opera.
S15
341
A psicanálise. Razão de um fracassoLa psychanalyse. Raison d’un échec
dez. 1967
Sobre o que, na psicanálise, resiste a virar instituição.
—
350
Da psicanálise em suas relações com a realidadeDe la psychanalyse dans ses rapports avec la réalité
dez. 1967
Milão. A psicanálise não trata da realidade: trata do real — e a distinção é toda.
—
359
Alocução sobre as psicoses da criançaAllocution sur les psychoses de l’enfant
out. 1967
Sobre a criança psicótica, a instituição, e o gozo do Outro.
—
369
Nota sobre a criançaNote sur l’enfant
out. 1969
Meia página, muito citada: a criança como sintoma do casal, ou como objeto da fantasia materna. Curtíssimo, e decisivo na clínica com crianças.
—
371
O ato psicanalítico resumoL’acte psychanalytique
jun. 1969
Resumo do Seminário 15 — outro seminário sem edição estabelecida.
S15
383
Prefácio à edição dos Escritos em livro de bolsoPréface à l’édition en livre de poche
dez. 1969
O que mudou, entre 1966 e 1969, na leitura do próprio volume.
—
389
Prefácio a uma tesePréface à une thèse
dez. 1969
Sobre a tese de Anika Rifflet-Lemaire — e sobre ser lido por quem explica.
—
400
RadiofoniaRadiophonie
jun. 1970
Sete respostas. Exposição condensada dos quatro discursos, do gozo, do corpo e do significante. Extremamente denso, e o par obrigatório de Televisão.
S17
448
O aturditoL’étourdit
jul. 1972
O texto mais difícil de toda a obra. O dizer e o dito; “que se diga fica esquecido”; as fórmulas da sexuação desenvolvidas; a topologia das superfícies como demonstração, e não como ilustração. Impossível sem os Seminários 18, 19 e 20.
S18–S20
498
Aviso ao leitor japonêsAvis au lecteur japonais
jan. 1972
Sobre uma língua em que, segundo ele, não caberia o mesmo trabalho de decifração. Tese discutível e discutida — e que é preciso ler antes de repetir.
S18
503
Posfácio ao Seminário 11Postface au Séminaire XI
jan. 1973
Sobre o que é publicar um seminário: “um escrito, a meu ver, é feito para não ser lido”.
S11
508
TelevisãoTélévision
dez. 1973
“Digo sempre a verdade: não toda.” O texto mais acessível e mais citado do último ensino — e, por isso mesmo, o mais mal lido.
S20
544
…ou pior resumo…ou pire
jul. 1973
Resumo do Seminário 19, escrito por Lacan.
S19
550
Introdução à edição alemã de um primeiro volume dos EscritosIntroduction à l’édition allemande…
out. 1973
Sobre o que se perde e o que se ganha ao traduzir — e sobre a língua alemã de Freud.
—
—
Prefácio a O despertar da primaveraPréface à L’éveil du printemps
set. 1974
Wedekind, a adolescência, e “não há relação sexual” dita a propósito de uma peça de teatro.
S21
—
Joyce, o SintomaJoyce le symptôme
jun. 1975
Aberto o simpósio Joyce em Paris. O sinthoma, o escabelo, e a escrita como suplência. Circulam duas versões — e elas não dizem o mesmo.
S23
—
Prefácio à edição inglesa do Seminário 11Préface à l’édition anglaise du Séminaire XI
maio 1976
Curtíssimo e decisivo: o real, a satisfação que marca o fim de uma análise, e o “il n’y a que ça”.
S11
1. Textos agrupados por tema
O agrupamento anterior cobria só os Autres écrits. Este cobre os três lugares em que a obra escrita está: os Escritos, os Outros escritos e os volumes à parte. A sigla depois de cada título diz em qual deles procurar — sem isso um agrupamento temático não serve para nada.
E Escritos (Zahar, 1998) · OE Outros escritos (Zahar, 2003) · T Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade (1932) · MI O mito individual do neurótico (1953) · ME Meu ensino (1967–68) · PA Estou falando com as paredes (1971–72) · TR O triunfo da religião, precedido de Discurso aos católicos · TV Televisão (1973) · TQ Discurso de Tóquio (1971) · T3 A Terceira (1974)
Os primeiros escritos e a clínica psiquiátrica
O que existe antes de 1953 e que quase nunca é lido — e sem o que a psicose lacaniana fica sem chão clínico.
Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade T1932
A tese. O caso Aimée; a paranoia de autopunição; a crítica da noção de constituição. Inclui os Primeiros escritos sobre a paranoia, com “O problema do estilo”.
Formulações sobre a causalidade psíquica E1946
Contra Henri Ey. A loucura como posição do sujeito, e não como déficit.
A psiquiatria inglesa e a guerra OE1947
Bion, Rickman, o grupo sem líder: uma psiquiatria que opera pelo coletivo.
Introdução teórica às funções da psicanálise em criminologia E1950
Com Cénac. Responsabilidade, lei e sujeito.
Premissas a todo desenvolvimento possível da criminologia OE1950
O par do texto anterior — e o que a criminologia tem de pedir à psicanálise.
O mito individual do neurótico MI1953
Conferência no Collège philosophique. O Homem dos Ratos lido como mito: quatro termos que se permutam. Traz também “Do símbolo e de sua função religiosa” e a intervenção depois da exposição de Lévi-Strauss.
O programa: o retorno a Freud e a crítica da técnica
Onde Lacan diz o que vai fazer, e contra quem.
Discurso de Roma OE1953
A versão falada. Ler ao lado de “Função e campo” mostra o que a escrita faz com a fala.
Função e campo da fala e da linguagem E1953
O texto-programa. Fala plena e vazia; as três ordens; o fort-da; a crítica da IPA.
Variantes do tratamento-padrão E1955
O que se padroniza é o que se deixou de pensar.
A coisa freudiana E1955
“Eu, a verdade, falo.” O retorno a Freud como retorno ao sentido.
Situação da psicanálise e formação do psicanalista em 1956 E1956
O diagnóstico institucional que antecede a cisão.
A psicanálise e seu ensino E1957
O que se pode ensinar de uma prática que não se aprende senão nela.
Meu ensino ME1967
Três conferências na província — “Lugar, origem e fim do meu ensino”, “Meu ensino, sua natureza e seus fins”, “Então, vocês terão escutado Lacan”. A porta de entrada mais fácil de toda a obra, e por isso a mais útil para quem começa.
O imaginário: a imagem, o eu, o corpo
A primeira das três ordens, e a única que se vê.
Os complexos familiares na formação do indivíduo OE1938
Desmame, intrusão, Édipo — e o declínio da imago paterna, tese de 1938 que volta quarenta anos depois no sinthoma.
O estádio do espelho como formador da função do eu E1949
A imagem antecipa uma unidade que o corpo ainda não tem.
A agressividade em psicanálise E1948
As cinco teses. A agressividade é tensão da relação especular.
Observação sobre o relatório de Daniel Lagache E1958
O esquema óptico completo, com o espelho plano; eu ideal e ideal do eu, que quase toda exposição confunde.
O significante, a letra e a escrita
A ordem simbólica, e depois a letra que se destaca dela.
O seminário sobre “A carta roubada” E1956
Os três lugares; a carta que determina quem a tem; e o apêndice sobre as redes α β γ δ, onde uma memória emerge da pura simbolização.
A instância da letra no inconsciente E1957
Texto capital.S/s; as fórmulas da metáfora e da metonímia; a letra já distinguida do significante.
Lituraterra OE1971
Texto capital. A letra como litoral entre saber e gozo; o ravinement; litura / littera / rature.
Aviso ao leitor japonês OE1972
Tese discutível e discutida sobre a língua japonesa. Ler antes de repetir.
Estou falando com as paredes PA1972
Três conversas na Capela de Sainte-Anne, paralelas ao Seminário 19: “Saber, ignorância, verdade e gozo”, “Da incompreensão e outros temas” e “Estou falando com as paredes”. O semblante e o gozo ditos em voz baixa.
A psicose
O eixo clínico mais bem documentado da obra escrita.
Da psicose paranoica… T1932
A tese, e o caso Aimée.
De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose E1958
Texto capital. A metáfora paterna; a foraclusão; os esquemas R e I; e a nota de 1966 sobre o cross-cap.
Apresentação das Memórias de um doente dos nervosOE1966
Schreber dez anos depois do Seminário 3, e o que uma tradução faz com um delírio.
Alocução sobre as psicoses da criança OE1967
A criança psicótica, a instituição, e o gozo do Outro.
Nota sobre a criança OE1969
Meia página: a criança como sintoma do casal, ou como objeto da fantasia materna.
O desejo, o falo e o gozo
Do grafo às fórmulas — e o que muda entre um e outro.
A significação do falo E1958
Texto capital. O falo como significante da falta; ser, ter, a mascarada.
Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina E1958
A sexualidade feminina antes das fórmulas da sexuação — e por isso o ponto de comparação obrigatório para medir o que 1972 muda.
Juventude de Gide ou a letra e o desejo E1958
O objeto, a letra e o desejo lidos numa biografia.
A direção do tratamento e os princípios de seu poder E1958
Necessidade, demanda, desejo; o sonho da bela açougueira.
Subversão do sujeito e dialética do desejo E1960
Texto capital. O grafo completo; S(Ⱥ); $◊a; o falo como √−1.
Kant com Sade E1962
Texto capital e difícil. Os dois esquemas; a vontade de gozo; a tese de que Sade é a verdade de Kant.
A Terceira T31974
Conferência em Roma. Os três gozos situados no nó — sentido, fálico, do Outro — e o objeto a no centro. Aqui o texto não pôde ser indexado: o arquivo é uma digitalização sem camada de texto.
A transferência, o ato e o fim da análise
O que acontece na análise, e como se verifica que aconteceu.
Intervenção sobre a transferência E1951
Dora por inversões dialéticas. A transferência deixa de ser afeto e passa a ser estrutura.
A direção do tratamento E1958
O que o analista paga: com palavras, com sua pessoa, com um juízo sobre seu ser.
Proposição de 9 de outubro de 1967 OE1967
Texto capital. O passe; o sujeito suposto saber e a sua queda; a destituição subjetiva.
O engano do sujeito suposto saber OE1967
O que o sujeito suposto saber tem de engano — e por que assim mesmo opera.
O ato psicanalítico resumoOE1969
Resumo do Seminário 15 pelo próprio Lacan: a fonte mais curta e confiável para um seminário sem edição estabelecida.
Nota italiana OE1974
“O analista só se autoriza de si mesmo” — frase quase sempre citada pela metade.
Prefácio à edição inglesa do Seminário 11 OE1976
Curtíssimo e decisivo: a satisfação que marca o fim de uma análise.
A pulsão e o inconsciente
Os conceitos de 1964, escritos fora do seminário que os produziu.
Posição do inconsciente E1964
Alienação e separação escritas; o vel; a lamela; o inconsciente como hiância.
Do “Trieb” de Freud e do desejo do psicanalista E1964
A pulsão e o desejo do analista em duas páginas.
Os quatro conceitos fundamentais resumoOE1965
Resumo do Seminário 11 pelo próprio Lacan.
Posfácio ao Seminário 11 OE1973
“Um escrito, a meu ver, é feito para não ser lido.”
Lógica, número e ciência
A formalização, do sofisma de 1945 ao texto mais difícil de todos.
O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada E1945
Os três prisioneiros. Instante de ver, tempo para compreender, momento de concluir.
O número treze e a forma lógica da suspeita OE1946
Exercício lógico sobre a pesagem de moedas. Está nos Outros escritos, e não nos Écrits.
A ciência e a verdade E1965
Texto capital. As quatro causas; magia, religião, ciência, psicanálise; a foraclusão do sujeito pela ciência.
Problemas cruciais para a psicanálise resumoOE1966
Resumo do Seminário 12: Frege, a sutura, a garrafa de Klein.
A lógica da fantasia resumoOE1968
Resumo do Seminário 14, que não tem edição estabelecida.
O aturdito OE1972
O texto mais difícil de toda a obra. O dizer e o dito; as fórmulas da sexuação desenvolvidas; a topologia como demonstração.
Os discursos, o laço social e a época
Quando a psicanálise fala do mundo — e o que isso lhe custa.
Alocução sobre o ensino OE1970
A universidade tomada como discurso, e não como instituição.
Radiofonia OE1970
Sete respostas. Os quatro discursos, o gozo, o corpo, o significante. Extremamente denso, e o par obrigatório de Televisão.
Televisão TV1973
“Digo sempre a verdade: não toda.” O capitalismo, o racismo, o mal-estar, a diferença entre psicanálise e psicoterapia. O mais acessível — e por isso o mais mal lido.
Discurso de Tóquio TQ1971
Dito a analistas japoneses. O significante, a escrita, e o que numa outra língua não se deixa transportar.
O triunfo da religião TR1974
Conferência de imprensa em Roma: “governar, educar, analisar”; a angústia dos cientistas; “o Verbo faz gozar”; habituar-se ao real. Precedido do Discurso aos católicos (1960), que é de vinte e cinco anos antes e prepara o Seminário 7.
Da psicanálise em suas relações com a realidade OE1967
A psicanálise não trata da realidade: trata do real.
A instituição: fundar, transmitir, dissolver
Dezesseis anos entre um ato de fundação e uma carta de dissolução.
Ato de fundação OE1964
A École Freudienne de Paris, e o cartel: quatro mais um.
Discurso na Escola Freudiana de Paris OE1967
Dito diante da Escola que recebeu mal a Proposição.
Introdução de Scilicet… OE1968
Por que os artigos saem sem assinatura.
Pronunciamento na Escola OE1969
A crise interna depois de 1968.
Talvez em Vincennes… OE1975
As quatro disciplinas da formação: linguística, lógica, topologia, antifilosofia.
Carta de dissolução OE1980
“Falo sem a menor esperança de me fazer ouvir.”
O último ensino: o nó, o sinthoma, a suplência
Onde o pensamento está quase todo — e onde os escritos são poucos.
Prefácio a O despertar da primaveraOE1974
Wedekind, a adolescência, e “não há relação sexual” dita a propósito de uma peça.
A Terceira T31974
Os três gozos situados no nó. Ver a advertência acima sobre este arquivo.
Joyce, o Sintoma OE1975
O sinthoma, o escabelo, a escrita como suplência. Duas versões circulam, e não dizem o mesmo.
Prefácio à edição inglesa do Seminário 11 OE1976
O real, e o “il n’y a que ça”.
2. Nota sobre textos que não estão em nenhum dos dois volumes
Três peças importantes circulam fora dos volumes canônicos e frequentemente confundem quem estuda:
A conferência de Milão (12 de maio de 1972), onde o discurso capitalista é escrito. Não está nos Autres écrits na forma completa; circula em versões de trabalho.
Os "Nomes-do-Pai" (20 de novembro de 1963) — a única lição do seminário interrompido, publicada em volume separado.
Le savoir du psychanalyste (1971–72), seminário paralelo a …ou pire, com as conferências de Sainte-Anne.
Onde cada coisa está
A pesquisa
Ferramentas para localizar. Nenhuma delas responde “o que isto quer dizer” —
todas respondem “onde isto está”.
O índice remissivo abaixo foi computado varrendo o texto integral dos vinte e cinco seminários e
atribuindo cada ocorrência à sessão em que se encontra.
MÓDULO · ÍNDICE REMISSIVO COMPUTADO
130 conceitos, 25 seminários, 500 sessões
Cada linha é um conceito; cada coluna, um seminário.
A intensidade da célula é a densidade de ocorrências relativa ao máximo daquele conceito — o que
permite ver onde ele se concentra, e não apenas onde é frequente.
Toque numa célula para abrir a lista de sessões, com data e contagem; toque no nome do
conceito para ver todos os seminários. A lista é completa: todas as sessões em que o termo aparece, em ordem
cronológica, com as de maior densidade destacadas.
deslize para o lado para ver todos os seminários →
LIMITE DO MÉTODO — LEIA ANTES DE USAR
Uma contagem de ocorrências mede menção, não importância. Um conceito pode
organizar um seminário inteiro sendo nomeado três vezes, e outro pode aparecer cem vezes em digressões.
O caso exemplar está aqui mesmo: “sujeito” tem mais de dez mil ocorrências e isso não diz nada de específico.
Este índice serve para localizar — para saber em que sessão ir procurar — e nunca para hierarquizar.
Ele também não distingue Lacan de seus expositores convidados, nem menção de uso, nem afirmação de negação.
MÓDULO · CRONOLOGIA
A obra em uma linha do tempo
Cinquenta anos numa faixa só: a fita dos vinte e cinco seminários e, abaixo dela, setenta e um acontecimentos datados.
A fita de cima são os seminários, coloridos por dominante temática; arraste-a para o lado. Abaixo, três pistas de pontos: em vermelho as formalizações datadas lição por lição neste corpus — cada uma abre a lição exata; em azul os textos, com a data de escrita; em ocre, em losango, a vida, a instituição e a edição. Passe o cursor sobre um ponto e o painel abre o que ele traz.
Na tela do celular a mesma linha aparece como lista, ano a ano. A borda de cada item diz de que pista ele vem: vermelho para as formalizações datadas lição por lição neste corpus, azul para os textos, com a data de escrita, ocre para a vida, a instituição e a edição. Toque num item para abrir o que ele traz.
As datas da pista vermelha saem do corpus indexado aqui. As da pista azul vêm da Linha Temporal do Ensino de Jacques Lacan, de Bergson Paulino e Jefferson Weyne (2020), compilada a partir do Pas-tout Lacan da École lacanienne, de Roudinesco e do Staferla.
Três aglomerações que nenhuma leitura temática revela. A topologia das superfícies ocupa 1962–1966 e depois praticamente desaparece. Os nós só começam em maio de 1973 — ocupam os últimos seis anos e nada antes. E o intervalo 1968–1970 concentra, em dois anos, o mais-de-gozar, a não-relação sexual e os quatro discursos: é a densidade máxima de invenção de toda a obra.
Passe o cursor sobre um ponto — ou toque nele — para abrir o que ele traz. Clique para ir à lição.
Seminário 24L'insu que sait de l'une-bévue s'aile à mourreO insabido que sabe da uma-equivocação alça-se ao amor · nov. 1976 – jun. 1977
1977
Seminário 25Le moment de conclureO momento de concluir · nov. 1977 – jun. 1978
1980
1981
MÓDULO · PANORAMA DOS SEMINÁRIOS
Os vinte e cinco seminários em uma página
Cada seminário numa linha: o título, os anos, o número de lições e onde está o essencial.
#
título
anos
lições
onde está o essencial
1
Les écrits techniques de FreudOs escritos técnicos de Freud
1953–54
23
fala plena/vazia; o eu imaginário; modelo óptico; a Verneinung (10 fev. 54)
2
Le moi…O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise
1954–55
25
esquema L; A carta roubada; a máquina simbólica — psicanálise e cibernética (22 jun. 55)
3
Les psychosesAs psicoses
1955–56
25
foraclusão (15 fev. 56); metáfora/metonímia (9 maio 56); ponto de basta (6 jun. 56)
4
La relation d'objetA relação de objeto
1956–57
24
as três faltas de objeto; o pequeno Hans (abr.–jun. 57)
5
Les formations de l'inconscientAs formações do inconsciente
1957–58
27
o chiste; metáfora paterna (jan. 58); o grafo se constrói
6
Le désir et son interprétationO desejo e sua interpretação
1958–59
27
Ella Sharpe (jan.–fev. 59); Hamlet (mar.–maio 59); a fantasia
7
L'éthique de la psychanalyseA ética da psicanálise
1959–60
27
das Ding (dez. 59); Sade (30 mar. 60); Antígona (maio–jun. 60)
8
Le transfertA transferência
1960–61
27
o Banquete (nov.–dez. 60); agalma (1 fev. 61)
9
L'identificationA identificação
1961–62
26
traço unário; o toro (11 abr. 62); cross-cap (jun. 62)
10
L'angoisseA angústia
1962–63
25
o objeto a; acting out × passagem ao ato (23 jan. 63)
11
Les quatre concepts…Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise
1964
20
tyché/automaton; o olhar (mar. 64); lamela (20 maio 64); alienação e separação (maio–jun. 64)
12
Problèmes cruciaux…Problemas cruciais para a psicanálise
1964–65
24
garrafa de Klein (dez. 64–jan. 65); Frege / sutura (27 jan. 65); Möbius (10 mar. 65)
13
L'objet de la psychanalyseO objeto da psicanálise
1965–66
23
"A ciência e a verdade" (1 dez. 65); topologia (30 mar. 66); Las Meninas (maio 66)
14
La logique du fantasmeA lógica da fantasia
1966–67
24
o cogito reescrito; número de ouro; gozo (maio–jun. 67)
15
L'acte psychanalytiqueO ato psicanalítico
1967–68
18
o ato; sujeito suposto saber (fev. 68); quantificadores (28 fev.–20 mar. 68)
16
D'un Autre à l'autreDe um Outro ao outro
1968–69
25
mais-de-gozar (13 nov. 68); Pascal (jan. 69); "não há relação sexual" (12 mar. 69)
17
L'envers de la psychanalyseO avesso da psicanálise
1969–70
13
os quatro discursos (26 nov. 69; 18 fev. e 11 mar. 70); Totem e tabu
18
D'un discours qui ne serait pas du semblantDe um discurso que não fosse semblante
1971
10
o semblante; a letra; Joyce (12 maio 71); Lituraterra
19
…ou pire…ou pior
1971–72
12
"Y a d'l'Un" (15 mar. 72); Peirce e os quantificadores (14 jun. 72)
20
EncoreMais, ainda
1972–73
13
sexuação (20 fev. e 13 mar. 73); não-todo (10 abr. 73); nó borromeano (15 maio 73); lalíngua (26 jun. 73)
21
Les non-dupes errentOs não-tolos erram°
1973–74
15
o equívoco do título (13 nov. 73); a trança; gozo e mulher (11 jun. 74)
22
R.S.I.Real, simbólico, imaginário
1974–75
12
consistência/ex-sistência/furo; sintoma como quarto (21 jan. 75); nominação (13 maio 75)
23
Le sinthomeO sinthoma
1975–76
11
o sinthoma (18 nov. 75; 17 fev. 76); Joyce; o ego como suplência (11 maio 76)
24
L'insu que sait…O insabido que sabe da uma-equivocação alça-se ao amor°
1976–77
12
l'une-bévue; identificação (16 nov. 76); a trança (18 jan. 77); o passe (8 fev. 77)
25
Le moment de conclureO momento de concluir
1977–78
12
a psicanálise não é uma ciência; o furo; Soury e Thomé (mar. 78)
Total verificado: 500 sessões documentadas no corpus.
MÓDULO · MUTAÇÕES CONCEITUAIS
A tabela de mutações — o que cada termo significa em cada década
Quase todo contrassenso sobre Lacan nasce de aplicar a um período o sentido que um termo tem em outro.
Esta é, na prática, a ferramenta mais útil do CyberLacan, porque quase todo contrassenso sobre Lacan nasce de aplicar a um período o sentido que um termo tem em outro. Vinte termos entram aqui, e o critério para entrar é exigente: não basta o termo atravessar a obra — é preciso que ele signifique coisas diferentes em cada um dos quatro períodos. Por isso “angústia” não está na tabela e “gozo” está.
DESTACAR DÉCADA:
termo
1953–1958
1959–1966
1967–1972
1973–1979
objeto a
o outro imaginário, o semelhante (esquema L)
objeto causa do desejo; resto da separação; o que cai
mais-de-gozar; produto do discurso
o que se aperta no centro do nó
o Outro
lugar da fala verdadeira; garantia
barrado: S(Ⱥ)
“não há Outro do Outro”; inconsistente
não existe como parceiro; “o Outro não existe”
gozo
quase ausente do vocabulário
além do prazer; ligado a das Ding
plural: fálico, do Outro, mais-de-gozar
inscrito no nó; gozo do sinthoma
o pai
função simbólica que ordena
pai da horda; exceção lógica
um mito; o pai morto de Totem e tabu
um nome entre outros; père-version; substituível pela suplência
sintoma
mensagem cifrada a decifrar
metáfora; retorno do recalcado
função no discurso
quarto elo que ata o nó; sinthoma; com que se aprende a fazer
sujeito
efeito da fala; $
dividido; evanescente entre dois significantes
efeito de discurso
parlêtre: um corpo afetado por lalíngua
inconsciente
estruturado como uma linguagem
hiância; pulsação temporal
saber que não se sabe
une-bévue: um tropeço, um engano de uma vez
real
o que resta fora do simbólico
o impossível; o encontro faltoso (tyché)
o que não cessa de não se escrever
a ex-sistência; o que não tem sentido nenhum
fim de análise
fala plena; assunção da história
travessia da fantasia
queda do sujeito suposto saber; destituição subjetiva
identificar-se com o sintoma; savoir-faire
escrita
secundária à fala
a letra começa a se separar do significante
a letra como litoral (Lituraterra)
operação que repara o nó; a escrita de Joyce
topologia
ausente
superfícies: toro, Möbius, cross-cap, Klein
as superfícies como demonstração (L'étourdit)
nós: borromeano, trevo, trança, reta infinita
interpretação
restituir a fala plena; pontuar a história
não dar sentido; visar o desejo
operar pelo equívoco; cortar
tocar o real pelo equívoco de lalíngua
desejo
o que se faz reconhecer na fala; desejo do desejo do Outro
articulado no grafo; sustentado pela fantasia $◊a; “não ceder de seu desejo”
efeito de discurso; o desejo do analista é uma função, não uma vontade
cede o primeiro plano ao gozo; o que resta dele passa pelo sinthoma
transferência
intersubjetividade; uma resistência a manejar pela fala
amor de transferência; o agalma suposto ao analista
sujeito suposto saber — e sua queda no fim (Proposição de 1967)
o amor como signo de que se está mudando de discurso
saber
o que o sujeito não sabe que sabe; articulado na cadeia
saber suposto ao Outro; o sujeito que a ciência sutura
S₂: o lugar do trabalho no discurso; um saber que se goza
savoir-faire: saber fazer com o sintoma, não saber sobre ele
verdade
“Eu, a verdade, falo”; a verdade da história do sujeito
uma causa; o que a ciência foraclui para poder operar
só se diz pela metade — o mi-dire; e ocupa um lugar, embaixo à esquerda
“digo sempre a verdade: não toda”
corpo
imagem: o corpo despedaçado que a forma antecipa e unifica
suporte dos objetos que dele se destacam — seio, fezes, olhar, voz
o que o significante marca e recorta; uma superfície com bordas
o que se goza; o parlêtre é um corpo afetado por lalíngua
linguagem
uma estrutura: o inconsciente é estruturado como uma linguagem
a letra começa a se destacar dela
não há metalinguagem; a linguagem se reparte em discursos
elucubração de saber sobre lalíngua — e lalíngua vem antes
significante
o que representa o sujeito para outro significante
S₁ e S₂; o traço unário como significante mínimo
S₁ é o significante-mestre, e comanda um discurso
“Y a d’l’Un”: o Um sozinho, antes de qualquer par
falo
o que falta à mãe; ser o falo, tê-lo, a mascarada
significante da falta: Φ, escrito também como √−1
a função Φx, e os quantificadores que a limitam
o gozo fálico, um dos gozos do nó — e aquele que não basta
A LISTA MESTRA
Duzentos itens: tudo o que precisa ser elucidado
O inventário completo, em dezesseis famílias. Cada item traz o que ele é, onde costuma ser mal entendido, e em que lição ir procurar — e cada localização é um link. Filtre por qualquer palavra.
O inventário do que um material didático sobre Lacan precisa cobrir. Está organizado por natureza do item, e não por seminário, porque é assim que se constrói um currículo — mas cada item devolve ao corpus pelo caminho mais curto.
As localizações obedecem à mesma regra da linha do tempo: uma data só entra se for data de lição no índice deste site. Onde o item se elucida num texto escrito, e não numa lição, a referência traz a sigla do volume (EEscritos · OEOutros escritos · L volume à parte). Onde a noção atravessa um ano inteiro sem lugar único, a localização é o seminário todo.
1. As três ordens e o nó
1Imaginário — a imagem, a forma, a captura especular (S1, S2)A ordem da imagem, da forma e da semelhança — e a da captura: o eu se constitui numa imagem que vem de fora e que ele toma por si. Imaginário não quer dizer “irreal”; quer dizer da ordem da imagem.S1 · 7 abr. 1954S2 todo o anoE O estádio do espelho
2Simbólico — a lei, a diferença, a cadeia (S2, S3)A ordem da lei, da diferença e da cadeia. Um significante não tem valor em si: tem valor por não ser os outros. É a ordem em que se conta, se nomeia e se troca.S2 · 22 jun. 1955S3 · 6 jun. 1956E Função e campo da fala e da linguagem
3Real — o impossível, o que retorna ao mesmo lugar (S7, S11)O que resiste à simbolização — não o que está “lá fora”. Definido três vezes ao longo da obra: o que resta fora do simbólico, depois o impossível, depois a ex-sistência.S7 · 27 jan. 1960S11 · 19 fev. 1964S22 todo o ano
4A distinção real / realidade — erro nº 1 dos iniciantesErro nº 1. A realidade é o que a fantasia enquadra e torna habitável; o real é o que fura esse enquadramento. A realidade é do lado do sentido; o real não tem sentido nenhum.S11 · 19 fev. 1964S23 todo o ano
5O nó borromeano de três (S20, 15 maio 1973)Três elos tais que, cortado um qualquer, os outros dois ficam livres — nenhum está preso a nenhum, e ainda assim os três se seguram. Entra no Seminário 19, em 9 de fevereiro de 1972, e é retomado no fim de Encore.S20 · 15 maio 1973S22 todo o ano
6As sete regiões do nó e seus nomes: sentido, gozo fálico, gozo do Outro, objeto aO nó de três recorta sete regiões, e cada uma tem nome: o sentido entre simbólico e imaginário, o gozo fálico entre simbólico e real, o gozo do Outro entre real e imaginário, e o objeto a no centro, onde os três se cruzam.S22 todo o anoL A Terceira
7Por que borromeano e não em corrente — a recusa da relação bináriaNuma corrente, cada elo prende o vizinho: é a relação binária. No nó borromeano não há relação de dois — só o três segura. É a escrita da tese de que não há relação sexual.S20 · 15 maio 1973S22 todo o ano
8O quarto elo; a nominação; o sinthoma (S22, 13 maio 1975; S23, 18 nov. 1975)Quando o nó de três falha, um quarto elo o repara. Esse quarto tem três nomes conforme o ângulo: nominação, sintoma, sinthoma.S22 · 13 maio 1975S23 · 18 nov. 1975
2. O significante e a letra
9Significante e significado; o algoritmo S/s(Instância da letra)S/s: o significante sobre o significado, e a barra entre eles. Saussure escrevia o contrário, e com uma elipse em torno do par; Lacan inverte e corta a elipse.S3 · 9 maio 1956E A instância da letra
10A barra como resistência, não correspondênciaA barra não é um traço de correspondência: é o que resiste à significação. Ler S/s como “este significante quer dizer aquele significado” é desfazer toda a operação.S3 · 9 maio 1956E A instância da letra
11O significante representa o sujeito para outro significanteA definição canônica, e a mais maltratada: o significante representa o sujeito para outro significante — e não para uma pessoa, nem para um sentido. O sujeito é o que aparece entre dois, e desaparece.S9 · 24 jan. 1962S11 · 3 jun. 1964
12A cadeia; a diacronia; a retroaçãoA cadeia se escreve para a frente e significa para trás. Só no fim da frase é que as palavras anteriores ganham o sentido que terão tido.S3 · 6 jun. 1956S5 · 29 jan. 1958
13O ponto de basta(S3, 6 jun. 1956)Point de capiton: o ponto em que o significante detém o deslizamento e fixa a significação — como o botão que prende o estofo. A metáfora é de estofador, e é literal.S3 · 6 jun. 1956S5 todo o ano
14Metáfora — a fórmula, o cruzamento da barra, o significante que cai (S3, 9 maio 1956)Um significante vem no lugar de outro, e o substituído cai sob a barra. É o cruzamento da barra que produz significação nova — e é por isso que a metáfora é o mecanismo do sintoma.S3 · 9 maio 1956S5 · 29 jan. 1958E A instância da letra
15Metonímia — o deslizamento, a barra mantidaO deslizamento de um significante ao seguinte, com a barra mantida. Nenhuma significação nova: por isso a metonímia é o mecanismo do desejo, que não se satisfaz em objeto nenhum.S3 · 9 maio 1956E A instância da letra
16Condensação e deslocamento em Freud, e sua traduçãoFreud descreve condensação e deslocamento como trabalho do sonho; Lacan os traduz em metáfora e metonímia — e a tradução não é ilustrativa, é uma tese sobre o inconsciente.S5 · 20 nov. 1957E A instância da letra
17A letra distinguida do significante (Lituraterra, S18)A letra não é o significante: é o seu suporte material, o que nele não faz sentido. O litoral entre saber e gozo — e é por isso que a letra tem borda, e o significante não.S18 todo o anoOE Lituraterra
18Lalíngua(S20, 26 jun. 1973)Lalangue, numa só palavra: o que resta do banho de língua em que o corpo foi mergulhado, antes de qualquer gramática. A linguagem é a elucubração de saber sobre lalíngua.S20 · 26 jun. 1973S21 todo o anoS24 todo o ano
19O equívoco e a homofonia como via da interpretaçãoA interpretação não dá sentido: corta pelo equívoco — homofonia, gramática, lógica. É a técnica que corresponde a lalíngua.S21 · 13 nov. 1973S24 todo o ano
20O traço unário (S9)Einziger Zug: o traço que só marca que houve uma marca, sem nada qualificar. O bastão com um entalhe de que Lacan fala: um, e mais um, e mais um — e cada um idêntico aos outros por ser puro traço.S9 · 29 nov. 1961S9 · 6 dez. 1961S17 todo o ano
21A escrita, o litoral, o ravinementRavinement: a escrita como sulco, rasgo na superfície — e não como registro do que se disse. A planície siberiana vista do avião, e a caligrafia.S18 todo o anoOE Lituraterra
22O sujeito da enunciação e o sujeito do enunciado; o "ne" expletivo (S6, dez. 1958)Quem fala não é quem é falado. O “ne” expletivo do francês — je crains qu’il ne vienne — é a pegada gramatical do sujeito da enunciação dentro do enunciado.S6 · 10 dez. 1958S9 · 22 nov. 1961
3. O sujeito
23O sujeito não é a pessoa nem o euNem a pessoa, nem o indivíduo, nem o eu. O sujeito da psicanálise é um efeito do significante — aparece e desaparece entre dois, e por isso se escreve barrado.S11 · 3 jun. 1964S14 · 25 jan. 1967
24O eu (moi) como instância imaginária (S1, S2)Moi: a instância imaginária, sede do desconhecimento. Não é o aliado do tratamento — é o que resiste. Toda a crítica à ego psychology está nisto.S1 · 31 mar. 1954S2 todo o ano
25O estádio do espelho (1949; S1)A criança reconhece-se no espelho antes de ter coordenação: a imagem antecipa uma unidade que o corpo ainda não tem. A identificação é jubilatória e alienante — as duas coisas, sempre.S1 · 7 abr. 1954E O estádio do espelho
26Eu ideal e ideal do eu; i(a), m, I(A)(Observação sobre Lagache)Três termos que a exposição corrente confunde: i(a), a imagem do outro; m, o eu; I(A), o traço tomado do Outro a partir do qual o sujeito se vê. Ideal do eu é simbólico; eu ideal é imaginário.S1 · 31 mar. 1954S8 · 7 jun. 1961E Observação sobre o relatório de Daniel Lagache
27O esquema óptico do buquê invertido, com e sem espelho planoO buquê invertido: um espelho côncavo produz a imagem real de um vaso em torno das flores. Acrescente-se um espelho plano, e a posição do observador passa a depender do Outro. O modelo e o espelho plano estão no Seminário 1 (abril de 1954); o texto sobre Lagache os retoma.S1 · 7 abr. 1954E Observação sobre o relatório de Daniel Lagache
28O sujeito barrado $; a divisão$: o sujeito é dividido porque fala. Não há um sujeito primeiro que depois se divide — a divisão é constitutiva.S11 · 17 jun. 1964S14 · 25 jan. 1967
29A afânise e o desaparecimento (S6, S11)Aphanisis: Ernest Jones chamava assim o desaparecimento do desejo; Lacan desloca o termo para o desaparecimento do sujeito sob o significante que o representa.S6 · 17 dez. 1958S11 · 3 jun. 1964
30O tempo lógico: instante de ver, tempo para compreender, momento de concluir (1945)O sofisma dos três prisioneiros: o instante de ver, o tempo para compreender, o momento de concluir. A conclusão é antecipada e por isso arriscada — e é assim que o sujeito se afirma.E O tempo lógicoS25 todo o ano
31"Wo Es war, soll Ich werden" e a torção de LacanFreud escreve “onde isso era, eu devo advir”; a tradução corrente psicologiza (“o eu deve tomar o lugar do isso”). Lacan lê ao contrário: é dever ético de advir ali onde isso falava.E Subversão do sujeitoS11 todo o ano
32A sutura: o zero contado como um (S12, Frege)Frege faz o zero ser contado como um, e é assim que a série dos números começa. Miller chama a isso sutura, numa exposição no seminário em 24 de fevereiro de 1965. Lacan já usava a palavra, mas para a costura de bordas na topologia: o conceito, nesse sentido lógico, é de Miller.S12 · 24 fev. 1965S12 · 2 jun. 1965
4. O Outro
33O Outro não são as outras pessoasA não são as outras pessoas: é o lugar da linguagem, o tesouro dos significantes, aquilo a que a fala se endereça mesmo quando não há ninguém.S2 todo o anoS5 · 11 dez. 1957
34A como tesouro dos significantes e lugar da falaO Outro como lugar de onde se fala e onde a fala é recebida. É por estar lá que uma mensagem pode ser verdadeira ou falsa — e que se pode mentir.S2 todo o anoS5 · 11 dez. 1957S9 · 22 nov. 1961
35O Outro barrado Ⱥ; S(Ⱥ)Ⱥ: o Outro é barrado porque também lhe falta um significante. S(Ⱥ) é o significante dessa falta no Outro — e é o ponto mais alto do grafo do desejo.S12 · 16 jun. 1965E Subversão do sujeito
36"Não há Outro do Outro" (S16)Não há um segundo Outro que garanta o primeiro. Nenhuma metagarantia: a verdade não tem fiador.S16 todo o anoS16 · 11 jun. 1969
37"Não há metalinguagem"Não há língua de fora a partir da qual se fale sobre a língua. É a mesma tese do item anterior, em registro lógico.S14 · 23 nov. 1966S16 todo o ano
38O Che vuoi? e o enigma do desejo do Outro (S6)Che vuoi? — “que queres?”, tomado a Cazotte. O sujeito não pergunta o que o Outro diz, mas o que ele quer ao dizer. Do enigma dessa pergunta nasce a fantasia, como resposta.S6 · 19 nov. 1958E Subversão do sujeito
39A mensagem recebida em forma invertidaA fórmula do grafo: o emissor recebe do receptor a própria mensagem em forma invertida. Dizer “tu és minha mulher” é ficar comprometido por aquilo que se disse.S2 todo o anoS3 · 30 nov. 1955
40A extimidade (S7)O mais íntimo é o mais estranho: o que há de mais próprio no sujeito tem estatuto de exterior. A palavra é composta — ex + intimidade, e Lacan a forja a propósito da Coisa.S7 · 10 fev. 1960
5. Desejo, demanda, gozo
41Necessidade / demanda / desejo — a subtração (S5)A necessidade passa pelo pedido e, ao passar, perde-se: o que sobra da subtração é o desejo. Nenhum objeto o satisfaz, porque ele não é falta de objeto — é o resto de uma operação.S5 · 7 maio 1958E A direção do tratamento
42Toda demanda é demanda de amorToda demanda, qualquer que seja o seu objeto, pede também a presença de quem responde. Por isso satisfazer o pedido não apaga a demanda.S5 · 7 maio 1958S5 · 14 maio 1958
43O desejo como desejo do Outro, nos dois sentidosNos dois sentidos ao mesmo tempo: deseja-se o que o Outro deseja, e deseja-se ser desejado por ele. A ambiguidade não é defeito da fórmula.S6 · 19 nov. 1958S11 · 17 jun. 1964
44O desejo como metonímiaO desejo desliza de significante em significante e não para em nenhum: a metonímia é a sua estrutura, e não apenas uma imagem dela.S3 · 9 maio 1956S6 · 10 jun. 1959
45O desejo insatisfeito (histeria) e o desejo impossível (obsessão) (S5, S6)Duas soluções para o mesmo impasse: a histérica sustenta um desejo insatisfeito — o sonho do salmão defumado —, o obsessivo um desejo impossível. Não são graus de gravidade: são posições.S5 · 30 abr. 1958S5 · 21 maio 1958
46Das Ding(S7); a distinção das Ding / die SacheDas Ding: o vazio em torno do qual gira toda a representação. Freud escreve Sachvorstellung, e não Dingvorstellung — e é sobre essa letra que Lacan apoia a distinção entre a Coisa e a coisa.S7 · 9 dez. 1959S7 · 16 dez. 1959
47O vazio e o vaso; a caixa de fósforos (S7)O vaso do oleiro é feito em torno de um vazio, e o vazio é anterior ao barro. A caixa de fósforos de Prévert, enfileirada às centenas, mostra o mesmo pelo avesso.S7 · 20 jan. 1960S7 · 27 jan. 1960
48A sublimação: elevar o objeto à dignidade da CoisaA definição que todo mundo cita: elevar o objeto à dignidade da Coisa. Falta sempre a metade seguinte — a sublimação não é uma saída elevada nem uma renúncia bem-sucedida.S7 · 9 mar. 1960S16 · 23 abr. 1969
49Gozo e princípio do prazer; o alémO prazer é homeostático: baixa a tensão. O gozo vai além, e por isso dói. Não é “prazer intenso” — é o que o princípio do prazer existe para conter.S10 · 13 mar. 1963S7 todo o ano
50Gozo fálico JΦ; gozo do Outro J(Ⱥ); gozo suplementar (S20)JΦ, o gozo fálico, que passa pelo órgão e pelo significante; J(Ⱥ), o gozo do Outro, que não há; e o suplementar — que é suplementar, e não complementar: não completa coisa nenhuma.S20 · 20 fev. 1973S22 todo o ano
51Mais-de-gozar e a analogia com a mais-valia (S16, 13 nov. 1968)Plus-de-jouir, construído por homologia com a mais-valia de Marx — e Lacan insiste em que é homologia, e não metáfora nem analogia.S16 · 20 nov. 1968S16 · 4 dez. 1968
52"Não ceder de seu desejo" — e o que isso não quer dizer (S7)Não quer dizer “realize seus desejos”. Quer dizer não recuar diante do que o próprio desejo tem de insuportável — e é uma máxima de tragédia, não de autoajuda.S7 · 6 jul. 1960S7 · 15 jun. 1960
6. O objeto a
53As três mutações de a: outro imaginário → objeto causa → mais-de-gozarO mesmo sinal, três coisas: nos anos 50 o outro imaginário do esquema L; nos 60 o objeto causa do desejo, resto da separação; nos 70 o mais-de-gozar. Aplicar o terceiro sentido a um texto do primeiro período é o erro mais comum de todos.S10 · 3 jul. 1963S16 · 20 nov. 1968S2 todo o ano
54a como causa e não como objeto desejadoa não é o que se deseja: é o que causa o desejo, e por isso está atrás, e não à frente. Confundir causa com objeto desfaz a fantasia inteira.S10 · 19 jun. 1963S11 · 20 maio 1964
55As três faltas de objeto: frustração, privação, castração — e o cruzamento dos registros (S4)Frustração, privação, castração — e o quadro que as cruza com os três registros, com três agentes e três tipos de objeto. É a tabela mais útil do Seminário 4, e a mais copiada errada.S4 · 30 jan. 1957S4 todo o ano
56Os objetos: seio, fezes, olhar, voz; os derivados: nada, fonema, faloSeio, fezes, olhar, voz — os quatro que se destacam do corpo. Os dois últimos são acréscimo de Lacan a Freud, e é neles que está a novidade.S10 · 19 jun. 1963S11 · 11 mar. 1964
57O olhar como objeto; a esquize do olho e do olhar(S11)O olho vê; o olhar vem do lado do objeto e olha o sujeito. A esquize entre os dois é o que a perspectiva clássica recobre e a anamorfose revela.S11 · 11 mar. 1964S13 · 25 maio 1966
58Os dois triângulos; a mancha; a telaO triângulo da perspectiva, com o ponto geometral, e o triângulo invertido, com o ponto luminoso; a mancha; e a tela, onde os dois se sobrepõem.S11 · 4 mar. 1964S11 · 11 mar. 1964
59A anamorfose; Holbein; Zêuxis e Parrásio; a lata de sardinhas (S7, S11)A caveira deformada no primeiro plano dos Embaixadores; Zêuxis, que engana os pássaros, e Parrásio, que engana Zêuxis; e a lata de sardinhas que brilha no mar — “ela não te vê, mas olha para ti”.S7 · 10 fev. 1960S11 · 26 fev. 1964S11 · 4 mar. 1964
60Agalma(S8, 1 fev. 1961)O objeto precioso escondido dentro do Sileno feio. Alcibíades supõe-no em Sócrates, e é por isso que o ama — e Sócrates devolve-lhe: “é a Agatão que te diriges”.S8 · 8 fev. 1961S8 · 1 fev. 1961
61A lamela e o mito da libido (S11, 20 maio 1964)A hommelette: o órgão irreal da libido, o que voa quando se rompem as membranas do ovo. É um mito, e Lacan diz que é — o que não o torna dispensável.S11 · 20 maio 1964E Posição do inconsciente
62O objeto como queda; a angústia e o objeto (S10)O a é o que cai, o que se cede. A angústia surge quando essa queda não se dá — quando a falta falta.S10 · 30 jan. 1963S10 · 3 jul. 1963
63A extração do a do cross-cap (S9, S13)O duplo corte no cross-cap — o oito interior — destaca um disco e deixa o resto orientável. É a demonstração topológica da extração do objeto.S9 · 13 jun. 1962S13 · 15 dez. 1965
7. O falo e a sexuação
64O falo não é o pênisErro elementar. O falo é um significante, não um órgão. Uma mulher pode tê-lo, um homem pode não tê-lo — e é disso que a clínica trata.S4 · 30 jan. 1957S5 · 7 maio 1958E A significação do falo
65Falo imaginário φ; falo simbólico Φ; (−φ)Três escritas que não se substituem: φ, o falo imaginário, que se tem ou não se tem; Φ, o simbólico, significante da falta; (−φ), o negativo que a castração inscreve na imagem do corpo.S4 · 30 jan. 1957S10 · 5 dez. 1962
66Ser o falo / ter o falo; a mascarada (S5)A criança é ou não é o falo da mãe; o adulto tem-no ou não o tem. E a mascarada: exibe-se ter para ocultar não ser.S5 · 12 mar. 1958S5 · 7 maio 1958
67A significação do faloO texto de Munique. O falo é o significante destinado a designar os efeitos de significado — e só desempenha esse papel velado. Não é uma tese sobre o corpo masculino.E A significação do faloS18 · 9 jun. 1971
68O falo como √−1(Subversão do sujeito)√−1: um número que não existe no campo dos reais e sem o qual as contas não fecham. A escrita é literal, e é assim que deve ser explicada.E Subversão do sujeitoS9 · 17 jan. 1962
69As fórmulas da sexuação: ∃x Φ̄x, ∀x Φx, ∃̄x Φ̄x, ∀̄x Φx(S19, S20)Quatro fórmulas, e as duas primeiras são as que todo mundo troca: existe ao menos um que não, e todos; do outro lado, não existe nenhum que não, e não-todo.S18 · 19 maio 1971S19 · 15 dez. 1971S20 · 13 mar. 1973
70A exceção que funda o todo; o pai da hordaO todo só se fecha porque há uma exceção que o funda: é o pai da horda de Totem e tabu, lido como operador lógico, e não como facto antropológico.S17 · 18 mar. 1970S19 · 10 maio 1972
71O não-todo e por que ele exige o domínio infinito (S20, 13 mar. 1973)O não-todo não é “parcial” nem “menos”: é uma quantificação que não fecha em conjunto. Por isso exige um domínio infinito — e é aí que Cantor entra.S19 · 8 dez. 1971S19 · 10 maio 1972S20 · 13 mar. 1973
72La̶ — "A mulher não existe": a barra sobre o artigoA barra cai sobre o artigo, e não sobre as mulheres: não há A mulher, com maiúscula, porque não há universal que as reúna — as mulheres se contam uma a uma.S20 · 13 mar. 1973S22 · 18 fev. 1975
73O andar de baixo: $ → a; La̶ → Φ e La̶ → S(Ⱥ)No quadro da sexuação, o andar de baixo: do lado macho, $ vai a a; do lado mulher, duas setas partem — uma para Φ, outra para S(Ⱥ). É o esquema do desencontro.S20 · 20 mar. 1973S20 · 13 mar. 1973
74"Não há relação sexual"(S16, 12 mar. 1969 → S19, S20)Primeira ocorrência no corpus: 12 de março de 1969, no meio de uma lição sobre sublimação. Só anos depois vira escrita lógica, nas fórmulas da sexuação. Não quer dizer que não haja relações sexuais: quer dizer que não há fórmula que as escreva.S16 · 12 mar. 1969S18 · 19 maio 1971S20 · 20 mar. 1973
75A lógica modal: necessário, possível, contingente, impossível (S20)Necessário, possível, contingente, impossível — redefinidos pela escrita: o que não cessa de se escrever, o que cessa, o que cessa de não se escrever, o que não cessa de não se escrever.S20 · 8 maio 1973S21 · 8 jan. 1974
76A controvérsia lógica sobre a escrita ∀̄x — a registrar, não a esconderA escrita ∀̄x é objeto de crítica lógica séria: negar um quantificador universal não é operação regular na lógica de predicados. É honesto registrar a disputa em vez de escondê-la.S19 · 14 jun. 1972S20 · 20 mar. 1973
8. O pai e as estruturas
77Os três pais: real, simbólico, imaginárioReal, simbólico, imaginário: o que se ocupa, o que nomeia e o que rivaliza. Não são três pessoas, e nenhum deles é o pai da família.S4 · 19 jun. 1957S22 · 15 abr. 1975
78O Nome-do-Pai como função significante (S5)O Nome-do-Pai é uma função significante, não um homem. Pode ser sustentada por qualquer coisa que nomeie o desejo da mãe — e é por isso que a foraclusão não é “ter tido um pai ausente”.S5 · 29 jan. 1958S4 · 5 jun. 1957
79A metáfora paterna e sua escrita (S5, jan. 1958)A fórmula com quatro termos, em que o Nome-do-Pai substitui o Desejo da Mãe e o resultado é a significação fálica. Três lições seguidas, em janeiro de 1958.S5 · 29 jan. 1958E De uma questão preliminar
80Os três tempos do Édipo — lógicos, não cronológicosTrês tempos lógicos, e não cronológicos: a criança como falo da mãe; a intervenção do pai como privação; e a permutação que dá o ter. Lê-los como etapas de desenvolvimento é o erro clássico.S5 · 29 jan. 1958S5 todo o ano
81Recalque (Verdrängung) → neurose; retorno no simbólicoVerdrängung. O que é recalcado retorna no simbólico — no sintoma, no lapso, no sonho. É o mecanismo da neurose.S1 · 10 fev. 1954S3 · 15 fev. 1956
82Desmentido (Verleugnung) → perversão; a clivagem; o feticheVerleugnung. Sabe-se e não se quer saber ao mesmo tempo: a clivagem. O fetiche é o monumento dessa recusa. Mecanismo da perversão.S6 · 24 jun. 1959S4 todo o ano
83Foraclusão (Verwerfung) → psicose; retorno no real (S3, 15 fev. 1956)Verwerfung. O que não foi admitido no simbólico retorna no real — na alucinação, no fenômeno elementar. Mecanismo da psicose. É nesta data que a Verwerfung é distinguida do recalque; a tradução “forclusion” só é adotada em 4 de julho de 1956.S3 · 15 fev. 1956S3 · 11 jan. 1956
84Os fenômenos elementares; a certeza; o neologismoO fenômeno elementar não é um fragmento de delírio: é a estrutura inteira em miniatura. Traz certeza, e não dúvida — e muitas vezes um neologismo.S3 · 23 nov. 1955S3 todo o ano
85O desencadeamento e o encontro com "Um-pai"O desencadeamento dá-se quando um Um-pai surge em oposição ao sujeito num lugar em que o Nome-do-Pai nunca esteve. Daí ser possível uma psicose não desencadeada durante décadas.S3 · 4 jul. 1956E De uma questão preliminar
86O delírio como reconstrução, não como destruiçãoO delírio é trabalho: uma tentativa de cura, uma reconstrução — e não uma ruína. Schreber constrói um mundo; não o perde.S3 todo o anoOE Apresentação das Memórias de um doente dos nervos
87Os esquemas R e I (D'une question préliminaire)O esquema R, com os vértices M, I, P e o campo da realidade; e o esquema I, com os buracos P₀ e Φ₀ e as curvas assintóticas. A nota de 1966 declara que o campo R é um corte de cross-cap.E De uma questão preliminarS13 · 15 dez. 1965
88A suplência e o sinthoma (S23); a père-version (S22)Quando o Nome-do-Pai não amarra, outra coisa pode fazer o trabalho: é a suplência, e o sinthoma é o seu nome no último ensino. Père-version: a versão do pai que faz de uma mulher a causa do seu desejo.S22 · 8 abr. 1975S23 · 11 maio 1976
89Advertência ética: estrutura não se diagnostica por frase isoladaAdvertência ética. Estrutura não se diagnostica por uma frase isolada, nem por um traço de caráter, nem por um teste. O CyberLacan localiza conceitos; não autoriza ninguém a classificar ninguém.S3 todo o ano
9. A pulsão e a repetição
90Pulsão não é instinto; não há objeto naturalTrieb não é instinto: não tem objeto natural nem ciclo biológico. O objeto da pulsão é indiferente — o que conta é o contorno.S11 · 20 maio 1964E Do “Trieb” de Freud
91O circuito: borda, alvo (but) e finalidade (fin); a satisfação no retorno(S11)A pulsão parte de uma borda, contorna o objeto e volta. O alvo (but) é o percurso; a finalidade (fin) é a satisfação — obtida no retorno, e não na captura.S11 · 20 maio 1964S11 · 3 jun. 1964
92A voz média: se faire voir, se faire entendreSe faire voir, se faire entendre: a pulsão só se completa na voz média, em que o sujeito se faz objeto. É por aí que o olhar e a voz entram.S11 · 20 maio 1964
93As quatro pulsões e as quatro bordasOral, anal, escópica, invocante — e as bordas correspondentes: lábios, ânus, fenda palpebral, orifício do ouvido. A pulsão é sempre parcial.S11 · 20 maio 1964S10 · 19 jun. 1963
94Automaton e tyché(S11, fev. 1964)Automaton: a insistência da cadeia, o que retorna sempre ao mesmo lugar. Tyche: o encontro faltoso com o real, que nunca se dá. Os dois nomes vêm de Aristóteles.S11 · 19 fev. 1964S11 · 12 fev. 1964
95A compulsão à repetição e a insistência da cadeiaA Wiederholungszwang de Freud relida como insistência do significante: não se repete um acontecimento, repete-se uma posição na cadeia.S2 · 30 mar. 1955S11 · 19 fev. 1964
96A carta roubada: os três lugares; as redes α β γ δ; a memória que emerge da simbolizaçãoOs três lugares e os três olhares: quem não vê; quem vê que o primeiro não vê; e quem vê que os dois primeiros deixam à vista o que há a esconder. O apêndice sobre as redes α β γ δ mostra uma memória que emerge da pura simbolização.S2 · 26 abr. 1955S2 · 30 mar. 1955E O seminário sobre “A carta roubada”
97O fort-da como par mínimo (S1, S11)O carretel: fort e da, ausência e presença. O par mínimo — dois significantes — com que uma criança inscreve a partida da mãe.S11 · 19 fev. 1964S1 todo o ano
10. Angústia, ato, transferência
98A angústia não é sem objeto(S10)A formulação é negativa por necessidade lógica: dizer “a angústia tem um objeto” já a transformaria em medo. Ela não é sem objeto — e o objeto é o a.S10 · 30 jan. 1963S10 todo o ano
99O quadro de dupla entrada: inibição/impedimento/embaraço; emoção/sintoma/passagem ao ato; turbulência/acting out/angústiaNove casas em três colunas e três linhas, montadas a partir do título de Freud: inibição, impedimento, embaraço; emoção, sintoma, passagem ao ato; turbulência, acting out, angústia.S10 · 5 dez. 1962S10 · 26 jun. 1963
100Acting out × passagem ao ato — a distinção por posição (S10, 23 jan. 1963)Distinção por posição, e não por gravidade: o acting out é uma mostração endereçada ao Outro, que pede interpretação; na passagem ao ato o sujeito identifica-se ao objeto e cai da cena.S10 · 23 jan. 1963S14 · 8 mar. 1967
101A angústia como o afeto que não enganaTodos os afetos enganam, porque deslizam de uma representação a outra. A angústia não: ela é a tradução subjetiva do objeto a, e por isso aponta certo.S10 todo o anoS10 · 6 mar. 1963
102Transferência: colocação em ato da realidade do inconsciente (S11)A definição do Seminário 11: colocação em ato da realidade do inconsciente — que é sexual. Não é “projeção do passado sobre o analista”, e essa diferença muda toda a condução.S11 · 29 abr. 1964S8 todo o ano
103Erastês/erômenos; a metáfora do amor; Alcibíades e SócratesErastês, o que ama e não sabe o que lhe falta; erômenos, o amado, que não sabe o que tem. A metáfora do amor é a inversão dos dois — e é isso que Alcibíades pede a Sócrates, que recusa.S8 · 7 dez. 1960S8 · 8 fev. 1961
104O amor: dar o que não se tem a quem não éDar o que não se tem: o amor é dar a própria falta. E “a quem não é” — porque se endereça ao ser do outro, e não aos seus atributos.S8 · 23 nov. 1960S5 · 29 jan. 1958
105O sujeito suposto saber e sua queda (S15)Não é um saber que o analista tenha: é um saber que lhe é suposto, e é essa suposição que faz a transferência funcionar. No fim, ele cai — e a queda é o que se verifica no passe.S11 · 24 jun. 1964S15 · 17 jan. 1968
106A fórmula da transferência da Proposição de 1967A fórmula escrita na Proposição de 1967, que articula o significante da transferência ao saber suposto. É o texto a pôr ao lado do Seminário 15.OE Proposição de 9 de outubro de 1967S15 · 21 fev. 1968
107O ato distinguido da ação; a destituição subjetiva; o passeO ato não é uma ação: é o que muda o sujeito que o pratica. A destituição subjetiva é o seu efeito no fim de análise, e o passe é o dispositivo para verificar se houve.S15 · 21 fev. 1968S15 · 10 jan. 1968
108O desejo do analistaNão é o desejo de que o paciente melhore, nem o de curar. É a função que sustenta a operação sem colocar ali o próprio querer — e, no fim do Seminário 11, Lacan o diz um desejo de obter a diferença absoluta.S11 · 24 jun. 1964OE Nota italiana
11. Os discursos
109Os quatro lugares: agente, outro, verdade, produçãoQuatro lugares fixos: agente (em cima à esquerda), outro (em cima à direita), verdade (embaixo à esquerda), produção (embaixo à direita). O que importa é a função do lugar, não o termo que ali passa.S17 · 11 mar. 1970S17 · 17 dez. 1969
110Os quatro termos: S₁, S₂, a, $Quatro termos que giram pelos quatro lugares: S₁, o significante-mestre; S₂, o saber; a, o mais-de-gozar; $, o sujeito dividido.S17 · 17 dez. 1969S17 · 11 mar. 1970
111As duas barras: o impossível (acima) e a impotência (abaixo)Duas barras que não são iguais: a de cima, entre agente e outro, marca o impossível; a de baixo, entre verdade e produção, marca a impotência. Trocá-las é ler os quatro discursos ao contrário.S17 · 11 mar. 1970S17 · 10 jun. 1970
112Discurso do mestre; impossível: governarS₁ no lugar do agente. Impossível: governar. É do discurso do mestre que o analítico é o avesso — daí o título do seminário.S17 · 18 fev. 1970S17 · 11 fev. 1970
113Discurso universitário; impossível: educarS₂ no lugar do agente: o saber comanda, e produz um sujeito dividido. Impossível: educar.S17 · 11 mar. 1970S17 · 17 jun. 1970
114Discurso da histérica; ele produz saber$ no lugar do agente: a histérica interroga o mestre e o faz produzir saber. É o único discurso que produz S₂ — e por isso o discurso da ciência lhe deve algo.S17 · 17 dez. 1969S16 · 18 jun. 1969
115Discurso do analista; impossível: psicanalisara no lugar do agente: o analista faz-se causa, e produz S₁. Impossível: psicanalisar.S17 · 11 mar. 1970S17 · 10 jun. 1970
116O quarto de volta e o sentido da rotaçãoOs quatro discursos não são quatro invenções: são as quatro posições que se obtêm girando os mesmos termos um quarto de volta. A rotação é a tese.S17 · 11 mar. 1970S17 · 26 nov. 1969
117O discurso capitalista e o circuito fechado sem perda (S17; Milão 1972)Um quinto, escrito fora do seminário: um circuito que se fecha sobre si mesmo e não produz perda. Aparece no Seminário 17 e é escrito na conferência de Milão, em 1972 — que não está nos Autres écrits.S17 · 9 abr. 1970S17 · 11 mar. 1970
118A releitura de Totem e tabu como mito e a crítica do Édipo (S17)Totem e tabu lido como mito, e não como história: o pai morto não explica a lei, é um efeito dela. Daí a crítica ao Édipo como “sonho de Freud”.S17 · 18 mar. 1970S17 · 11 mar. 1970
12. Topologia
119Por que topologia e não geometria: a estrutura sem métricaTopologia é o estudo do que resta invariante sob deformação contínua: vizinhança, borda, furo. Não há medida, não há distância — e é por isso que serve a uma estrutura que não é espacial.S9 · 30 maio 1962S21 · 15 jan. 1974
120Banda de Möbius: um lado, uma borda, não orientabilidade (S12, S13)Um lado, uma borda, não orientável. Corta-se ao meio e não se obtêm duas fitas: obtém-se uma só, o dobro do comprimento. O corte é o operador, não a figura.S9 · 13 jun. 1962S12 · 16 jun. 1965S13 · 15 dez. 1965
121Toro: demanda e desejo; as duas voltas; os números de enrolamento (S9)Duas voltas irredutíveis: a demanda dá voltas em torno do tubo, e a soma dessas voltas contorna, sem que o sujeito o saiba, o furo central — o lugar do desejo. Ao contar as suas voltas, o sujeito conta uma a menos.S9 · 30 maio 1962S9 · 11 abr. 1962
122Cross-cap / plano projetivo; a autointerseção como necessidade de ℝ³; a extração do disco (S9, S13)O plano projetivo. A autointerseção não pertence à superfície: é o preço de desenhá-la em três dimensões. Extrair um disco deixa uma banda de Möbius — e é essa extração que escreve o objeto.S9 · 13 jun. 1962S13 · 15 dez. 1965
123Garrafa de Klein: sem borda, sem interior, não separa o espaço (S12, dez. 1964–jan. 1965)Sem borda, sem interior, não separa o espaço em dentro e fora. O círculo de retrocesso é por onde a superfície se atravessa a si mesma.S12 · 16 dez. 1964S12 · 20 jan. 1965
124O corte como ato; o oito interiorO corte não representa o ato: é o ato. E o oito interior é o corte que, aplicado ao cross-cap, destaca o objeto.S9 · 30 maio 1962S9 · 27 jun. 1962
125O que um corte produz: número de peças, orientabilidade, bordas, característica de EulerDe um corte responde-se por quatro contas: quantas peças resultam, se são orientáveis, quantas bordas ficam, e qual a característica de Euler. É o que torna a figura verificável, e não decorativa.S13 · 30 mar. 1966S9 · 13 jun. 1962
126Nó borromeano(S20, 15 maio 1973); o nó de quatro (S22, S23); a trança (S21, S24); a reta infinita e o nó de trevo (S22)O de três entra em 1972, no Seminário 19, e volta em maio de 1973; o de quatro, quando o de três falha; a trança escreve o nó no tempo; e a reta infinita vale por um círculo, o que muda o que se pode atar.S20 · 15 maio 1973S22 · 13 maio 1975S21 · 18 dez. 1973S24 · 18 jan. 1977
127A advertência: o uso lacaniano é heurístico e disputado; marcar sempre a interpretaçãoAdvertência. O uso lacaniano da topologia é heurístico e disputado por matemáticos. Isso não o invalida — obriga a marcar sempre onde termina o teorema e começa a interpretação.S24 · 10 maio 1977S22 · 8 abr. 1975
13. Lógica, número, ciência
128Frege e a gênese do número; a sutura (S12)Zero, número, sucessor: o zero é o número que se atribui ao conceito de “não-idêntico-a-si”, e é contando-o que a série começa.S12 · 27 jan. 1965S19 · 19 jan. 1972
129Peirce e o quadrado lógico; os quantificadores (S15, S19)O quadrado lógico e os quantificadores discutidos a partir de Peirce — inclusive o caso em que não há nenhum sujeito a que o predicado se aplique.S15 · 7 fev. 1968S19 · 14 jun. 1972
130Gödel e a incompletude — e o limite da analogia (S16, S19)Um sistema suficientemente rico não pode ser ao mesmo tempo completo e consistente. Lacan usa-o, e o limite da analogia tem de ser dito: incompletude é um teorema sobre sistemas formais, não sobre o Outro.S16 · 11 dez. 1968S19 · 12 jan. 1972
131O número de ouro e Fibonacci como escrita do resto (S14, S16)A série de Fibonacci e a proporção áurea usadas para escrever o resto que não se deixa dividir — o a como o que sobra de toda partilha.S14 · 19 abr. 1967S16 · 29 jan. 1969
132"Y a d'l'Un"(S19)Há do Um: nem unidade, nem indivíduo — o Um do traço, anterior a qualquer par.S19 · 17 maio 1972S19 · 19 abr. 1972
133A teoria dos conjuntos; o Um-a-maisO conjunto, o elemento, o vazio — e o Um-a-mais que impede que o todo se feche. Cantor entra aqui, com os alephs e o inacessível.S19 · 10 maio 1972S21 · 8 jan. 1974
134O sujeito da ciência é o sujeito da psicanálise (A ciência e a verdade)O sujeito sobre o qual a psicanálise opera é o mesmo que a ciência moderna produziu e de que não quer saber. A tese está no último texto dos Écrits.E A ciência e a verdadeS13 · 8 dez. 1965
135A foraclusão do sujeito pela ciênciaA ciência opera foracluindo o sujeito: não é que ela o ignore por descuido — é condição do seu funcionamento. Daí a psicanálise não ser uma ciência e não ser por isso menos rigorosa.S13 · 8 dez. 1965S25 · 15 nov. 1977
14. Interlocutores que precisam ser apresentados
136Freud — obviamente, e texto a textoFreud é lido texto a texto, e quase sempre contra a leitura corrente dele. O retorno a Freud é um retorno à letra do texto freudiano.S1 todo o anoS11 todo o ano
137Saussure — e a inversão que Lacan lhe impõeSaussure é usado e invertido: o esquema do signo é virado, a elipse é cortada, e a barra passa a ser resistência. Citar Saussure para explicar Lacan sem dizer isso é reproduzir o contrário do que ele fez.S3 · 6 jun. 1956E A instância da letra
138Jakobson — metáfora/metonímia como eixosOs dois eixos — seleção e combinação — recebidos de Jakobson e transformados em metáfora e metonímia. Jakobson esteve no seminário.S5 · 6 nov. 1957S14 todo o ano
139Lévi-Strauss — a eficácia simbólica; a estrutura (S2)A eficácia simbólica e a noção de estrutura vêm daqui. Em 1956, Lacan intervém depois de uma exposição de Lévi-Strauss na Sociedade Francesa de Filosofia — e a resposta dele está publicada.S2 todo o anoL O mito individual do neurótico
140Hegel via Kojève — desejo e reconhecimento (S1, S2)Hegel chega pelo curso de Kojève: o desejo de reconhecimento, a luta, a dialética do senhor e do escravo. Nos anos 50 é decisivo; no fim, Lacan afasta-se dele explicitamente.S2 · 12 jan. 1955S16 · 25 jun. 1969
141Heidegger — a Coisa, a fala, o vaso (S1, S7, S9)A Coisa, a fala, o vaso — e a tradução que Lacan fez do Logos de Heráclito. Presente nos anos 50 e 60, e depois quase ausente.S7 · 27 jan. 1960S9 todo o ano
142Kant(S7, S9) e Sade(S7)Kant pela ética e pelo objeto; Sade como a verdade de Kant. O texto “Kant com Sade” é de 1962, mas exige o Seminário 7 inteiro.S7 · 15 jun. 1960S9 · 28 fev. 1962E Kant com Sade
143Platão — o Banquete (S8)O Banquete é lido por inteiro, discurso a discurso, na primeira metade do Seminário 8. É a leitura de um texto filosófico mais longa de toda a obra.S8 · 23 nov. 1960S8 · 8 fev. 1961
144Aristóteles — o quadrado lógico, a ética (S7, S19, S20)O quadrado lógico, a Ética a Nicômaco, automaton e tyche, e a questão do universal — Aristóteles é o interlocutor lógico constante.S7 todo o anoS11 · 19 fev. 1964S20 · 8 maio 1973
145Pascal — a aposta (S16)A aposta de Pascal é retomada duas vezes, e serve para escrever o que se ganha e o que se perde quando o que está em jogo é o gozo.S13 · 9 fev. 1966S16 · 12 fev. 1969
146Marx — a mais-valia (S16, S17)A mais-valia dá o modelo formal do mais-de-gozar — por homologia. E o discurso do mestre, com o seu avesso, deve a Marx a estrutura do que é produzido e de quem fica com o produto.S16 · 4 dez. 1968S17 · 11 fev. 1970
147Sófocles — Antígona (S7); Shakespeare — Hamlet (S6)Antígona ocupa quatro lições do Seminário 7; Hamlet, sete do Seminário 6. São as duas leituras literárias longas do período clássico.S7 · 15 jun. 1960S6 · 27 maio 1959
148Joyce(S18, S20, S23)Joyce atravessa o último ensino: aparece como exemplo do gozo da letra, e no Seminário 23 torna-se o caso de uma suplência pela escrita.S18 todo o anoS23 · 11 maio 1976
149Pichon e Damourette — a gramática (S3, S6)A gramática de Damourette e Pichon é usada a sério: o “ne” discordancial, as duas frases sobre a negação, e o lugar do sujeito da enunciação na sintaxe francesa.S3 · 13 jun. 1956S6 · 17 dez. 1958
150Jones, Klein, Balint, Winnicott, Anna Freud, Hartmann — os interlocutores polêmicosJones pelo simbolismo, Klein pelo objeto, Balint e Winnicott pela técnica, Anna Freud e Hartmann pelo eu. São interlocutores polêmicos: Lacan lê-os de perto e discorda ponto por ponto.S1 · 17 fev. 1954S4 · 28 nov. 1956S15 · 6 dez. 1967
15. Os casos e as demonstrações
151Dora(S1, 1954; S17, 18 fev. 1970)Lida três vezes, e cada vez de outro modo: em 1951 pelas inversões dialéticas; no Seminário 1 na sequência da técnica; e no Seminário 17 como a histérica que faz o mestre produzir saber. As três leituras não coincidem.S1 · 12 maio 1954S17 · 18 fev. 1970E Intervenção sobre a transferência
152O pequeno Hans(S4, abr.–jun. 1957)A fobia lida como mito: uma construção que supre o que a função paterna não amarrou. O cavalo não é um símbolo do pai — é uma solução.S4 · 27 mar. 1957S4 · 3 jul. 1957
153O Homem dos Lobos(S1, 19 maio 1954)Lido no Seminário 1 a propósito da Verwerfung: a alucinação do dedo cortado, que não foi recalcada e por isso retorna no real.S1 todo o anoS3 · 15 fev. 1956
154Schreber(S3, todo o ano)Schreber ocupa o Seminário 3 inteiro. O delírio como reconstrução; a Grundsprache; as “frases interrompidas”; e o “seria belo ser uma mulher submetida ao coito”.S3 todo o anoS3 · 21 mar. 1956
155Aimée (a tese de 1932)O caso da tese de 1932 — trezentas páginas, o único caso longo de toda a obra. Não está nos Écrits, e é o que falta a quase toda leitura da psicose.L Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade
156O sonho da injeção de Irma(S2)O sonho de Freud, lido como demonstração de que o sonho é estruturado como linguagem — e de que no seu fundo há um horror inominável, a garganta de Irma.S2 · 16 mar. 1955S2 · 26 jan. 1955
157O sonho da bela açougueira(Direção do tratamento)A paciente que quer caviar e não come: o desejo insatisfeito sustentado como tal. É o exemplo canônico do desejo da histérica, e está no texto de 1958.S5 · 7 maio 1958E A direção do tratamento
158O sonho de Ella Sharpe(S6, jan.–fev. 1959)O sonho analisado por Ella Sharpe, e a crítica de Lacan à leitura dela. O ponto é a função do significante no sonho, e não o conteúdo.S6 · 11 fev. 1959S6 todo o ano
159O esquecimento de Signorelli(S5, 20 nov. 1957)O nome esquecido, e a rede de associações que o substitui. Serve para mostrar o mecanismo da metáfora em ato — e reaparece anos depois, no Seminário 12.S5 · 20 nov. 1957S12 · 6 jan. 1965
160Hamlet(S6, mar.–abr. 1959)Sete lições sobre Hamlet, em que o desejo se lê no tempo: o luto, o falo, Ofélia como objeto, e a hora do ato que nunca chega.S6 · 27 maio 1959S8 · 24 maio 1961
161Antígona(S7, maio–jun. 1960)Quatro lições. A Áte, o ektos atas, a beleza como último véu; e a catarse relida por Jacob Bernays. É a demonstração da ética do desejo.S7 · 15 jun. 1960S7 · 29 jun. 1960
162Las Meninas(S13, maio 1966)Três lições sobre o quadro de Velázquez: a janela, o espelho, e a pergunta de onde o quadro nos vê. Michel Foucault estava na sala.S13 · 25 maio 1966S13 · 18 maio 1966
163Os Embaixadores de Holbein (S7, S11)A caveira em anamorfose no primeiro plano: o olhar que só se vê saindo de frente. Usado no Seminário 7 pela sublimação, e no 11 pelo objeto escópico.S7 · 10 fev. 1960S11 · 26 fev. 1964
164Joyce(S23)Joyce não é tomado como paciente: é tomado como obra. A pergunta “Joyce era louco?” é feita em voz alta a Jacques Aubert e deixada sem resposta.S23 · 10 fev. 1976S23 · 11 maio 1976
16. O último ensino (1973–1979) — a família que faltava
Estes 36 itens são os do último ensino. Eles fecham a lista e são, hoje, a parte mais citada e a pior compreendida da obra.
165Les non-dupes errent / les Noms-du-Père — o equívoco homofônico como tese (S21, 13 nov. 1973)Les non-dupes errent soa como les Noms-du-Père. O equívoco é a tese: nos dois termos é o mesmo saber, e é preciso ser dupe — colar à estrutura.S21 · 13 nov. 1973S21 · 11 dez. 1973
166Por que a recusa da ficção paterna produz extravio e não lucidezQuem recusa a ficção paterna não fica mais lúcido: fica errante. Não é um elogio da crença — é a constatação de que sem amarração não há orientação.S21 · 13 nov. 1973S21 · 11 dez. 1973
167O matema como programa de transmissão sem o mestre (S21, abertura)O matema é o que se transmite sem passar pela pessoa do mestre: uma escrita que se pode repetir sem compreender, e compreender depois.S21 · 13 nov. 1973S20 · 15 maio 1973
168As três dit-mensions de cada registro: consistência, ex-sistência, furo (S22)Cada registro tem três dit-mensões: consistência, ex-sistência e furo. É a grade com que todo o Seminário 22 trabalha.S22 · 17 dez. 1974S22 · 11 fev. 1975
169Consistência — o que segura; dominância imagináriaO que segura, o que faz corda. Dominância do imaginário — e por isso o imaginário deixa de ser o registro menor.S22 · 17 dez. 1974S22 · 11 fev. 1975
170Ex-sistência — o que insiste de fora; dominância realO que insiste de fora e não se deixa absorver. Dominância do real. A grafia com hífen é do próprio Lacan, e marca que se existe menos dentro do que fora.S22 · 17 dez. 1974S22 · 11 fev. 1975
171Furo — o que a linguagem abre; dominância simbólicaO que a linguagem abre e não fecha. Dominância do simbólico — o furo é a marca de que há significante.S22 · 17 dez. 1974S22 · 11 fev. 1975
172A reta infinita como equivalente do círculo no nó (S22, dez. 1974)Uma reta infinita vale topologicamente por um círculo: fecha-se no infinito. É o que permite atar com retas o que se ataria com argolas.S22 · 17 dez. 1974S23 todo o ano
173O nó de trevo e sua diferença do borromeanoNo trevo, os três se fazem de um só fio: cortado, desfaz-se tudo. É a figura oposta à borromeana, e serve para mostrar o que a borromeana tem de próprio.S23 · 10 fev. 1976
174A trança (tresse): o nó escrito no tempo (S21; S24, 18 jan. 1977)Tresse: o nó escrito no tempo, como sucessão de manobras. Com três fios, seis cruzamentos alternados bastam para tecer o nó borromeano.S21 · 18 dez. 1973S24 · 18 jan. 1977
175A nominação e seus três modos (S22, 13 maio 1975)Vinte e duas das vinte e cinco ocorrências do ano numa só lição, a última: nomear é o que faz o quarto elo.S22 · 13 maio 1975
176— nominação imaginária → inibiçãoNominação imaginária — e o que dela resulta é a inibição.S22 · 13 maio 1975
177— nominação simbólica → sintomaNominação simbólica — e o que dela resulta é o sintoma.S22 · 13 maio 1975
178— nominação real → angústiaNominação real — e o que dela resulta é a angústia.S22 · 13 maio 1975
179O sintoma como quarto elo(S22, 21 jan. 1975)O sintoma promovido a quarto elo: não é mais o que se decifra para desaparecer, é o que ata. A mudança de estatuto acontece aqui.S22 · 21 jan. 1975S22 · 13 maio 1975
180O sinthoma(S23, 18 nov. 1975) — e sua distinção do sintomaGrafia antiga de symptôme, recuperada para nomear o que não se decifra. O sintoma se interpreta; o sinthoma, não — com ele se aprende a fazer.S23 · 18 nov. 1975S23 · 17 fev. 1976
181O lapso do nó e sua reparação (S23, 17 fev. 1976)A expressão aparece uma só vez em todo o corpus. Um erro no entrelaçamento desfaz o nó; o sinthoma é o que vem repará-lo.S23 · 17 fev. 1976
182A suplência: o que faz o trabalho do Nome-do-Pai sem passar por eleO que faz o trabalho do Nome-do-Pai sem passar por ele. Não é substituto nem prótese: é outra solução para o mesmo problema de amarração.S23 · 11 maio 1976S22 · 15 abr. 1975
183O ego de Joyce como suplência pela escrita (S23, 11 maio 1976)Faltando-lhe a amarração paterna, Joyce construiu com a escrita um ego que segurou o nó. É o modelo do que uma suplência faz — e catorze das dezessete ocorrências de “ego” no ano estão nesta lição.S23 · 11 maio 1976
184Joyce como leitura de uma obra, não como caso clínicoJoyce não é um caso clínico: é a leitura de uma obra. A diferença é de método, e ignorá-la transforma o seminário num diagnóstico póstumo.S23 · 10 fev. 1976S23 · 16 mar. 1976
185Ulisses e Finnegans Wake no argumentoUlisses e sobretudo o Finnegans Wake, lido como sonho e como escrita que goza da letra. Clive Hart e o círculo e a cruz entram aqui.S23 · 16 mar. 1976S23 · 11 maio 1976
186Père-version: o pai que faz de uma mulher a causa de seu desejo (S22, S23)Père-version: versão do pai, e não perversão. O pai que serve é o que faz de uma mulher a causa do seu desejo — e só nessa medida.S22 · 21 jan. 1975S23 · 18 nov. 1975
187Parlêtre — o falasser, e por que ele substitui "sujeito" (S22, 11 mar. 1975)Parlêtre, o falasser: um corpo afetado por lalíngua. Vai substituindo “sujeito” nos últimos anos, e a substituição é uma tese sobre o corpo.S22 · 11 mar. 1975S22 · 17 dez. 1974
188L'une-bévue: Unbewusst traduzido por "uma-equivocação" (S24)Une-bévue traduz Unbewusst ao pé da letra: um-engano. Desloca o inconsciente do registro do saber recalcado para o do tropeço.S24 · 14 dez. 1976S24 · 17 maio 1977
189O inconsciente como tropeço e não como saber profundoConsequência do anterior: o inconsciente não é um saber profundo que se alcança, é um engano de uma vez que se repete.S24 · 14 dez. 1976S24 · 16 nov. 1976
190A releitura da identificação pelo nó (S24, 16 nov. 1976)A identificação, matéria do Seminário 9, é retomada quinze anos depois com o nó no lugar do traço unário.S24 · 16 nov. 1976S9 · 29 nov. 1961
191O fim de análise no último ensino: identificar-se com o sintoma / saber fazer com eleNão mais atravessar a fantasia: identificar-se ao sintoma, e saber fazer com ele. A mudança de definição é o que separa o último ensino dos anos 60.S23 · 13 jan. 1976S25 · 10 jan. 1978
192A diferença entre dissolver o sintoma e saber fazer com o sinthomaDissolver o sintoma supõe que ele seja todo decifrável. Saber fazer com o sinthoma supõe que não seja — e é a segunda proposição que o último ensino sustenta.S23 · 13 jan. 1976S23 · 17 fev. 1976
193O savoir-faire e a responsabilidade (S23, 13 jan. 1976)“Só se é responsável na medida do seu savoir-faire. O que é o savoir-faire? É a arte, o artifício.” A ética do último ensino cabe nestas duas frases.S23 · 13 jan. 1976
194"A psicanálise deve ser levada a sério, mas não é uma ciência"(S25) — e como conciliar com "A ciência e a verdade"Dita na abertura do Seminário 25 — e é preciso pô-la ao lado de “A ciência e a verdade”, de 1965, que parecia dizer o contrário. Não dizem: um fala do sujeito que a ciência produz, o outro do estatuto da prática.S25 · 15 nov. 1977S13 · 8 dez. 1965
195O real sem sentido, no seu estatuto final (S23, 13 abr. 1976)O real no seu estatuto final: não o impossível lógico dos anos 60, mas o que não tem sentido nenhum — um “bocado”, diz ele, sem o menor sentido.S23 · 13 abr. 1976S22 · 11 mar. 1975
196O trabalho matemático com Soury e Thomé: a psicanálise como pesquisa coletiva (S22–S25)Michel Soury e Michel Thomé trabalham os nós com Lacan, e corrigem-no. A psicanálise aparece aqui como pesquisa coletiva, e não como doutrina de um só.S22 · 8 abr. 1975S25 · 17 jan. 1978
197Os erros de nó de Lacan, reconhecidos por ele — e o que isso ensina sobre o estatuto da figuraLacan erra nós, é corrigido, e diz em voz alta que errou. Isso ensina o estatuto da figura: ela é verificável, e por isso pode estar errada — o que não acontece com uma metáfora.S24 · 10 maio 1977S25 · 21 mar. 1978
198O momento de concluir e sua relação com o tempo lógico de 1945O título do último seminário vem do sofisma de 1945: o momento de concluir é o terceiro tempo, aquele em que se decide antes de ter certeza.S25 · 10 jan. 1978E O tempo lógico
199A dissolução da École (1980) e a Lettre de dissolutionEm janeiro de 1980 Lacan dissolve a École que fundara em 1964. “Falo sem a menor esperança de me fazer ouvir.”OE Carta de dissoluçãoS25 todo o ano
200A escrita como operação, e não como registro (S21, S23, S24)A escrita deixa de ser registro do que se disse e passa a ser operação: o que faz furo, o que ata, o que repara. É o que Joyce faz, e é o que o nó escreve.S21 · 18 dez. 1973S23 · 11 maio 1976S24 · 8 mar. 1977
17. Nota sobre a proporção
A lista mestra tem 200 itens. Vale observar como eles se distribuem, porque a distribuição é ela mesma uma informação sobre a obra:
1953–1963 (S1–S10) concentra a maior parte dos itens de conceito: significante, sujeito, Outro, desejo, objeto, falo, estruturas. É a década em que o vocabulário se forma.
1964–1972 (S11–S19) concentra os itens de formalização: topologia das superfícies, lógica, quantificadores, discursos. É a década em que o vocabulário é submetido a escrita.
1973–1979 (S20–S25) concentra os itens de nó e de fim de análise. É a década em que a escrita se torna manipulação, e em que a clínica é reformulada a partir dela.
Um material didático que trate as três décadas com o mesmo peso reproduz um Lacan que não existiu. Um que trate só a primeira produz o Lacan dos manuais. Um que trate só a terceira produz o Lacan da moda — e ininteligível, porque o último ensino é integralmente uma reescrita do anterior.